Eles o seguiam fascinados pelo Poder que d'Ele emanava naturalmente.

Eles o seguiam fascinados pelo Poder que d’Ele emanava naturalmente.

O grupo andou até a vila de Magdala, próximo a Cafarnaum. Ali, Míriam, a esposa de Yehoshua, tinha família e muitos parentes. Sua irmã caçula, Míriam também, parecia-se muito com ela, que era a mais velha das cinco. No entanto, seu procedimento social era muito recriminado, principalmente pelos rabis itinerantes, pois a jovem usava de sua beleza para cativar os ricos homens de negócios hebreus. E mais: namorava às escondidas os importantes rabinos do Sinédrio. À custa disto, sua família tinha uma bela casa e a eles não faltava nada de bom. O pai da esposa de Yehoshua, Abner, era idoso e se lamentava que Yaveh lhe tivesse dado tantas filhas e apenas um filho. Quando o grupo chegou à casa de Séfora, a mãe de Míriam de Magdala, a esposa de Yehoshua, grande algazarra se fez entre suas moradoras. Todas já haviam ouvido falar do milagreiro de Nazaré e duas até o tinham visto pregando. No entanto, nenhuma acalentava ao peito a esperança da distinção de recebê-lo como visitante.

Era a quinta hora do dia (onze horas no nosso horário) e as criadas preparavam a refeição. Séfora, contudo, ordenou que aumentassem a comida e comunicou aos recém-chegados que o almoço só seria servido uma hora depois do meio-dia. Mas mandou que servissem frutas secas e vinho aos recém-chegados, para que mitigassem a fome e pudessem aguardar sem agrura a hora da refeição principal.

O grupo foi convidado a entrar e ocupar o espaçoso pátio onde havia muitas cadeiras estilo romano, espreguiçadeiras. Ao centro e coberto por um caramanchão cheio de flores de maracujá havia um pequeno lago artificial ricamente trabalhado. Yehoshua tomou assento em uma cadeira de pedra que não era espreguiçadeira e puxou para seu colo sua esposa.

— Saudade de mim? — Perguntou ela, faceira e lhe beijando levemente os lábios sorridentes.

— E tu, não a sentias de mim? — Perguntou o Mestre com olhar maroto para a face avermelhada de sua amada.

— O Mosteiro… Sabe, meu amado, agora que estamos juntos, ele me parece um sonho distante. Mas enquanto lá estive, a saudade de ti doía e era muito concreta. Demais até, para meu sossego.

— Não te consolavam as orações?

— E oração sossega um corpo em chamas? Oração aquieta o desassossego de não se saber como está e com quem está aquele a quem amamos?

Yehoshua soltou uma gargalhada, divertido e de bom humor. Seu riso chamou atenção de Míriam, a jovem “prostituta” que pouco se incomodava com o ser assim chamada. Afinal, todos tinham muito conforto e paz à custa de suas noites nos leitos de homens que, muitas vezes, lhe repugnavam pela feiura dos corpos obesos e pela incompetência sexual no leito. Mas não fosse sua beleza e seu fogo na alcova, sua família estaria amargando duras penas e talvez até seu pai já tivesse ido desta vida de durezas e injustiças.

Míriam, a pecadora, veio olhar, escondida atrás de uma coluna, o grupo que conversava, comia e bebia descontraidamente. “Ao menos eles não me olham com desprezo” pensou e abaixou a cabeça com tristeza.

— Míriam, cunhada! Vem juntar-te a nós! Tua presença me honra entre os meus!

Era a voz de Yehoshua e ela fez que a jovem desse um salto de susto. Não esperava ser vista por nenhum deles, principalmente pelo santo milagreiro. Trêmula, boca seca e sem saber o que fazer com as mãos, ela andou timidamente em direção ao grupo. Parou hesitante entre eles, cabeça baixa ao peito e esfregando inconscientemente as mãos. Sua face estava avermelhada de vergonha.

Com delicadeza Yehoshua afastou sua esposa, levantou-se e veio tomar a mão direita da jovem moça. Ela o olhou ressabiada e tornou a abaixar os olhos.

— O que tens? — Perguntou  jovialmente o jovem pregador. — Por que este rubor em tuas faces? És aquela que provê aos teus tudo o que eles têm. Então, por que abaixas tua cabeça?

Míriam queria falar, mas a voz lhe faltava e seu coração parecia querer sair correndo do peito.

— Vem, senta-te junto a nós, a mim e à tua irmã. Eu as amo, a todas vós, com o mesmo carinho e sem distinção por nada que façais. Não te julgues mais severamente que nosso Pai o faz, pois eu te asseguro que aos Seus olhos tu és boa e Sua filha tão dileta quanto qualquer outra nesta casa.

A lira que o irmão de Miriam de Magdala tocava tinha esta aparência.

A lira que o irmão de Miriam de Magdala tocava tinha esta aparência.

Os olhos da jovem se encheram d’água e ela quase se atira agradecida nos braços do pregador. Deixou-se levar por ele sentindo-se invadir por um calor gosto em todo seu corpo. Sentou-se ao lado da irmã e não demorou para que ambas conversassem animadamente, como se nunca se tivessem afastado uma da outra. Então, o único irmão de Míriam de Magdala, Samuel, chegou-se trazendo uma espécie de harpa ou lira rústica, pequena, mas com sons maviosos. Era feita com tripas de ovelhas tratadas e esticadas num polígono de lados arredondados, sendo um mais longo que os outros.

O jovem sentou-se ao lado da mãe e se pôs a dedilhar o instrumento. Todos se calaram para ouvir a música. Então, a jovem irmã de Míriam, a esposa, pôs-se a cantar um cântico sobre o pastoreio e a beleza do entardecer no campo. Yehoshua, para surpresa de todos, acompanhou a moça e sua voz forte e maviosa preencheu o ambiente em acompanhamento da voz de Míriam, a pecadora. O cântico embeveceu a todos e a cantoria se prolongou por mais de uma hora. Quando os últimos acordes da última melodia acabou de soar um homem entrou na casa e veio juntar-se ao grupo. Era o rabi Abel, conhecido por ser um dos integrantes do Sinédrio, embora não atuasse com freqüência em Jerusalém. O silêncio no ambiente se tornou tenso. O homem de barbas longas e grisalhas trajava sua roupa de ritual, o que não era natural para o ambiente e seu olhar passou por todos com censura na face. Com movimentos estudados e lentos, que tinham o propósito claro de tornar o momento sério e solene, no qual ele presidiria ao que fosse acontecer, tomou lugar em uma cadeira de pedra diante do casal Yehoshua e Míriam de Magdala. A jovem irmã da esposa de Yehoshua tentou levantar-se apressada, mas a forte mão de seu cunhado lhe segurou o pulso firmemente e a manteve sentada ao seu lado.

O Grande Pastor de homens não era covarde e sabia quando e porquê falar.

O Grande Pastor de homens não era covarde e sabia quando e porquê falar.

Por um longo momento pesou o silêncio no ambiente que de descontraído se tornara subitamente tenso.

— Yehoshua bar Yoseph — soou a voz de tenor de Abel — tens feito grande alvoroço entre as gentes desta terra. Tens prodigalizado milagres com o Poder do Mal, pois que só os eleitos de Jeovah, bendito seja seu nome, podem realizar milagres e não nos consta que tu o sejas. O que pretendes com isto? Uma rebelião, talvez?

Calmamente Yehoshua respondeu, sob o olhar tenso dos demais.

— E por que julgas, ó rabi, que o que faço visa de alguma forma causar a rebelião do povo? Por acaso já me viste falar contra qualquer regime governamental que tiraniza esta gente? Já me viste pregar a legiões de guerreiros? Não. Falo e prego para os desvalidos e desamparados por vós, os que vos dizeis os eleitos do Criador.

Fez-se um silêncio tenso, muito tenso. Muitas bocas se secaram e a respiração de quase todos, exceto de Míriam, a mãe, de Míriam, a esposa, e de Ruth, a irmã, se tinha acelerado.

— “Guardai-vos de elogios ou de palavras vãs elogiosas, porque elas podem ser proferidas por bocas falsas e línguas peçonhentas pela inveja e pelo rancor. O egoísmo dos mesquinhos não suporta a menor grandeza no outro e sempre tramará sua derrocada por inveja e incompetência. Não vos igualeis a eles em tais riquezas vãs, pois estas são causadoras de muitos dentre os males que, aqui e agora, vós expondes a mim em agonia”. Estas foram palavras que disseste à multidão que te ouviu atentamente, hoje, pela manhã. Ou negas que as disseste?

Yehoshua sorriu e seu olhar era como uma labareda que envolvia o arrogante rabi. No entanto, este sustentou aquele olhar de fogo como se protegido por uma forte couraça de arrogância.

— São minhas palavras, sim. E eu não costumo negar o que digo, pois falo a Verdade que vem de meu Pai. O que de mal tu viste nelas que tanto te incomodou? Por acaso tu te enquadraste entre os invejosos e rancorosos de fala peçonhenta?

A tensão atingiu um grau quase insuportável e ninguém sabia o quê fazer. Mas todos entendiam que o perigo ali era mortal para o calmo e tranqüilo pregador.

— Cuidado com tuas palavras, homem — falou com voz cavernosa e entredentes o rabi Abel. — Em tua fala há uma velada acusação de veleidade contra nós, os rabis do Templo. Eis que nós elogiamos os que são bons, fiéis e cumpridores das Leis de nossos Livros sagrados. Mas não há em nós nem inveja nem rancor contra quem quer que seja, a menos que não se enquadre entre os que cumprem com os deveres sagrados da fidelidade a Yaveh.

— Dizes que não há em vós, rabis, nem inveja nem rancor contra quem quer que seja, mas contradize-te, pois é claro a todos que odiais visceralmente aqueles a quem chamais pejorativamente de kittins. E votais desprezo aos que não são de vossa gente. Por que tu te trais quando afirmas uma coisa com tua boca falsa? Quem te induz à Verdade ainda que tentes mentir para enganar e justificar o que não se justifica? E eu te pergunto: por acaso Yaveh se contenta com luxo e exibição de adoração falsa? EU TE DIGO QUE NÃO! — e o grito de Yehoshua sufocou o movimento de ira que quase fez pôr-se de pé o estupefato rabi. Nunca, antes, fôra confrontado com tamanha arrogância e tamanha autoridade. Isto era-lhe intolerável. Mas o grito de Yehoshua pegou-o de surpresa e ele parou o movimento, com as mãos aferradas nos braços da cadeira.

— Eu também disse: “Quando derdes vossas esmolas fazei-o em silêncio e não façais troar a trombeta diante de vós para anunciar vossas boas ações e vossos óbulos, pois assim fazem os hipócritas nas sinagogas, e nas ruas, e nas praças e onde puderem ajuntar multidões para os aplaudir e admirar e lhes prestar honrarias e louvores.” Dize-me, rabi, minhas palavras são falsas? O que tu e os teus fazeis quando estais nas sinagogas ou quando pregais em praça pública?

— Nós não troamos trombetas! — quase urrou de ira o desafiado rabi. — Fazemos soar os címbalos para chamar nossos fiéis à oração! Entre a multidão do povo não há somente hebreus e nossos ritos sagrados são unicamente para nosso povo! O povo eleito de Yaveh!

— Ah, sim — e havia clara ironia na voz de Yehoshua —, eu me esqueci deste detalhe: vós vos considerais os eleitos de meu Pai. Mas eu te pergunto: e os outros? Os que não são hebreus? De que Deus eles são os eleitos?

— Isto não é importante…

— Não? — Cortou com voz tonitruante o pregador rebelde. — Como não? Nunca vós vos perguntastes a razão de eles existirem na mesma terra em que vós, os auto-proclamados eleitos, existis? Porque todos somos filhos de um único pai e tu não me podes negar esta afirmativa… Ou será que não concordas com esta verdade? Há outro Deus que tenha criado outros homens sobre a Terra? Vossos Livros ditos sagrados afirmam que o Homem feito por Jeovah foi Adão e somente ele; e dele derivou-se todos os demais. E se assim é, quem separou os hebreus de seus irmãos não-hebreus?

— Ora, Jeovah fez isto quando Caim matou Abel. Os descendentes de Caim são os recusados do Criador…

— Então o vosso Caim é bem maior e mais poderoso que o Pai Celestial? Tão grande foi que afrontou a divindade e esta não o fulminou, mas permitiu que sua descendência se multiplicasse sobre a Terra que Ele criou para os hebreus e exclusivamente para estes? E se olhas com olhos de ver, verás que os descendentes do vosso Caim são muito mais numerosos que os descentes de vosso Abel. Se assim é, vosso deus perdeu para o Deus do Mal. É isto?

— Está escrito que…

O Maior dos Avatares, Sua história foi tão deturpada que, hoje, grande parte dos povos não lhe dão mais valor que o que atribuem às suas crenças mundanas e, vez por outra, esta suplantam aquela.

Yehoshua era um homem alegre. Gostava de cantar e sorrir. Pena que não o representem assim.

— O que está escrito está morto, porque está fixado no papiro, rabi! — E novamente a voz altissonante de Yehoshua cortou a palavra ao arrogante representante do Templo, que se avermelhou todo, impotente ante aquela voz trovejante. — A Verdade não é estática, mas dinâmica. Por que não dais ao povo a interpretação correta dos Livros que tendes? Por que escondeis propositadamente a Verdade que ali está? Não foi para pregar a Verdade que vós fostes escolhidos pelo Incriado para trazer as luzes do Conhecimento aos filhos do Criador? Sim, do Criador, o Único que possui o Poder de doar a Vida a todos, hebreus ou não, humanos ou não. Eu também disse: “E não desejeis entesourar para vós tesouros na Terra, onde a ferrugem e as traças os consomem e onde os ladrões os desenterram e roubam. Buscai, ao contrário, entesourar para vós riquezas no céu, onde não as consome nem a traça nem a ferrugem e não as roubam os ladrões. E os tesouros do céu são feitos de Amor distribuído por vós a todos os seres e a todas as cousas; de Caridade, de Companheirismo, de Bondade, de Perdão e de Justiça com Piedade. Pois eu vos digo que onde estiverem vossos tesouros aí também estarão vossos corações. Dize-nos, rabi, a todos nós aqui presentes, quem são os mais ricos de tesouros terrenos, os comerciantes e o povo em geral ou os rabis do Templo? Quem são os mais ricos que o próprio Herodes? E a custa de quem tais homens ajuntam estes tesouros na Terra? Eu te respondo, já que a voz silencia em tua boca falsa: os mais ricos dos tesouros da terra são os que se dizem representantes de meu Pai entre os homens. Vós tomais com sofreguidão o que puderdes tomar de vossos irmãos. Vós, com palavras mentirosas e ardilosas, os coagis a vos entregar o que seja que possam ter de valor aos vossos olhos míopes. E o que fazeis com isto? Guardais sob sete chaves tanto a prata quanto o ouro. Tamanho tesouro de nada serve nem para vós, os avaros, nem para os explorados. Ficam enterrados e inúteis. Mais valeria que permanecessem onde meu Pai os colocou para que seus filhos os descobrissem e os utilizassem para o bem de todos, como irmãos que sois. EU VOS PERGUNTO! — Gritou Yehoshua, cortando o protesto que já se formava nos lábios do assustado e desnorteado rabi. — Onde está a Bondade em vossas ações? Pregais o ódio aos vossos irmãos com tamanho ódio em vossos corações que vossos espíritos são negros diante dos olhos de meu Pai. Incitais a arrogância e a prepotência entre o povo que dizeis é o eleito de Yaveh, e o fazeis porque entendeis ao pé da letra o que não é para ser entendido assim o que nos vossos Livros se contém. Não praticais a Caridade e tanto tempo faz isto que nem mais sabeis o que ela seja. No entanto, sem a Caridade nunca entrareis no Reino de meu Pai. Neste momento, rabi, para que se dê fé ao Poder de Meu Pai, eu, o Filho do Homem, te darei um presente para que tenhas o quê refletir durante os dias de tua existência entre os homens. Neste momento tens um mal que te come as entranhas. Sofres dores atrozes com o que te devora e perdes noites de sono e te contorces com estoicismo durante os ritos vazios que praticas em teu templo de pedra. Eu te curo, aqui e agora, para quando, chegado o momento de levantares tua voz contra mim, tua consciência seja teu juiz que não te perdoará até mesmo após tua morte. Vai em paz e nos deixa com ela. Anda!

O momento era de pura tensão. Um silêncio denso, pesado, tomou conta do ambiente. O rabi pigarreou e inconscientemente levou a mão ao ventre, como se tentasse sentir alguma coisa dentro de si. Seu olhar percorreu a face de todos ali e gostaria de dizer alguma coisa mais, mas sua mente estava confusa. Sim, chegara sentindo aquele martírio que o perseguia dia e noite e que ninguém soubera identificar o que fosse. Sim, algo maldito lhe roía as entranhas do ventre e o torturava e o fazia gritar em suas noites solitárias. Mas agora, depois do que dissera aquele homem misterioso e desconcertante, a dor tinha desaparecido e um gostoso bem-estar, há muito não mais experimentado por ele, o invadia e o relaxava. Confuso, olhos abaixados para o solo, pôs-se de pé e caminhando sem firmeza se retirou. O silêncio permaneceu entre os que ali ficaram, até que a voz maviosa de Yehoshua voltou a entoar uma canção desconhecida de todos e falada em uma língua que também não era conhecida  senão por seus familiares.

Era um hino dos monges de Hemi em agradecimento a Buda…