Aqui, há três mil anos Ele falou e Sua voz ecoa até os dias de hoje para quem tem ouvidos de ouvir.

Aqui, há três mil anos Ele falou e Sua voz ecoa até os dias de hoje para quem tem ouvidos de ouvir. E são tão poucos…

Eram dois morros quase um defronte ao outro. Lá ao longe as águas azuis do Mar da Galiléia pareciam calmas. O povo começava a chegar. Era cedinho. O sofar soara há duas horas somente. O Sol ainda não esquentava aquela manhã fria. Os que chegavam eram surpreendidos pela figura serena e imponente de Yehoshua sentado numa grande pedra, cabeça sobre o peito, olhos fechados, alheio a tudo e a todos. Como se algo sobrenatural pairasse na atmosfera do lugar, todos se sentaram quietos, entreolhando-se curiosos e intrigados. Há três dias ele havia sumido como por magia. Agora, lá estava, sentado e quedo, parecendo orar contritamente. Os 11 chegaram de manso e por um momento permaneceram distante, observando o Mestre em quietude. Ele parecia ignorar a todos e até mesmo o local em que se sentava. Uma hora decorreu e Yehoshua não se movia. Então, ao longe um pequeno grupo surgiu. Era composto mais de mulheres que de homens. Era a família de Yehoshua que ele mandara um discípulo ir buscar. Míriam, a mãe, Míriam, a irmã, Míriam, a esposa, Ruth, a irmã mais nova, Matheus, Yoseph e Tiago, os irmãos carnais do Mestre dos Mestres. Liderando a todos, Tomé, aquele que Yehoshua havia designado para a missão de os trazer do Mosteiro de Hemi.

Quando reconheceram o Mestre em sua postura queda e alheado de tudo, as mulheres se puseram em grande agitação e correram para chegar até ele o mais depressa que pudessem.

Ele era um homem-família e amava sua esposa.

Ele era um homem-família e amava sua esposa.

Passaram por entre o povo contrito sem os notar e empurrando nervosamente os que ainda lhes atrapalhavam a carreira. “Yehoshua!” “Yehoshua, somos nós, tuas irmãs, teus irmãos e nossa mãe, Míriam!” gritava Ruth, a mais entusiasmada e a mais feliz por ver o irmão sentado placidamente sobre aquela pedra. Mas todos foram barrados por Cefas, Bartolomeu e os outros que, de braços abertos se colocaram entre eles e Yehoshua.

— Deixa-nos passar! — Gritou Ruth, empurrando com força o forte Bartolomeu, que não se moveu um milímetro do lugar onde estava. Yehoshua abriu os olhos e se pôs de pé. Mirou o grupo e, sorrindo de alegria, precipitou-se para ele, passando por entre as gentes como se elas não estivessem ali.

Os abraços foram efusivos. Perguntas atabalhoadas eram feitas numa balbúrdia, todos querendo saber porque ele mesmo não tinha ido buscá-los, enviando aquele homem sisudo e de modos impositivos. Yehoshua não respondeu a nenhum questionamento, mas arrastou o pequeno grupo consigo, abraçando a cintura de Míriam, sua esposa, e Míriam, sua mãe. Marido e mulher se beijavam com ternura e os presentes riram desconcertados com a espontaneidade do “milagreiro”. Ao chegar à pedra onde estivera sentado, ele indicou o solo com a mão, convidando aos recém-chegados a se sentarem também. Logo a agitação foi substituída pela expectativa. A única que Yehoshua puxou para seu lado fui sua esposa, Míriam. Vaidosa, ela se sentou ao seu lado toda feliz pela distinção que ele lhe concedia.

Sua mais conhecida pregação ficou registada como O Sermão da Montanha, mas Yehoshua tinha outros sermões tão ou mais belos que aquele.

Sua mais conhecida pregação ficou registada como O Sermão da Montanha, mas Yehoshua tinha outros sermões tão ou mais belos que aquele.

Yehoshua estendeu a mão espalmada sobre a multidão e falou.

— Eis que o Sol vem sobre nós aquecendo nossos corpos com seu calor de vida e alegria. Então, aproveitemos esta luz maravilhosa para aprender, pois o que vos vou dizer passará pelos séculos incólume, para que as gerações futuras ouçam minhas palavras em todos os idiomas e delas criem seus entendimentos como bem lhes aprouver e lhes permitir seus egoísmos e seus vícios e mazelas, ou, então, suas sabedorias e suas luzes espirituais.

— Guardai-vos de elogios ou de palavras vãs elogiosas, porque elas podem ser proferidas por bocas falsas e línguas peçonhentas pela inveja e pelo rancor. E não façais vossas boas obras diante dos homens, com o fim de obterdes deles admiração e respeito, pois que mais fácil será que vos invejem e vos guardem desprezo em seus corações mesquinhos. O egoísmo dos mesquinhos não suporta a menor grandeza no outro e sempre tramará sua derrocada por inveja e incompetência. Não vos igualeis a eles em tais riquezas vãs, pois estas são causadoras de muitos dentre os males que, aqui e agora, vós expondes a mim em agonia.

— Quando derdes vossas esmolas fazei-o em silêncio e não façais troar a trombeta diante de vós para anunciar vossas boas ações e vossos óbulos, pois assim fazem os hipócritas nas sinagogas, e nas ruas, e nas praças e onde puderem ajuntar multidões para os aplaudir e admirar e lhes prestar honrarias e louvores. Em verdade em verdade eu vos digo que estes já ganharam seus galardões.

— Mas vós, quando derdes vossa esmola, que não saiba a vossa esquerda o que fez a vossa direita, para que assim vossa ação não chame a atenção de bajuladores ou de invejosos, pois o Pai que está no Céu, que tudo vê, tudo ouve e tudo mede e pesa e julga com justiça, vos veja e vos ouça em segredo e vos recompense na justa medida e conforme vosso merecimento.

— E quando orardes, não façais como os hipócritas, que oram de pé nas sinagogas em altos sons e altos cânticos; e oram nas praças e nos cantos das ruas proferindo ameaças em nome do Pai de Misericórdia e Bondade. Eles querem ser vistos e admirados pelos homens e assim o são. Eu, contudo, vos digo que esses já ganharam seus galardões.

— Quando desejardes orar, entrai em vosso quarto, fechai vossa porta e orai em silêncio ao vosso Pai Celestial em segredo, pois eis que Ele vos vê e ouve no mais íntimo de vosso Ser, e porque vos escruta o íntimo até onde nem vós mesmos conheceis, dar-vos-á na medida certa e de conformidade com vossos merecimentos e vossas forças. Eis que eu vos advirto: os Presentes de nosso Pai Celestial nem sempre são conforme com o que desejamos, mas sim conforme com nossas necessidades e nossas carências.

— E quando orardes, não faleis muito como fazem os gentios; pois estes cuidam que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não griteis em voz alta e altos brados vossas necessidades, pois que o Pai pode escutar onde não há som de palavras nem prantos de lágrimas. Em vez disto, sêde humildes e peçais apenas o necessário, mas sabendo que Ele determina os meios pelos quais alcançareis a recompensa que suplicais agora. O acicate da dor que atemoriza e atormenta e submete a provações e sofrimentos não é estímulo para que oreis em agonia e falso fervor. Não deis importância às vossas dores físicas e sofrimentos da Alma, mas ouvi no silêncio de vosso Ser a voz que vos diz a razão de tais sofrimentos e dores e aceitai-os sem revolta nem recriminações, pois com certeza, eu vos asseguro em minha verdade, tais provações são o cadinho em que se purifica vosso Espírito e o fazem surgir luminoso e belo diante do Pai Celestial. Muitos remédios são amargos e muitos doem em sua aplicação. Mas o resultado posterior é o alívio total do mal que afligia o doente. Então, tomai vossas dores como a resultante do unguento que vosso Pai Celestial vos aplica nas feridas de vossas almas.

— Não queirais, portanto, igualar-vos aos hipócritas que se exibem nas sinagogas, pois em verdade em verdade eu vos digo que vosso Pai sabe com justiça o que vos faz falta  e o que vos é necessário, antes mesmo que vós lho peçais.

— Senhor! — Gritou Tomé, não se aguentando de curiosidade. — Como achas que devemos orar?

— A oração, Tomé, deve brotar do coração. Se o vosso coração estiver em festa, certamente que orareis com alegria e palavras de festejo. Mas se vosso coração estiver abatido pela dor, pela ingratidão, pelo sofrimento da traição sofrida ou pela injustiça que contra vós tenha sido cometida, então vossa oração se fará com palavras de lágrimas. Vossa Emoção ditará as palavras com que fareis vossa oração. Mas em verdade em verdade eu vos digo que não deveis orar com mágoa ou ódio ou revolta em vossos corações. Tais emoções e outras semelhantes nunca chegarão ao Pai Celestial de todos nós. Orai contrito, em total comunhão com Ele. Mesmo que vossos corpos estejam estraçalhados, ainda assim recolhei-vos ao vosso íntimo e orai com fervor pelo perdão dos que vos tenham feito sofrer e pelo perdão de vossos enganos na vida. Harmonia, paz e contrição constituem a senda que eleva vossa oração ao nosso Pai Celestial. E tende como certo que Ele não está longe de cada um homem ou mulher, ou animal, ou peixe, ou árvore na terra, pois Sua Vida anima cada ser vivo e Sua Vida é Ele próprio em Sua Criação. Neste momento, Tomé, é meu elã orar assim: “Pai Nosso que estás em todos nós e em todas as cousas vivas neste mundo que é Teu; Santificado seja Teu Nome em nós para que nos fortaleçamos em ti; venha a nós e a todos os nossos irmãos em Tua Criação o Teu reino de Paz, Amor e Caridade, para que sejamos Teus emissários do Amor a Toda a Criação. Cumpra-se a Tua Vontade assim em mim como em tudo que Criaste para nossa harmonia, união, felicidade e alegria. O pão da Tua Vida e o Vinho da Tua Força nos alimente e nos fortaleça, assim na Terra como em Teu Reino. E que Tu nos perdoes as ofensas que Te fizemos por ignorância, a fim de que também aprendamos a perdoar as ofensas que nos fizerem aqueles que ainda Te desconhecem. Dá-nos a Luz do Conhecimento para que possamos evitar cair em tentações do nosso mundo de provas e ilusões. Dá-nos a Sabedoria de Tua Justiça, para que evitemos as derrotas perante os desejos de nossos corpos. Que assim seja segundo Tua Vontade e não segundo nossos desejos”.

O Mestre dos Mestres se calou e permaneceu com os olhos cerrados, os braços entreabertos, as mãos espalmadas relaxadamente para o alto, cotovelos dobrados à altura da cintura e face resplendente de felicidade voltada para o alto. Todos sentiram alguma coisa como uma energia estranha, de luz e alegria, penetrar em todos eles. Lágrias desceram dos olhos de todos, até mesmo dos espiões do Templo que tentavam compreender aquele bem-estar totalmente desconhecido que parecia vir do alto, do céu.

 O Mestre abriu os olhos e, sorrindo de felicidade, sentou-se satisfeito. E voltou a falar, sorrindo do pranto silencioso que via descer pela face de sua amada esposa.

— Orai como eu orei porque se de coração e com sinceridade perdoardes àqueles vossos irmãos e irmãs as ofensas que deles tenhais recebido, também o Nosso Pai Celestial que reside em vós vos perdoará vossas ofensas. Lembrai-vos de que todo dia termina; e entre um e outro, há uma noite de sono. Que este sono seja usado para vossa limpeza íntima, para que renasçais no novo dia totalmente renovado em sentimentos, pensamentos e ações. Ao fim de cada dia, irmãos, encerrai tudo o que tenhais vivido durante a Luz do Sol. Não permitais que o dia seguinte seja uma continuação monótona do dia que findou. Encarai o novo dia com novas forças e sabendo que tudo tem fim e princípio. Não tragais para o dia de hoje as angústias de ontem. Dai início ao dia de hoje com a alegria do Pai em vossos íntimos. Vede tudo como um novo princípio, uma nova luz, mesmo que a ilusão vos diga que os dilemas deste novo dia é a continuação impertinente das angústias do dia de ontem. Não é. Retomai vossos trabalhos e vossos dilemas com renovadas forças e renovadas visões. Não inicieis vosso novo dia com o ranço amargo do que findou. Se um dia não retorna no hoje, por que as agruras do que findou deve permanecer no que começa?

Também quero dizer-vos que o hábito do jejum é excelente para o corpo físico, mas pode ser muito bom para vosso Espírito. Basta que não sigais a trilha da falsa contrição que os hipócritas fazem ressaltar, aferroando às suas faces vis a máscara da tristeza; não desfigureis vossos rostos para fazer ver aos outros que jejuais. O jejum é uma penitência de livre escolha. Eu, muitas vezes, jejuei não um dia, mas por mais de três meses. Água, ar e alguma fruta pela manhã eram meus alimentos. Durante o restante do tempo, eu me entregava ao meu mundo silencioso, íntimo, e abolia de meus sentidos o mundo da ilusão, onde tudo é luta, desejo, incertezas e derrotas. O jejum prolongado enfraquece o corpo físico e isto permite que vosso Pai interior se vos revele em toda a Sua Grandeza. Os que agem como os hipócritas já ganharam seu galardão e não mais fazem jus a nenhum prêmio.

Quando jejuardes limpai vossa face lavando-a, para que tenha aparência saudável e agradável à vista. Não vos interessai por aparentar para os outros vosso esforço. A vós basta que vosso Pai Celestial, que a tudo vê em silêncio e quietude, vos dê o prêmio que mereçais. Pode não ser o prêmio que esperais obter, portanto, não jejueis com o objetivo de ganhar algo de nosso Pai Celestial. Ele sabe muito bem o de que cada um aqui presente e cada um dos que aqui não se encontram necessitam. Pai zeloso, ele vos dará, a cada um, segundo o merecimento que cada um tenha diante de seu Juízo.

E não desejeis entesourar para vós tesouros na Terra, onde a ferrugem e as traças os consomem e onde os ladrões os desenterram e roubam. Buscai, ao contrário, entesourar para vós riquezas no céu, onde não as consome nem a traça nem a ferrugem e não as roubam os ladrões. E os tesouros do céu são feitos de Amor distribuído por vós a todos os seres e a todas as cousas; de Caridade, de Companheirismo, de Bondade, de Perdão e de Justiça com Piedade. Pois eu vos digo que onde estiverem vossos tesouros aí também estarão vossos corações.

Vosso olho é a luz de vosso corpo. Se este olho for simples, destituído do véu da ganância e da usura, da maldade e da vingança, vosso corpo será luminoso e belo. E Aquele que tudo vê, também o enxergará e o admirará com Amor.

Mas se vosso olho for mau, todo o vosso corpo estará em trevas. Se, pois, a luz que houver em vós for trevosa, quão grandes serão estas mesmas trevas em vosso caminhar e quantas quedas dolorosas havereis de cair no vosso caminho. Em verdade em verdade eu vos digo: quanto maior for a treva em vosso olho, mais longo e mais sofrido será o vosso caminho.

Eu vos digo, irmãos meus, que ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há-de aborrecer um e amar outro, ou há-de acomodar-se a este, e desprezar aquele. Não podeis servir a Deus e às riquezas da terra e estas são a falsidade, a traição, a mentira, a corrupção de valores éticos e morais e o assassinato da esperança e da fé em vosso próximo, plantando em seus corações a revolta e o ódio a vós e às vossas ações repugnantes. Em verdade em verdade eu vos digo que melhor seria que quem assim proceder não tivesse nascido, pois seu caminho será terrivelmente longo, trevoso e cheios de dores e sofrimentos, desesperos e revoltas inúteis. A estes o Pai de Justiça cobrará cada ceitil, cada grão, cada suspiro de dor e sofrimento que impingiu aos seus irmãos.

É por isto que vos digo aqui e agora: não andeis cuidadosos de vossa vida, do que comereis em vossos dias, nem sobre o que vestireis em vossos corpos Não é vossa Alma mais do que vosso alimento físico e o corpo mais do que a vestimenta?

Olhai para as aves do céu. Elas não semeiam nem cegam, nem fazem provimentos nos celeiros; contudo, nosso Pai Celestial lhes provê o de que necessitam em cada dia de suas vidas. Por ventura não sois vós muito mais valiosos a Seus olhos que elas?

E qual de vós discorrendo sobre o que quer que seja pode acrescentar um côvado à vossa estatura? E por que andais vós solícitos a correr atrás do vestido? Considerai como crescem os lírios do campo; eles não trabalham nem fiam e, no entanto, crescem e são belos e enfeitam a vida.

Em verdade em verdade eu vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se cobriu jamais como um destes lírios. Pois se ao feno do campo que hoje é, e amanhã é lançado ao forno, Meu Pai veste assim, quanto mais a vós, homens de pouca fé!

Não vos aflijais, pois, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos cobriremos? Porque os gentios é que se cansam por estas cousas e por elas deixam de enxergar o que é belo na vida e no viver. E a beleza da Vida e do Viver é fugaz como a luz do entardecer e não pode ser aprisionada por vós por nenhuma maneira. Ninguém pode segurar a beleza da Vida em suas mãos. Ela brilha e escorrega e desaparece e não pode ser aprisionada, apenas admirada com contrição. Só tereis dela a recordação. Então, procedei de tal modo que todos os dias para vós vos mostre a beleza da Vida e do Viver, mas não tenteis detê-la em vossos dedos ávidos, pois que mais depressa que um suspiro ela se vos escapará. A beleza da Vida e do Viver só permanece em vós em vossos corações, pelo Amor, e em vossas mentes através das doces recordações. Apenas isto levareis quando tiverdes de vos apresentar diante de nosso Pai Celestial.

Em verdade em verdade eu vos digo: buscai primeiramente o Reino de nosso Pai Celestial e a Sua Justiça e todas estas cousas vos serão dadas e muito mais até.

E não andeis inquietos pelo dia de amanhã, pois o dia de amanhã a si mesmo trará os seus cuidados; ao dia, bastará a sua própria aflição, que por vós nasce e por vós deve ser desfeita.

O silêncio se fez e somente o vento sobre a relva se ouvia. Yehoshua pôs-se de pé, enlaçou a cintura de sua esposa e a de sua mãe e assim, rodeado por seus entes queridos, dentre eles seus discípulos, retirou-se dali.