O Rei dos Reis vivia cercado por crianças e mulheres.

O Rei dos Reis vivia cercado por crianças e mulheres.

Deixemos o pequeno grupo almoçando na casa da família de Míriam, a esposa, na vila de Magdala, e vamos ver o que aconteceu antes e depois daquela reunião. Retornemos ao momento em que Yehudhah is Qeryoth deixou os rabis no Templo de Jerusalém e foi direto para o ambiente socialmente mais baixo e mais perigoso de Jerusalém. Ele se remoía de preocupação. Tinha iniciado mal aquele encontro. Recitara uma das frases ditas por seu Mestre bem diante dos lobos que o queriam caçado e morto: “Ouvistes que foi dito aos antigos: não matarás. E também foi dito que quem matar será réu no dia do Juízo. Eu, porém, vos digo que não deveis matar nem mesmo os animais, pois a Vida que em tudo se manifesta pertence a um único dono: Meu Pai que está no céu”. Por que artes do demônio dera com a língua nos dentes? Fornecera lenha para a fogueira, tinha a certeza. Seu Mestre tinha realmente feito uma dura crítica à Lei e, pior, alterara seu significado ampliando-o de modo realmente ofensivo para os Rabis do Templo. Mas o pior mesmo fôra ter citado a multidão à qual seu Mestre havia falado. Multidão! Que linguarudo era! Despertara a desconfiança e a inquietação nos corações mais malévolos de que tinha conhecimento entre sua gente. E os maldosos inserem interpretações indevidas às palavras dos profetas e da Lei. Não será este o caso de teu Mestre?” Esta frase, dita com tom inquietante reboava, agora, em sua mente e o inquietava.

Seu treinamento de anos o havia preparado para reagir sem pensar.

Seu treinamento de anos o havia preparado para reagir sem pensar.

O pior mesmo foi ter citado, impulsivamente, as palavras seguintes de Yehoshua: ““Pois em verdade em verdade eu vos digo: se a vossa justiça não for maior nem mais perfeita do que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino de meu Pai, pois Ele não aceita imperfeições nem iniqüidades”. Inquieto, Yehudhah tomou da caneca de vinho e bebeu-a quase de um só trago. Pediu outra ao taverneiro sujo, barrigudo e mal-encarado que passou perto de sua mesa. Este o olhou de esguelha e se foi, demorando um pouco a chegar com a bebida. Yehudhah segurou-lhe o braço com força e rosnou, cheio de ódio e de inquietação:

— Quando eu pedir uma caneca de vinho vê se te apressa, senão…

— Senão o quê? — Perguntou o homem, retirando seu braço da mão de Yehudhah com um safanão. — Sei quem és, homem. Mas se pensas que temo tua sica te enganas. Também sei lutar e luto muito bem. Então, não te tomes por valente perante mim que te vais dar mal.

Com um olhar assassino para o homem, Yehudhah entornou mais aquela caneca. Em menos de duas horas já bebera mais de 12 canecas de vinho de segunda categoria e já sentia seus membros pesados. Decidiu que era tempo de comer alguma coisa salgada e pediu um pedaço de carneiro assado. Enquanto esperava, lançou um olhar perscrutador sobre o ambiente mal-iluminado, escuro e cheio de gente da pior espécie. A maioria dos assassinos ali presentes ele conhecia muito bem e era bem reconhecido por eles também. Após a refeição decidiu ir embora, procurar onde dormir. Retirou dinheiro da bolsa que continha algumas moedas conseguidas junto aos seguidores do Mestre, doadas para o grupo, e pagou o que devia. Seu gesto foi observado atentamente por um homem muito mal-encarado, forte como um touro e bem mais alto que o discípulo rebelde e que se sentara de modo a não ser facilmente percebido por aquele.

Antes disto, Caifás tinha ido ter com outro rabi integrante do Sinédrio. Seu nome era Abel, um homem já entrado em anos, mas ainda forte, em que pese o mal desconhecido que o acometia e o fazia sofrer muito, o que só piorava seu humor a cada dia que passava. Encontrou-o deitado sobre almofadas, face suada, mãos ao ventre, contorcendo-se de dor. Sobre uma mesinha de mármore ao lado da cadeira-preguiçosa em que se deitava entre almofadas, muitos vidros com mezinhas de todos os tipos. Ele já bebera de todas, sem resultado. Quando seus olhos pousaram no recém-chegado, com dificuldade pediu.

Igual aos arrogantes de hoje, Caifás também não pensava em nada além desta existência.

Igual aos arrogantes de hoje, Caifás também não pensava em nada além desta existência.

— Pelo Santo dos Santos, Caifás, aplica-me os passes mágicos que nos ensina o Zohar para curar dores e sofrimentos. Sozinho eu não consigo a concentração necessária, pois esta dor infernal está pior que antes…

Por um momento Caifás permaneceu calado. Então, ajoelhou-se e estendeu as mãos sobre o ventre inchado de Abel, orando baixinho uma invocação aos Seraphins curadores. O passe durou aproximadamente trinta minutos, mas quando Caifás terminou havia uma expressão de alívio na face suada de Abel.

— Graças a Yaveh tu vieste aqui, hoje. Não posso nem imaginar como seria minha noite. A que devo tua visita? Ah, perdoa-me, toma um vinho e me desculpa se não te sigo nisto.

Sempre calado, Caifás serviu-se e bebericando o bom vinho vermelho sentou-se. Então, mirou a face gorda e suada diante de si e falou.

— Sabes muito bem do quanto andamos, Anás e eu, preocupados com o milagreiro de Cafarnaum.

— Sim, sei. E então?

— Hoje, nosso espia entre os que o seguem esteve aqui. E…

Caifás narrou com detalhes o que tinham ouvido dos lábios de Qeryoth. Quando findou sua narrativa, Abel meneou negativamente a cabeça e disse:

— Por que ele vos causa tanta perturbação? Que eu saiba, a Palestina sempre esteve cheia desse tipo de gente. E nenhum perturbou tanto as mentes de vocês dois quanto esse homem.

— Ora, tu o conheces muito bem. Quando criança ele pregou no Templo e discutiu as Leis conosco, causando grande espanto pelo seu conhecimento em idade muito tenra, não mais que dez anos.

— Ah! Então, o homem de que me falas é aquele garoto, Yehoshua, o filho de Míriam e Yoseph?

— Exato! Ele mesmo!

— Virou milagreiro, é? — Debochou o gorducho Abel.

— Não um qualquer. Ele, hoje, nos mostrou que domina à perfeição os ensinamentos ocultos do Zohar. Falou conosco, Anás e eu, através da boca de Qeryoth. E nos desafiou e até zombou de nós.

Abel perdeu o ar de despreocupação e permaneceu silencioso. Dominar o Zohar? Como assim, se o livro só pode ser estudado pelos mais altos dignitários entre os integrantes do Sinedrim?

— Tens certeza do que me dizes? O assunto é muito sério. Onde e como ele conseguiu realizar tamanha proeza?

— Creio que aprendeu tudo em Hemi, pois sabemos que passou muitos anos internado naquele Mosteiro.

— Ninguém ali conhece o Zohar, Caifás.

— Os indianos dominam à perfeição tudo o que diga respeito aos nossos Livros mais sagrados. Yehoshua fala perfeitamente e com desembaraço a língua sagrada dos indianos, o sânscrito, e sabemos que os livros mais ocultos dos conhecimentos sagrados entre eles são escritos em sânscrito.

— Bom, outros versados nos Vedas indianos já andaram por aqui e também já realizaram milagres com o conhecimento que conseguiram lá, entre o monges. Nenhum deles perturbou nosso Templo…

— Verdade, mas nenhum era legítimo descendente da linhagem do rei David e Yehoshua o é por parte de pai e mãe. E foi por isto que Herodes, o Grande, caçou-o ferozmente quando ele ainda era bebê. Mandou até que se realizasse uma matança cruel, quando não conseguiu localizar em que buraco o tinham escondido seus pais. Na verdade eles haviam fugido para o Egito…

— Eu sei deste acontecimento cruel — cortou Abel. — Mas o que tem a linhagem dele com ser milagreiro formado em Hemi?

— Tem que ele pode estar tramando uma rebelião do povo com vistas ao trono de nosso povo e isto seria uma catástrofe. Mesmo que a guerra se desse contra Herodes Antipas e seus irmãos, com certeza os romanos entrariam nela, pois tu o sabes bem, Jerusalém é o entrocamento de muitos caminhos importantes para quase todo o mundo e é, por isto mesmo, de grande destaque para Roma. Por aqui circula gente de todos os povos conhecidos e o comércio é intenso.

— Uma bênção — cortou Abel, pois que nosso povo, conhecendo bem nossa terra, ganha muito dinheiro servindo de guias para os estrangeiros

— Não o povo, mas principalmente os assaltantes, os bandidos caçados por romanos e por Herodes. E Qeryoth foi e é um deles. Ainda não sei se continua realizando esta tarefa altamente lucrativa para eles, os bandidos e salteadores sicários, visto que está grudado com Yehoshua. Como sabes, muitas vezes eles mesmos, os bandidos e seus grupos, matavam os caravaneiros e tomavam suas mercadorias. E ainda fazem isto com freqüência, razão pela qual Roma mandou que suas patrulhas andassem permanentemente pelas estradas construídas por Roma a fim de garantir a segurança tanto dos ricos comerciantes quanto dos cidadãos romanos que precisam transitar por estas bandas.

— Mas não vieste aqui falar-me de um miserável sicário, pois não?

— Sim e não. Qeryoth é nosso espia, como já te disse, infiltrado entre os outros aos quais o milagreiro de Nazaré chama de “discípulos”. Ele vem aqui, periodicamente, informar-nos do que faz Yehoshua e recebe trinta siclos de prata por seus serviços, sempre que nos traz boas informações. E o que Yehoshua anda fazendo começa realmente a nos causar inquietação.

— Por que não convocais, tu e teu genro, o Sinedrim para decidir a questão?

— Não temos elementos suficientes para acusar o homem de um crime que mereça ser julgado pelo Sinedrim. Bem que muitos espias nossos, principalmente rabis itinerantes, andam de olho nele, mas não conseguiram nada que o condene por suas próprias palavras ou ações. Ele aparenta total simplicidade. Não anda armado e prega veementemente contra as guerras e as matanças…

— Então, paguem ao bandido para eliminar o homem e pronto — cortou Abel, impaciente.

— Não é tão fácil. Mesmo o mais temido sicário que há nesta atualidade já está sob a magia da doutrinação de Yehoshua. Qeryoth não atentaria contra sua vida e já deixou isto bem claro para nós. Agora, vês o perigo? Se a seita dos sicários, que é bem organizada, apesar da violência, aceita o milagreiro como líder, o que ele não poderá fazer conduzindo aqueles arruaceiros? Nós sabemos que os sicários são sustentados, disfarçadamente, pelos fariseus e muitos até pertencem a esta facção. Mas isto apenas torna mais perigosa a tendência dessa gente para o lado de Yehoshua.

Por um longo momento reinou o silêncio entre os dois rabis. Então, Abel falou.

— Qeryoth ainda está por aqui, em Jerusalém?

— Sim, em algum prostíbulo por aí. Por que?

— Manda localizá-lo. Eu pretendo contratá-lo para me acompanhar numa viagem a Cafarnaum. Vou ver de perto o homem que tira o sono aos dois mais destacados rabis dentre os que integram o Sinedrim.

— E o que farás, quando o encontrares?

— Não sei. Tudo vai depender de nossa conversa. Vou forçá-lo a se trair.

— Tu?! Ora, já tentaram isto vários outros rabis tão bons quanto tu mesmo. Nada conseguiram. Yehoshua é muito esperto e se sai muito bem quando se tenta colocá-lo contra a parede.

— Mesmo assim, quero conhecer o sujeito. Consegue-me o sicário como meu guia e guardião. Não sou de lutas e tu sabes disto.

— Nenhum de nós o é. Está bem. Tu talvez possas tirar alguma coisa do sujeito. Hoje mesmo mandarei que se localize nosso espia. Espera por ele ou por mim, no caso de ele já ter partido. Eu trarei outro homem de nossa confiança. Até amanhã e boa-noite.

— Hum-hum… — Fez Abel, distraído e ensimesmado.

Tonto devido ao vinho, Qeryoth pagou o que devia e se retirou em busca da casa onde geralmente alugava um quartinho para dormir. Não era um prostíbulo. Ele não estava disposto a ter mulheres frias fingindo amá-lo para lhe tomar dinheiro. E estava cansado.

Ia distraído, perdido em seus pensamentos, quando um homem gigantesco surgiu de repente diante de si. O local era muito sombrio e qualquer coisa parecia ser somente fantasmas, sombras dentro das sombras. O homem levantou a mão direita e antes que pudesse descê-la Qeryoth atacou com a rapidez de um relâmpago. Sua sica afundou no peito do “fantasma” que, soltando um gemido de dor e surpresa, caiu sobre o sicário…