Yehoshua o doutrinador

“Ouvi, mas não me compreendeis. E, no entanto, sou claro como a água”.

Yehoshua se retirou, mas o povo permaneceu lá na encosta do promontório. A algazarra era grande. Muitos felizes porque tinham sido curados sem nem mesmo tocar em Yehoshua ou ser por ele tocado. Outros, revoltados porque continuavam tal qual tinham chegado. Todos, porém, procuravam acercar-se de um discípulo do Cristo buscando uma explicação para tudo o que tinha acontecido ali e que podia ser chamado de qualquer coisa, menos de falso.

No início os apóstolos se sentiram ansiosos e inseguros. O medo tomou de assalto o coração deles, e alguns até sentiram um impulso quase incontrolável de sair correndo e nunca mais retornar àquele lugar. O que poderiam fazer? Eles não eram curandeiros; não podiam fazer milagres. No entanto, as pessoas se fecharam tão firmemente ao redor de cada um, ansiosas seja por milagres que não tinham recebido, seja para agradecer pelo que lhes tinha acontecido de maravilhoso, ou seja para obter maior esclarecimento sobre o que tinham acabado de ouvir do Profeta, que eles tiveram de se sentar e tentar agir de alguma forma. E agiram. Começaram a falar sobre as palavras de Yehoshua e logo todos falavam com segurança e proficiência, para espanto deles mesmos. E os ouvintes se extasiavam com os ensinamentos que eles lhes davam. O maior e o melhor de todos era a orientação de como proceder daquele dia em diante para conseguir obter a graça de uma cura. Mudar os hábitos viciosos; mudar o modo de reagir emocionalmente diante dos percalços da vida; mudar o modo de ajuizar sobre os outros e por aí em frente.

Simão Barjonas, o Apóstolo Pedro.

Simão Barjonas, o Apóstolo Pedro. Ele errou quando defendeu a idéia de que o Cristianismo tinha de ser restrito ao “povo eleito”. Por isto não foi a Pedra sobre a qual o Cristo ergueu Sua Igreja.

Era fácil falar e ser ouvido com atenção, pois todos ainda estavam sob o choque das maravilhas que ali tinham sido feitas pelo homem que, agora, todos chamava de O Profeta. E os dias se sucederam sem que Yehoshua voltasse ao local, mas com os seus apóstolos cada dia mais seguros do que falavam e até ousando ir além dos ensinamentos do Mestre dos Mestres. Eles estavam realmente se tornando Apóstolos do Cristo. A auto-confiança que se solidificava a cada dia transcorrido impulsionava-os a tentar mais e mais, a ousar ir além dos limites da fala de Yehoshua. E alguns deles conseguiram consultar a Torá escrita, graças à colaboração de dois ou três rabis que, ao contrário de outros, se tinham convertido ao pensamento do Profeta de Nazaré.

Na décima noite em que se reuniam ao redor de uma fogueira dentro da mata para fugir ao assédio do exército de pessoas interessadas em aprender mais sobre o Profeta, Paulo falava aos seus companheiros e dizia que era necessário que também pudessem pregar dentro das sinagogas, como fazia Yehoshua. A questão era que nem a todos era dado o direito de fazer isto. Precisava-se preencher certos requisitos, como ser descendente ou membro de uma família de sacerdotes, entre outros. A discussão estava acalorada e cada um dava uma idéia nova, todas voltadas para a divulgação da palavra de Yehoshua entre o povo, não importando que fossem ou não, gentios. Quanto a isto havia discordância entre eles. Cefas, por exemplo, defendia a tese de que os ensinamentos de Yehoshua deviam se restringir ao povo eleito de Yeveh, pois que o Profeta era judeu e, não, gentio. Mas João se opunha a ele e dizia que quando pregava, Yehoshua não o fazia só para hebreus, mas para todos os que estivessem presentes, não importando a que nação pertencessem. Ele mostrava que não via diferença entre hebreus e gentios. Eram, todos, criação de um só Deus, o Inominado e Inefável criador de todas as coisas sobre a Terra e no Céu. Por isto, promovia a cura indistintamente, bastando que a pessoa tivesse merecimento aos olhos do Criador Supremo.

A discussão ia acalorada quando de dentro da mata surgiu um soldado, um legionário romano. Era alto, forte como o cedro e armado com todas as armas romanas de combate. Era um decurião. O silêncio foi imediato e os discípulos olharam receosos para o recém-chegado. Este, pedindo licença, tomou lugar na roda que os discípulos faziam ao redor da fogueira.

— Vocês são os discípulos do homem que está perturbando Herodes e o Templo hebraico, não?

Um silêncio pesado foi a resposta à pergunta do legionário. Este sorriu e tornou a falar.

— Não temam. Eu sou admirador do Mestre de vocês. Também tive uma pessoa curada por ele em minha família e é por isto que procurei chegar até vocês. O Templo e o rei Herodes estão agitados. Os rabis Caifás e Anás alimentam forte desconfiança contra as intenções de Yehoshua. Acham que ele deseja levar o povo a se levantar contra o Templo. Ouvi uma conversa entre eles. Estão pensando em pedir a ajuda de Pôncio Pilatos para conter uma rebeldia popular que, desconfiam, vocês e Yehoshua desejam levar a cabo.

— Mas isto é absurdo! — gritou, pondo-se de pé, o apóstolo André, irmão de Cefas. — Nenhum de nós, nem mesmo Yehoshua, deseja levar o povo a se levantar contra o que quer que seja. Nosso objetivo é fazer que todos tomem consciência que agem errado diante do Criador de todas as coisas. Nosso objetivo é fazer que a Paz e a Fraternidade entre os homens seja um objetivo a ser alcançado por todos, independentemente de que nação eles sejam.

— Quem é Mateus? — Perguntou o centurião ignorando os protestos dos outros apóstolos.

— Eu! — Respondeu Mateus, erguendo a mão.

O apóstolo Mateus estava sempre atento aos ensinamentos do Mestre e era um entusiasta dos ensinamentos d'Ele.

O apóstolo Mateus estava sempre atento às palavras do Mestre e era um entusiasta dos ensinamentos d’Ele.

— Ontem, e eu estava lá, portanto não invento nada, o senhor discursou inflamado sobre a injustiça da cobrança dos impostos levados a efeito tanto por Roma, quanto por Herodes. E ainda por cima criticou duramente o Templo hebreu que impõe taxas e mais taxas a serem pagas pelos fiéis, obrigatoriamente, além de tomar de todos o que há de melhor em carnes, frutos, grãos e animais a fim de os ofertar ao deus hebreu. Não foi um discurso segundo o pensamento de Yehoshua. Foi um discurso político. Não foi religioso. E isto é a mesma coisa que colocar fogo perto de palha seca. Observei que havia muitos judeus que se mantiveram calados e o olhavam atentamente. Não sei o que pensavam, mas se eu fosse o senhor, evitaria deixar-me entusiasmar e enveredar pelo caminho da emocionalidade popular. Esta, é tão efêmera como fogo em palha, mas eu vi que no senhor isto não é assim. O senhor mostra sinceridade em sua revolta. E me pareceu um homem culto, que sabe falar bem, sabe colocar bem seu pensamento. Mas, se me permite, o senhor comprometeu os objetivos que me parece são os de Yehoshua. Ele não quer que sua pregação se volte para o Material e, sim, para o Celestial. Juntar-se à grita do povo, à sua  revolta sem ação clara contra o que julgam e sentem como um pesado jugo é colocar-se na boca do leão. O povo, sem um líder ao qual obedecer, é como fogo fátuo em sua reação emocional. Explodem num momento e no outro há somente a escuridão da desorganização e do vazio das ações verdadeiramente assertivas, objetivas. O povo é um conjunto de ovelhas que qualquer espertalhão pode manejar a seu bel-prazer. Se não desejais, todos vós, serem líderes políticos, então, moderai vossas línguas e pesai bem o que ides dizer em público. Nem todos ao redor de vós vos é devotado por admiração. Tenho visto muitos espiões dentro da multidão. Muitos são de Herodes, muitos do Templo e alguns até do próprio Pôncio Pilatos. Vós vos estais colocando sob a mira de gente perigosa e, o que é bem mais grave, estais colocando sob esta mira o vosso Líder. E ele não merece isto, é o que penso. Vejam, os legionários que estiveram aqui, todos arrebentados e inúteis, acordaram no dia seguinte totalmente curados. Até os mutilados estavam com seus membros recompostos. Mas eles não voltaram aqui para exibir os milagres que receberam. Quietos, cada qual despiu-se das vestimentas de combatentes e cada qual seguiu para sua casa. Todos tinham consciência de que vindo aqui despertariam uma grande agitação entre as pessoas e tinham observado que nem todas elas seriam atendidas pelo Mestre. Então, se foram sem fazer alarde…

Fez-se grande silêncio entre os apóstolos, que se entreolharam confusos. O legionário tinha razão. Cada um deles reviu mentalmente sua atuação junto ao povo e cada um percebeu que não tinha escapado ao envolvimento político em suas pregações. Então, Pedro tomou da palavra novamente.

— Tens toda a razão, legionário, e nós te agradecemos de coração pelo alerta que nos deste. Teremos de rever nosso modo de falar e corrigir…

— Não há como corrigir o que já fizestes — cortou o legionário. — Muita gente já se dispõe a lutar ao vosso lado contra os Poderes constituídos que pairam sobre eles. Alguns comentam com desconfiança sobre vós e o Mestre.

— Então… O que nos aconselha fazer? — Perguntou Filipe, ansioso.

— Afastai-vos de todos, como fez vosso Mestre. Deixai que a poeira abaixe. Ide para outra paragem. Buscai seguir Yehoshua, pois ele sabe o que faz. Sabe quando falar, sabe quando silenciar e sabe quando se afastar para que a poeira assente. Buscai a companhia dele. A maioria dos que estão participando de vossos encontros são estrangeiros. Eles apenas insuflam os judeus a aderir à bandeira que julgam que é a que vós empunhais, mas eles mesmos não estarão aqui se uma revolta vier a explodir. Então, eles vão embora e os que ficam, todos hebreus pobres e sem grande ânimo para combate, logo se dispersarão e a boataria arrefecerá… Mas se eles ficarem aqui, seduzidos por vossos discursos inflamados, bem pode acontecer de alguns guerreiros decidirem se juntar a vós para fazer o que sabem fazer melhor: combater. Creio que podem imaginar o desastre que seria tal decisão para eles mesmos, para os hebreus daqui e para vós e vosso Mestre.

— Mas não sabemos onde está Yehoshua! Ele não costuma dizer-nos para onde vai ou o que pretende fazer… — Disse Filipe ansioso.

— Então simplesmente ide embora para longe deste lugar. Ao menos por um tempo. Eu creio que Yehoshua saberá encontrá-los. Afinal, ele parece mesmo ser um mago poderoso e certamente tem meios de saber onde vos encontrar. Se não, não seria vosso líder.

O legionário pôs-se de pé, pediu licença dizendo que tinha que se juntar aos seus companheiros e rápido subiu pela mata e desapareceu das vistas dos aturdidos discípulos. Estes, tão logo viram sumir o legionário, entraram em grande discussão, cada qual dando uma opinião sobre o quê fazer. Finalmente concordaram em que o melhor seria se retirarem para Nazaré. A vila era muito pequena e distante das estradas movimentadas. Não distavam muito de onde estavam, mas era um bom lugar para sumirem dali. Lá, poderiam ficar aguardando por Yehoshua. E se ele não aparecesse dentro de três dias, cada um se dirigiria para sua cidade de origem e iria ter com sua família. Certamente o Mestre saberia onde e como os encontrar.

E assim combinados, puseram-se em marcha.

Yehoshua estava em Cana, que ficava próxima a Nazaré. O velho Abenezar, cujos cabelos e barbas alvíssimos dizia do quanto era idoso, conversava com ele animadamente. Não tinha mais um único dente na boca e sua alimentação era mais à base de sopas. Mesmo assim, era um homem ainda vigoroso.

— Para onde vais, depois que o sol nascer? — Perguntou o ancião chupando uvas-passas.

— Amanhã cedo vou para um monte que existe perto de Nazaré. Ali tenho um encontro marcado com muita gente que anda à minha procura.

— E por que te procuram, Yehoshua?

— Porque desejam que eu lhes cure de seus males, de suas dores e de seus pecados.

Abenezar parou de chupar as uvas-passas e olhou de cenho franzido para seu visitante.

— Como é que é? Tu vais… Tu dizes que vais perdoar-lhes os pecados?Tu te julgas um Deus?

Yehoshua riu divertido e respondeu:

— Bom, todo filho de Deus é um Deus, não é?

— E tu és filho de Deus?!

— Ambos somos, Abenezar. Ainda não aprendeste isto após viver tanto tempo?

Abenezar permaneceu calado, mirando carrancudo a face do jovem diante de si.

— Olha aqui, meu rapaz — disse, depois de inspirar fundo. — Não sei o que pretendes zombando de mim, mas não gostei nem um pouco de tua zombaria. Fui muito amigo de teu pai. Considerávamos um ao outro, irmão. Mas não me digas insultos que eu…

— Não me acreditas, não é?

— Claro que não! Por quem me tomas? Meus cabelos estão brancos e minha pele encarquilhada como pergaminho. Mas minha mente está bem viva e bem clara, compreendes? Tu não podes dizer-te filho do Altíssimo sem incorrer num pecado mortal e sabes bem o que o Templo faz com que…

— Yehoshua pôs-se de pé e falou com voz forte.

— Homem de pouca fé! Tu és o retrato do que tenho encontrado por onde quer que eu vá. Quando os homens finalmente vão crer na verdade mais cristalina que brilha diante dos olhos de todos e ninguém a enxerga? Para provar que eu sou quem sou, ordeno que teus dentes te retornem à boca e tu possas novamente sentir o prazer de mastigar tudo o que comeres.

Abenezar sentiu forte comichão nas gengivas e, logo a seguir, grande acesso de dor que o fez saltar de susto e gritar em agonia. Pulando miudinho e com a mão na boca ele sentiu que seus dentes nasciam de novo. Só que desta vez em ritmo acelerado. Quando o grande incômodo cessou, ele era dono de uma dentadura novinha em folha. Voltou-se maravilhado para fitar o jovem Yehoshua, mas para seu espanto ele não mais estava ali.

Nunca este milagre do Cristo Cósmico foi conhecido pela humanidade vazia de Fé…