Eis o Temido Caifás, numa representação cinematográfica da atualidade.

Os rabis estavam desconcertados com o que acontecia na Palestina com a presença de Yehoshua.

Os dois sacerdotes permaneceram quietos e calados por muito tempo, depois da partida de Yehudhah, que se retirou sem os cumprimentar como era devido. Então, voltando-se para Yehosef bar Caiapha (Caifás), seu genro, Anás, o sogro, perguntou:

— Acreditas mesmo que esse assassino ainda nos é útil? Eu não gosto da arrogância dele. E pode parecer até perseguição de minha parte, mas acho que ele é capaz de atentar contra nossas vidas. Cada vez agrada-me menos encontrar-nos a sós com ele. Ele não é saduceu. Não pertence à nossa casta, mas sim à casta criminosa nascida no seio dos fariseus mais severos. E a casta a que pertence tu e eu não apoiamos. Ainda não sei a razão de o mantermos como nosso espião, pois ele cada vez me parece mais disposto a defender e proteger o agitador que, dizem, é um verdadeiro milagreiro. Não que eu me incomode com ser ele um milagreiro, pois que os há às centenas por nosso território e de todas as nacionalidades. Mas sim porque apregoa aos quatro ventos que os tais milagres que realiza ele os faz com o poder d’Aquele a quem diz que é seu pai: O Inominável e Inefável Criador de todas as coisas e de todas as vidas. Além de ser uma insuportável blasfêmia, o infeliz desdiz nossa Torá Oral. Isto é perigoso, pois é com esta que controlamos nossa gente. A maioria de nossa gente é iletrada, ignorante e temos de traduzir de modo bem simples os complexos ensinamentos de nossos Livros Sagrados. O homem é muito culto e muito versado nas coisas ocultas, pois que estudou em Hemi e tu e eu sabemos que aquele Mosteiro transmite conhecimentos muito além dos segredos que dominamos. Por isto mesmo, por ser muito versado nas coisas sagradas, ele é duplamente responsável pelo que vem fazendo.

Caifás encaminhou-se silencioso para uma grande cadeira de pedra, onde se sentou com o cenho franzido. Então, com um suspiro, olhou para seu sogro e recitou com voz pausada.

“Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho…” Esta foi a profecia feita pelo profeta Isaías e ela consta de nossos livros. Tu e eu sabemos que o nascimento de Yehoshua bar Yoseph, está envolto em fábulas inacreditáveis. O próprio acontecimento se reveste de eventos que a nós são poucos críveis. Mas, por outro lado, qual seria a vantagem para quem tenha inventado aquelas fábulas que cercaram o parimento de Míriam? Sabemos que a família estava no censo e corre o boato de que o Rei Herodes, sabedor da profecia e tendo recebido a visita de três homens ricos que o informaram do acontecimento insólito, determinou a morte de todo infante que contasse com até um ano de idade. Queria eliminar a ameaça ao seu reinado ilegal, de nosso ponto de vista, é claro. Afirma-se entre o povo que o Cristo veio através de Míriam, a virgenzinha dada em casamento a Yoseph, o construtor carpinteiro. Yoseph não era um homem castrado nem sofria de qualquer mal que o impedisse de consumar o ato matrimonial. No entanto, corre o boato de que realmente, antes do nascimento de Yehoshua, um enviado do Inominável veio ter com a menina e anunciou sua gravidez sem a participação de seu esposo. Ela garante que foi assim. Isto é mais um mistério que nos confunde. E se houver uma mínima verdade nessa boataria? E se realmente quem nasceu da menina-moça é mesmo o Messias que nos foi prometido? Agir contra ele seria ofender terrivelmente nosso Deus e já temos mais de uma centena de provas em nossos Livros Sagrados de que Ele não perdoa insultos e ofensas. E sendo o Pai do Cristo, como Pai com toda a certeza se levantaria em ira contra nós, caso ofendamos Seu Filho. Com certeza, meu sogro, estamos com um dilema delicadíssimo em nossas mãos. Creio que, mesmo não gostando de Yehudhah, temos de tolerar sua arrogância e seu desrespeito para conosco, pois ele foi um dos escolhidos pelo Pregador Milagreiro para ser seu discípulo. Um achado para o Templo.

— Aí é que está! — Gritou Anás, o sogro. — Ela, a menina Míriam, e somente ela, afirma que a coisa aconteceu do modo como é narrado. Mas não há outros que possam provar a veracidade de suas… criancices. Talvez a velha Ana, sua mãe, a tenha instruído para se passar pela tal virgem-mãe. Afinal, sabemos todos que Yoseph relutou muito em tomar aquela criança para sua esposa. Ele tinha quase idade de ser seu avô. Mas o dote que veio com a garota nem eu recusaria…

Sem querer te interromper, mas já interrompendo, quero ainda lembrar o que disse o profeta — cortou Caifás, o genro. — Está escrito nos livros que Isaías disse: “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca”Esta profecia eu a entendo como sendo para o futuro de Yehoshua bar Yoseph. E se é verdade o que suponho, o homem vai terminar muito mal em seu fim de vida. Então…

— Então — cortou Anás, o sogro, pressuroso — o milagreiro vai frustrar totalmente os sonhos de conquista de nosso espião, pois que ele e sua turma esperam que o Salvador seja um guerreiro invencível. E todos nós O esperamos assim, não um coitado que anda apenas em companhia de mendigos, prostitutas e doentes de toda espécie. Eu creio que estamos perdendo tempo ouvindo os relatos de Yehudhah, pois o milagreiro de que tanto se fala não passa de um embusteiro. Um verdadeiro libertador de nosso povo não pode vir como esse Yoseph veio: pobre e sem poder nenhum. Ele terá de vir como um verdadeiro rei, nosso rei, nosso guerreiro. Tão invencível quanto foi David diante de Golias. Aliás, meu caro, estamos enfrentando um Golias terrível. Refiro-me aos romanos. Não chegasse o embusteiro do Herodes, ainda por cima temos o tacão de César sobre nossos pescoços. Isto é demais, não achas?

Caifás, o genro, permaneceu um tempo em silêncio e, então, falou.

— Sei não, meu sogro, mas creio que Yehoshua está desenvolvendo um plano bastante ousado e dissimulado. Conquistando o povo pobre e muito necessitado, dando-lhe as curas que os médicos não conseguem dar-lhes, aos poucos ele conquista não somente os necessitados, mas também a fé destes e a admiração de muitos homens de valor. Ouvi dizer que há, já, entre seus admiradores, romanos até graduados. Disfarçadamente eles vão ouvir as pregações do sujeito e corre a boca pequena que ele acudiu a um decurião que estava quase à morte e o salvou. Não só a ele como a toda a sua decúria. Os romanos estavam em petição de miséria, depois de um encontro com rebeldes. Ele não somente conquistou a simpatia daqueles soldados, como também a admiração de outros que ouviram o relato do que ele fizera. Isto significa que ele trabalha as bases, aquelas bases que geralmente os generais e os Governadores, até mesmo Reis, como Herodes, não atentam para elas. E se estou certo, o sujeito é arteiro como nem se pode imaginar.

Anás, o sogro, calou-se, meditabundo. Sim, ele tinha conhecimento daquele feito estranho para um judeu. Aliás, tudo o que Yehoshua fazia era estranho para um bom judeu. Ele compartilhava da companha dos ímpios, dos goins imundos. Mas talvez seu genro estivesse com a razão e o milagreiro realmente estivesse desenvolvendo uma estratégia esperta, mas inócua a seu ver. Como poderia o homem arregimentar exércitos entre os miseráveis que nem mesmo sabiam manejar uma sica, quanto mais armas de combate em campo de guerra? Mas se a suposição de seu genro fosse possível, então os serviços do detestado Yehudhah tinham seu valor, mesmo que isto o desgostasse. Até porque, se realmente Yehoshua estivesse com o objetivo suposto por seu genro, Yehudhah seria de grande valia. Ele tinha um contingente muito grande de assassinos ao seu comando. Tais homens eram guerreiros acostumados ao manejo de armas de guerra e às estratégias de combate de guerrilha.

— E temos o estranho acontecimento com Zacharias, não te recordas? — voltou a falar Caifás, interrompendo o fio de pensamentos de seu sogro. — Sua esposa, Izabel, é prima de Míriam, a mãe de Yehoshua. Ele também garante que, quando estava no Santo dos Santos para cumprir com o rito anual, o Arcanjo Gabriel, o mesmo que Míriam afirma que lhe apareceu para lhe anunciar sua gravidez sem a participação de seu marido, lhe surgiu e lhe anunciou a gravidez de Izabel, já estéril. Visto que Zacharias duvidou do Arcanjo, ele tomou-lhe a voz e só a devolveu depois que lhe nasceu o filho, num ventre já inútil.

Os dois sumo-sacerdotes se calaram, cada qual meditando naqueles fatos estranhos de seu tempo. Seria possível que estavam realmente vivendo a época da vinda do Messias? Seria possível que o Messias fosse mesmo o tal milagreiro que estava cada vez mais conquistando homens, judeus ou não, durante suas caminhadas e suas pregações?

— Considerando tudo isto — disse Anás, o sogro, com um suspiro de resignação —, temos mesmo de suportar nosso maldito espião. Mas tão logo tenhamos posto fim a esta situação esquisita, mando matá-lo tão depressa que ele nem terá tempo de enxergar seu assassino. Até já o tenho escolhido. Ironicamente, e Yehudhah não sabe disto, o homem que vai matá-lo é seu meio-irmão e se parece tanto com ele que se pode até acreditar que sejam gêmeos, embora não o sejam de verdade.

Qerioth não sabia que tinha um meio-irmão.

Qerioth não sabia que tinha um meio-irmão.

— Yehudhah tem um irmão? — Espantou-se Caifás, o genro. — Que eu saiba, nem mesmo ele tem conhecimento disto…

— Tem irmão,

— Sim. O pai do desgraçado era muito chegado às aventuras extra-matrimoniais e deixou uma síria prenha. Com dor de consciência ele a manteve até que o garoto atingisse a idade de trabalhar. Depois, chutou os dois e por isto foi assassinado pelo irmão da mulher que abandonou. O jovem se meteu em muitas enrascadas e Herodes já estava à sua caça. Eu soube de tudo por nossos espiões, que não são poucos. Como Yehudhah, malgrado nosso, é um dos nossos, no Templo, ao menos a casta a que pertence, eu decidi tomar o enjeitado aos meus cuidados. Tenho-o mantido todo este tempo e o tenho mandado treinar forte com os nossos soldados mercenários para quando tiver de cumprir com a missão que pretendo dar-lhe, não perca ao se confrontar com Yehudhah. Tu sabes bem que este desgraçado é excelente guerreiro e até hoje não perdeu uma luta, das muitas em que se meteu.

— Não me oponho a que se leve a cabo teu plano, meu sogro. Quando e se tudo isto caminhar para um desfecho dramático, em que tenhamos de tomar parte ativa, que as provas de nossa participação sejam realmente desaparecidas. E a mais perigosa é, com certeza, a sobrevivência de Yehudhah. Mas…

— Mas? — Insistiu Anás, o sogro, ao ver que seu genro hesitava.

— Mas sinceramente eu gostaria de falar diretamente com Yehoshua. Gostaria de lhe perguntar qual é seu entendimento sobre uma profecia sombria que consta do livro de Isaías.

Franzindo o cenho, Anás se aproximou de Caifás e se postou diante dele, estudando-lhe a face.

— De que profecia tu falas? — Perguntou Anás, o sogro.

— Falo da devastação total da Terra, conforme consta do Livro de Isaías — respondeu Caifás, o genro. — Ali, ele diz: “Eis aí dissipará o Senhor a Terra, e a porá nua, e afligirá a sua face, e espalhará os seus habitantes. E assim como seja o povo, assim serão seus sacerdotes; e assim como o criado, assim o seu amo; como a serva, assim a sua senhora; como o que compra, assim aquele que vende; como o que dá a juro, assim o que toma emprestado; como o que torna a pedir a dívida, assim o que deve. A Terra com total estrago será desolada, e pela rapina, saqueada. Porquanto o Senhor proferiu esta palavra. E chorou e descaiu a Terra, e ficou desfalecida; descaiu o orbe e ficou desfalecido à altura do povo da Terra. E ficou a Terra infeccionada pelos seus habitantes; porque transgrediram as Leis, mudaram o Direito e romperam a aliança sempiterna. Por esta causa a maldição devorará a Terra, e pecarão os seus habitantes e, por isso, enfatuar-se-ão os seus cultores e serão deixados poucos homens. Cessou o regozijo dos tambores; acabou a algazarra dos que estavam em alegria e calou-se a doçura da cítara. Não beberão vinho cantando árias; a bebida será amarga para os que a beberem. A cidade da vaidade está demolida, fechadas se acham todas as suas casas, não entrando nelas pessoa alguma. Nas ruas haverá clamor sobre o vinho e toda a alegria ficou abandonada. Desterrou-se o prazer da Terra. Ficou dentro na cidade uma solidão e a calamidade oprimirá as suas portas. Porque estas cousas verificar-se-ão no meio da Terra, no meio dos povos, como se algumas poucas azeitonas, que ficaram, se sacudissem da oliveira e de algum par de cachos do rabisco, depois de acabada a vindima”. Temos discutido e buscado uma interpretação que nos satisfaça a compreensão, meu sogro, mas tu sabes bem que a nenhuma conclusão satisfatória temos chegado no Sinédrio. Falava Isaías só de nossa gente? Ou falava ele de todos os povos sobre a Terra? Não chegamos a uma conclusão que satisfaça a todos nós. 

— Te inquieta tanto essa profecia de Isaías? — Admirou-se Anás, o sogro.

— E a ti, não? Eu acho que sim, meu sogro. E creio que é vital que tenhamos uma verdadeira revelação tirada dessa profecia confusa, pois só assim poderemos, nós, os guias de nossa gente, preparar-nos para sustar uma calamidade que, a mim, parece universal. Não podemos esquecer-nos das muitas vezes em que nosso Deus puniu com severidade nossa gente porque cometeu pecados imperdoáveis contra o Senhor dos Orbes Celestiais. Para evitar que sejamos constantemente punidos e amarguemos horrores terríveis, como já aconteceu no passado, o Deus de Israel nos mandou profetas que escreveram avisos através de suas profecias para que nós, os representantes do Altíssimo entre nossa gente, pudéssemos agir preventivamente. Mas há delas que são confusas e muito dissimuladas e esta, de Isaías, me preocupa. Não chegamos ainda a uma interpretação plausível para ela.

Anás, o sogro, cofiou a longa barba branca, em silêncio e meditativo. Sim, aquela parte do livro de Isaías sempre dera o que falar entre os rabinos de modo geral. Não havia uma interpretação satisfatória para ela. Mas esperar que um tolo itinerante tivesse a resposta para esta questão… Não, Anás não podia admitir isto. Claro que o Milagreiro conhecia profundamente os Livros Sagrados, pois cursara todos os estudos que eram oferecidos aos futuros rabis. Tinha direito a isto, visto sua descendência davídica por parte de pai e mãe. Mas… Consultá-lo?

— Endosso a idéia de convidá-lo a falar aqui, em Jerusalém, no Templo. Então, poderemos convidá-lo a conversar conosco em particular. O que pensas?

— Penso que será uma oportunidade de conhecermos o nosso provável inimigo.

Os dois homens se retiraram, cada qual para sua casa, e o local ficou em silêncio…

Naquele mesmo dia, na parte da manhã, Yehoshua sentava-se na pedra sobre a qual, no dia anterior havia feito uma de suas mais longas pregações. Ele observou que a multidão tinha aumentado e que os os homens disputavam de modo rude com as mulheres lugares mais próximos de si. Então, chamando seus discípulos, ordenou-lhes que fossem e colocassem ordem entre a multidão. Que colocassem as mães e as crianças que traziam à frente de todos os demais. Depois, os homens aleijados, cegos, coxos e doentes vários. Então, o restante da população que não apresentava sinais externos dos males que os afligiam. E assim foi feito. Os discípulos sentiam-se perturbado com uma capacidade que lhes apareceu de repente. Ao se aproximarem das pessoas sentiam intensamente o de quê sofriam. Era como um leve tremor em partes de seus corpos, justamente naquelas partes onde a pessoa diante de cada um deles tinha a afecção.

Uma hora decorreu até que a multidão estivesse conforme a vontade do Mestre. Então, pondo-se de pé, Yehoshua olhou para longe, muito para baixo, onde um punhado de homens parecia querer fugir à atenção dos demais ali presentes. Permaneceu assim por um tempo. Depois, chamando a João, mandou-o buscar aqueles homens. João voltou com oito homens fortes, mas todos muito mutilados. Um, não tinha mais o braço direito e a gangrena parecia que ia comer o que lhe sobrara do braço decepado; outro, apresentava uma vermelhidão horrível na perna direita, que havia sido atravessada por uma lança num campo de batalha. Outro não tinha o olho direito e sua face estava quase negra, dela correndo um líquido fétido e pegajoso. De todos exalava-se um mal-cheiro repugnante. Constrangidos, eles foram colocados diante de Yehoshua.

— Sois romanos — ouviu-se a voz forte do Mestre. — Por que viestes a mim? Por que vós me procurastes, se sabeis que sou hebreu?

Um silêncio constrangedor pesou diante de todos. Então, pigarreando, o homem com a perna vermelha, inflamada e fedorenta, falou com voz surda.

— Sim, senhor, somos romanos. Na verdade, somos legionários romanos, embora só eu seja realmente nascido cidadão romano. Os demais foram recrutados para servir a Roma, aos seus Exércitos. Estamos aqui em busca de alívio para nossos sofrimentos. Todos sofremos de dores terríveis…

— E não foram terríveis as dores que infligistes aos vossos semelhantes, quando os matastes rindo de seus desesperos e gritos de terror?

A voz de Yehoshua, ainda que pronunciada em tom natural, foi ouvida distintamente por todos os que ali estavam e que beirava quase trezentas pessoas. Os legionários abaixaram suas cabeças, envergonhados. Novamente, o romano legítimo tomou a palavra por todos os demais.

— Sim, matamos. Sim, fomos cruéis com aqueles que nos enfrentaram nos campos de batalha. Mas, Senhor, alguma vez vós já vos vistes em semelhante situação? Alguma vez já tivestes diante de vós homens que mais se assemelhavam a feras, brandindo lanças, achas de guerra, punhais e tudo o que se usa nos campos de batalha, todos eles prontos para vos reduzir a um cadáver disforme por cortes ou por pancadas violentas? Alguma vez vós vos vistes na iminência de ser reduzido a um cadáver em meio a milhares de outros, tendo vossos pensamentos voltados para vossa família abandonada algures, não por vossa vontade mesma, mas por que um Imperador ou um Rei vos obrigou a ir lutar a guerra dele? Estivemos, todos nós, em situações como a que descrevi aqui e agora. Pode alguém nos condenar pelo que fomos obrigados a fazer? Pode alguém dizer que teria feito diferente se estivesse no lugar de cada um de nós? Eu vos asseguro, senhor, que não tenho orgulho do que fui obrigado a fazer nas batalhas a que fui levado a lutar contra minha própria índole. Eu matei. E por isto tenho chorado sozinho o desespero de ter constantemente diante de minha consciência aquelas faces que despedacei com meu gládio e meu escudo. É terrível o pesadelo de ver diante dos olhos de minha consciência os homens caídos, apavorados, aos quais eu trespassei o peito cruelmente com meu gládio romando. Em outra situação, em outra ocasião, em outro teatro certamente eu não teria sido a besta-fera que fui. Nem meus companheiros. Hoje, lamentamos que tenhamos sido nós a escapar com vida daqueles combates terríveis. Melhor seria que tivéssemos sido mortos, em vez de ter matado nossos adversários. Vêde o que nos restou de nossa brutalidade: mutilação no corpo e na alma. Pesadelos e terrores que não podemos repartir com ninguém, pois que eles são o tesouro que colhemos nos campos de Marte. Nossas famílias não mais existem. Estamos sós. Nem mesmo nossos comandantes nos querem por perto. O Imperador a que servimos não nos deu qualquer ajuda e nos deixou entregues à própria sorte. Ouvimos que sois milagreiro e que tendes curado cegos e mutilados de toda espécie e aqui viemos na esperança de merecermos vossa atenção. Mas se não formos digno de vós, dizei-nos que iremos embora com nossa dor e não vos censuraremos por vos terdes recusado a nos atender e nos premiar com o alívio que…

— Chega! — e dos olhos de Yehoshua lágrimas desciam. — Vede, vós que aqui viestes por muito menos. Estes homens, ainda que numa situação desesperadora, tiveram a coragem de chegar até mim e me olhar nos olhos e me dizer do que passaram, como argumentos para defender uma ajuda que eu lhes daria, mesmo que nada tivessem dito. Em verdade, em verdade eu vos digo que estes soldados são mais limpos diante dos olhos de meu Pai que a maioria de vós, que vos arrastastes como vermes em busca de cura para vossos males físicos. Não pensais em vossos espíritos imortais, mas tão-só em vos livrardes dos males que vos afligem para, então, voltardes faceiros aos mesmos desmandos que os trouxe à condição em que aqui estais, hoje. E vos digo que diante de meu Pai estes legionários encontraram graça. Então, eu a eles digo: ide. Retornai para vossos lugares de origem e esperai com a mesma fé com que aqui viestes. Quando acordardes amanhã, eis que estareis sãos e quando isto acontecer não mais atendais ao chamamento dos que fazem as guerras, mas delas fogem como covardes que são.

Aturdidos os homens se entreolharam. Esperavam sair andando curados. Em vez disto, o milagreiro lhes ordenava voltar aos lugares de onde tinham vindo, um lugar de miséria, abandono e sofrimento. Mesmo decepcionados, cada um deles tomou a mão de Yehoshua e a beijou e todos eles se afastaram com dificuldade e lágrimas nos olhos. Jamais saberiam dizer se de alegria ou de frustração. Moviam-se quase se arrastando, uns dando apoio aos outros e, assim, se foram.

Um pesado silêncio caiu sobre a multidão. Yehoshua não se moveu até quando as figuras flageladas sumiram na curva do caminho, ao longe. Então, ele se sentou e olhou para a multidão expectante.

— Nos Livros Hebraicos está dito: “qualquer que se desquitar de sua mulher, dê-lhe carta de repúdio”. Mas eu pergunto: e ao marido? Nenhum papel humilhante lhe será dado? Desde quando eles, os homens, têm o direito de se julgarem superiores às mulheres? Tanto quanto ele, a mulher colabora com o lar que ambos montaram e se ela erra, com toda a certeza seu esposo tem responsabilidade em seu erro, visto que não é dele a responsabilidade de lhe ensinar a lealdade e o respeito? Não é ele que se arroga o direito a ser quem tudo decide e tudo julga? O homem que cumpre com o que está lavrado nos livros das Leis Hebraicas age como agiu o Imperador de Roma com os legionários que todos viram aqui virem em busca de socorro para seus sofrimentos. Eles obedeceram ao Imperador e tiveram valor enquanto tinham saúde. Mas tão logo se tornaram aleijados, mutilados e imprestáveis para o fratricídio, o Imperador lhes voltou as costas. Em quê o homem hebreu se diferencia do Imperador de Roma em tal caso? Em verdade em verdade eu vos digo que todo aquele que repudiar sua mulher, mesmo que seja por causa da prostituição, que a faz adúltera, comete adultério para com ela. E assim também é com aquele que tomar para si a repudiada com o objetivo asqueroso de se aproveitar de sua beleza e de seu corpo. A luxúria não deve sobrepor-se à Caridade e à Fraternidade, pois eu vos digo que todos vós sois irmãos entre si, visto que todos somos filhos de um único Pai, Aquele que a tudo deu existência neste e em outros mundos. Eu também vos digo que ai daquele que se fizer intrometer num lar com olhos concupiscente para com a mulher de outro. Como a víbora que tentou Eva, ele será repudiado pelo nosso Pai Celestial e suas dores, quando chegar sua vez de se apresentar ante o Juízo Absoluto, será mil vezes maior que a da mulher que pecou por sua causa.

Um pesado silêncio se fez sobre a multidão e as pessoas ali lançavam olhares sub-reptícios aos seus próximos, como se buscando saber se o outro conhecia o que de errado guardavam em suas consciências.

— E também consta — continuou Yehoshua com voz calma —, nos livros hebraicos, a sentença: “Igualmente ouvistes que foi dito aos antigos: não jurarás falso, mas cumprirás junto ao Senhor os teus juramentos”. Juramento, meus irmãos, é um compromisso que assumis diante de vosso Juízo. Quem tem palavra firme e age segundo a Verdade, não precisa jurar seja pelo que seja, pois só os fracos recorrem a este estratagema para enganar seu próximo. Só o covarde jura diante daquele que duvida de sua palavra. O homem deve ter uma única verdade e sua verdade deve ser dita por ele perante quem quer que seja, pois só o vil e o fraco duvida de seu semelhante. A estes o homem verdadeiro está desobrigado de provar sua verdade. Que ela se revele ao fraco quando seja o momento, pois nada sucede nem antes nem depois do tempo certo para acontecer segundo a Vontade de nosso Pai Celestial. O que diz a verdade deve silenciar diante do insulto que lhe faz aquele que dele duvida. Sua verdade virá à luz quando o tempo seja chegado. E ainda que ele não mais esteja presente quando isto acontecer, o que lhe insultou com sua dúvida curvará a cabeça e se envergonhará e se acusará por sua vilania. A Verdade é como uma bolha de ar que a água não pode segurar no fundo do rio. Eu, porém, vos exorto a não jurar absolutamente, nem pelo céu, porque lá é o Trono do nosso Pai, nem pela Terra, porque aqui é onde Ele assenta seus pés. Não jureis nem por Jerusalém, pois ela é o galardão do grande rei entre os homens e, não, do Grande Rei de todos os homens. Digo-vos ainda que não deveis jurar nem por vossa cabeça, pois que não sois donos de sequer um único cabelo que nela há e, por isto, não podeis fazer que se torne branco ou negro segundo vossa vontade. Seja o vosso falar SIM, sim; NÃO, não. Porque tudo o que daqui passa procede do Mal que vos habita por frágeis que sois em vossas almas mortais. 

Vós, hebreus, tendes ouvido que se deve cobrar olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais àquele que vos fizer mal e se alguém vos bater na face direita, oferecei-lhe também a face esquerda, para que ele esvazie sua covardia e possa enxergar sua maldade. Não há dor maior do que aquela que nasce da visão interna, pois esta é a visão do Juiz que habita em cada um de vós.

E também vos digo: ao que desejar demandar convosco diante do juiz para tomar-vos a túnica, dai-lhe também, de bom grado e espontaneamente o vosso manto, pois certamente vosso irmão necessita disto muito mais que vós. Não vos apegueis a mesquinhezas e lembrai-vos sempre que vosso Pai Celestial que vos deu o manto e a túnica pode, como pai zeloso que é, compensar-vos em bens de muito mais valor que o que cedestes de coração ao vosso irmão cego e tolo.

E se vosso irmão vos obrigar a ir carregado por mil passos, vai com ele ainda por mais outros dois mil, pois assim vós podereis mostrar o quanto sois ricos para dar aos que nada têm senão a usura e a ganância que empobrecem aos mais ricos em bens materiais.  

Também vos digo que deveis dar a quem vos pedir sem lhe olhar ou avaliar qualquer mérito; pois aquele que pede já é por isto mesmo merecedor de vossa dó e de vossa piedade; e vos digo que não volteis as costas ao que deseja que lhe empresteis um bem. Mesmo que saibais que quem assim faz o faz porque é ganancioso e mesquinho, não vos cabe julgar a fraqueza de vosso irmão. Por acaso, sois perfeitos? Só quem é perfeito pode julgar e eu vos garanto que não vejo nenhum de vós dentro desta classificação.

Tendes ouvido que foi dito: “Amarás o teu próximo e aborrecerás a teu inimigo”. Eu, porém, vos digo: amai a vossos inimigos e fazei o bem aos que vos têm ódio; orai pelos que vos perseguem e caluniam, pois estes não podem apagar a luz que brilha em vosso interior e, talvez, assim ajam por inveja e pequenez de espirito diante da grandeza que em vós vêem e isto já é uma lástima digna de dó. Fazei assim para que sejais dignos de vosso Pai que está no Céu e que faz nascer se sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre justos e injustos. Porque se vós não amais senão aos que vos amam, que recompensa haveis de merecer? Não fazem os publicanos a mesma coisa?

E se vós saudardes somente aos vossos irmãos e aos vossos amigos, que fazeis nisso de especial? Não fazem também assim os gentios e os vossos inimigos? Sede vós perfeitos como Perfeito é Vosso Pai que está no Céu e que vos deu a vida como aos impuros também.

Yehoshua pôs-se de pé e caminhou por entre o povaréu e na medida em que passava as dores e os sofrimentos sanavam. Ele não tocou em ninguém em especial, mesmo assim os milagres se faziam ao seu redor. Ele chegou ao fim do morro e dali se dirigiu para o Oeste, até que caminhou sozinho pela praia deserta e intensamente banhada pelo sol do meio-dia. Ninguém ousou segui-lo. Nem mesmo seus discípulos…