Judas matou um amigo de infância e, tomado pelo remorso, apela a Yehoshua para que o ressuscite.

Judas matou um amigo de infância e, tomado pelo remorso, apela a Yehoshua para que o ressuscite.

Qerioth sacudiu a cabeça para espantar os eflúvios do álcool que lhe nublavam a visão. Sentia-se febril e tonto. Ainda não percebera que tinha acabado de matar um homem. Então, sua visão se clareou um pouco e, passando a mão sobre os olhos e a testa para afastar o suor abundante de que estava tomado, curvou-se para olhar o que o tinha atacado. Custou a perceber que tinha abatido um homem. Com esforço virou sua vítima de frente e aproximou a face o mais que pôde para reconhecer quem era ele. Não conseguiu. Uma barba espessa escondia as feições de sua vítima. A escuridão era muito intensa, o que dificultava mais ainda o que desejava. Então, com esforço hercúleo conseguiu colocar o morto nos ombros e esgueirando-se pelas vielas mais escuras logo chegou ao pequeno bosque que ladeava o Templo. Era um local abandonado à noite, por onde só perambulavam assassinos, assaltantes e estupradores da pior espécie. O terreno era baixo e circundava a muralha oeste do Templo. Uma ravina que os soldados de Herodes e os romanos sempre procuravam evitar e por onde as pessoas de bom-senso evitavam passar mesmo durante o dia, a não ser que estivessem em grande grupo.

O Vale do Cedrão rodeava o Templo pelo lado da Porta das Águas. Por ele andou Qeryoth carregando seu amigo nos ombros.

O Vale do Cedrão rodeava o Templo pelo lado da Porta das Águas. Por ele andou Qeryoth carregando seu amigo nos ombros.

Arquejando e curvado sob o peso dos 140 quilos de sua vítima, suando em bicas e com o fôlego já faltando, ish Qeryoth (= natural de Qeryoth) finalmente chegou a um local muito baixo e de mata densa. Era o Vale do Cedrão. A partir dali o terreno subia por uns duzentos ou trezentos metros, distanciando-se das seteiras perigosas do muro do Templo, no lado do Pátio dos Gentios. O discípulo rebelde chegou ao alto já sentindo tontura e com dificuldade para respirar. Adiante, alguns metros à frente, estava o Getsêmani. Lançou o corpo do morto ao solo e caiu a seu lado, arfando de cansaço e tentando puxar o ar com força para sustar o sufocamento de que estava tomado. Quanto tempo permaneceu assim, ele não saberia dizer. Finalmente, exausto, caiu ao lado de sua vítima e adormeceu. O frio da noite e o abatimento fizeram que despertasse com o corpo febril e assustado com o troar do sofar do Templo anunciando a primeira hora do dia (6 h da manhã). Sua boca amargava horrivelmente. Seus olhos ardiam e estavam cheios de remela que lhe nublavam a visão. Tremia e tinha dificuldade de se pôr de pé, mas ainda que parecendo levantar a própria Terra, conseguiu, cambaleando, ergue-se sobre as pernas. Olhou atarantado ao redor, sem saber como é que tinha chegado ali. Então, ao tentar andar, tropeçou no corpo de sua vítima e caiu de cara na terra. Ergueu o tronco sobre os cotovelos e sacudiu a cabeça tossindo descontroladamente. Estava febril, muito febril. Virou-se para ver em quê tinha tropeçado e viu um corpo sujo e cheio de sangue estirado a seus pés. Arrastando-se sobre os cotovelos e sentindo muita dor no corpo todo, ele pôde olhar a face do homem na luz ainda fraca do alvorecer. Demorou um pouco a reconhecer no morto o seu amigo de infância, Levi, o saduceu. Eram amigos que tinham lutado junto e aprontado muito, até quando ish Qeryoth se bandeara para o lado dos Sicários. Levi não o seguiu e a amizade entre os dois tinha esfriado, mas nunca se haviam tornado inimigos. O outro não compactuava com o ódio de ish Qeryoth contra os kitins. Sim, is Qeryoth tinha sido criado praticamente junto com aquele homem que, agora, era um cadáver sujo e feio, estendido no solo como um trapo ensanguentado. ish Qeryoth permaneceu um tempo abobalhado olhando o morto e, então, aos poucos a memória do acontecimento noturno lhe veio à mente de modo confuso. Sentou-se sem tocar no companheiro morto e com os braços abandonados sobre os joelhos, permaneceu olhando, parvo, o cadáver. “Eu o matei! Fui eu que o matei… Mas por quê? O que aconteceu? Por Yeveh, não consigo me lembrar, mas… mas foi minha sica que o feriu de morte!”

Yehoshua o doutrinador

Companheiro fiel, o Mestre nunca deixou seus Apóstolos sozinhos, mesmo quando estes não O viam.

Somente uma hora depois, o sol já brilhando e anunciando mais um dia de intenso calor, que ele, queimando em febre e cheio de sede, conseguiu recapturar toda a cena em sua memória. Levi surgira de repente diante dele e erguera a mão. No escuro tinha pensado que era um assaltante e reagira quase de modo automático. Então, surgindo do mais profundo de sua memória, ouviu dentro de si a voz clara e forte de seu Mestre, que dizia: “Ouvistes que foi dito aos antigos: não matarás. E também foi dito que quem matar será réu no dia do Juízo. Eu, porém, vos digo que não deveis matar nem mesmo os animais, pois a Vida que em tudo se manifesta pertence a um único dono: Meu Pai que está no céu”. Aquela sentença surgiu subitamente na mente de Qeryoth e ele voltou a olhar sua vítima sentindo uma confusão de reações emocionais. Uma tempestade de recordações boas, de sua infância na companhia do morto, assoberbaram suas lembranças. Então, um pranto dorido explodiu dentro de si e um misto de intenso arrependimento, culpa, desespero e impotência o assoberbaram e o sufocaram. Seu pranto se tornou angustioso  e seu corpo foi tomado por sacudidelas de soluços doridos. Uma dor aguda o assoberbava na alma mesma. Uma dor que não era física, mas que fazia seu corpo doer de tanto pranto angustiado. E ele se atirou sobre o corpo do morto pedindo perdão entre soluços pelo que tinha feito. E quando, finalmente, exausto, ele se sentou abatido, ainda soluçando e cheio de revolta contra si mesmo por ser quem era, seu pensamento se dirigiu a Yehoshua com um pedido desesperado: “Yehoshua, Yehoshua, pelo Amor de Teu Pai, ajuda-me. Devolve a vida a ele que eu não suporto a dor que me assola. Eu não o matei por querer. Foi num impulso impensado, eu juro! Por favor… Por piedade…” O Apóstolo rebelde sufocou num pranto dorido de angústia e arrependimento de ser quem era: um assassino frio e temido. Mas foi justo naquele momento de maior solidão e desespero que ish Qeryoth sentiu uma mão cálida pousar em seu ombro e o toque fez sumir como por encanto toda aquela agonia que o sufocava. Olhou para cima e, espantado, viu o rosto sorridente de seu Mestre.

— Chamaste-me, aqui estou. O que desejas de mim, querido ish Qeryoth?

Confuso, Yehudhah  se pôs de pé. Seu corpo não mais tremia e um alívio na forma de grande alegria lhe tomou todo o corpo. Sem se conter, atirou-se sobre seu Mestre e o abraçou com alegria. Ouviu o riso descontraído de Yehoshua, que também o abraçou com carinho.

— Que desejas de mim, Yehudhah ish Qeryoth? — Perguntou Yehoshua, afastando delicadamente seu discípulo e o segurando com ambas as mãos postas em seus ombros.

Is Qeryoth , a partir daquele momento, tornou-se o maior amigo e confidente de Yehoshua.

Is Qeryoth , a partir daquele momento, tornou-se o maior amigo e confidente de Yehoshua.

— Eu… — a voz sumiu na garganta de ish Qeryoth e seus olhos lagrimejantes se voltaram para o cadáver. — Eu o matei. Ele era meu amigo, Rabi, e eu o matei! Mas não foi intencional. Ele era meu amigo… desde nossa infância. Eu estava bêbado. Sei que… que não é desculpa… — sua voz se tornou sufocada pelo pranto que tentava controlar. — Sei que feri o mandamento sagrado… Eu não devia… eu não devia…

— Calma, Yehudhah ish Qeryoth — disse Yehoshua, sério. — Teu amigo não está morto. Chama-o. Ele se levantará. Não tem nada de errado com ele.

— Está morto, Senhor! — disse ish Qeryoth com voz sufocada e corpo sacudido pelo pranto de desespero que o assoberbava. — Eu mesmo trouxe seu cadáver sobre meus ombros até aqui. Sei que está…

— Chama-o! — E a ordem dada com voz firme e impositiva foi secundada por um olhar duro e penetrante, de uma autoridade que não se podia questionar. Ish Qeryoth olhou para seu Mestre e engoliu em seco. Voltou-se para o defunto e, com passos vacilantes foi até ele. Pigarreou e chamou com voz surda.

— Levi… Levi, tu me ouves?

O homem se moveu devagar e levando a mão ao peito, com dificuldade sentou-se, sacudindo a cabeça.

— Diabo! — rugiu com voz rouca. — Não me lembro de ter bebido nada, mas tive um tremendo pesadelo! — Sua voz era rascante e ele teve de pigarrear umas três vezes para clarear a voz e chegar ao fim da frase. — Acreditas que eu sonhei que estava nas profundas? Na morada do Maldito?! Lá, entre o fogo da geena! Logo eu?

Levi olhou para Ish Qeryoth que o fitava de olhos esbugalhados.

— Tu… Tu estás vivo? Estás mesmo vivo? — Yehudhah Ish Qeryoth voltou-se para Yehoshua que os observava, sério e imóvel. — Senhor! Ele vive!

— Devias ter mais fé, ish Qeryoth — censurou o Mestre com voz terna e aproximando-se dos dos homens. Levi já ficara de pé e se olhava sem entender a razão de estar todo banhado em sangue.

— Mas o que diabos me aconteceu?! — Perguntou ele, mirando na face sorridente de Yehoshua.

— Tomaste uma carraspana e deste muito trabalho para ser transportado até aqui por nosso irmão Yehudhah — disse o Mestre, convidando os dois a segui-lo. — Venham, vós tendes que ir ao Templo…

— Eu me lembro agora! — Exclamou Levi segurando o braço de Yehoshua e fazendo que sustasse o passo elástico. — Fui mandado encontrar Yehudhah por Caifás.

— E o que ele deseja de mim? — Perguntou Yehudhah curioso.

— Eu não sei — respondeu Levi voltando-se para olhar seu companheiro de arruaças. — Ele somente me ordenou te encontrar. Sabe que somos amigos… Mas não sei o que me aconteceu, pois agora recordo que dobrava uma rua e vi diante de mim uma sombra… Depois, só me recordo de ter tido um pesadelo dos diabos e despertado aqui, todo sujo de sangue. Aliás, este cheiro já começa a me incomodar. Vai ter com Caifás. Vou direto para meu alojamento, na casa de Anás, para me lavar e trocar de roupa. Ainda não entendo como é que vim parar aqui, embora teu amigo tenha dito que tu me trouxeste sobre teus ombros. Não creio que tenhas tido tanta força para tamanha façanha. Eu sou muito pesado…

Levi se voltou para pedir uma explicação ao desconhecido, mas não mais o viu. Procurou com o olhar vasculhando a senda que descia coleante por entre os arbustos até afundar de vez na floresta lá em baixo. Nada.

— Ué! Para onde ele foi?!

— Acho que foi para Jerusalém. Ele tem negócios que cuidar na cidade. Vem, vamos ver o que teu senhor quer comigo.

Caifás era detestado por Yehudhah.

Caifás era detestado por Yehudhah.

— Caifás não é meu senhor! — Protestou Levi, fechando a cara. — Eu trabalho para Anás. Sou seu guardião particular. O rabi não é benquisto fora de Jerusalém. Quando viaja, sou eu seu protetor. O desgraçado é um fracote metido a valente só porque é rabi — e Levi virou a cabeça para o lado e deu uma cusparada de desprezo.

— Então, vamos ver o que…

— Não! Vai tu sozinho. Eu tenho de me trocar. Estou fedendo a sangue e isto é horrível!

Os dois se separaram e Yehudhah ficou ali, parado e olhando ao redor. Nem sinal de Yehoshua. Tudo parecia vazio, estranhamente vazio. Teve ímpeto de retornar a Magdala para se juntar ao grupo do Mestre. Sentia-se estranhamente sozinho e fraco. Mas conteve-se e se forçou a ir ter com Caifás. Encontrou o rabi fazendo seu desjejum no rico peristilo de seu palácio. O homem estendeu a mão e com displicência indicou-lhe uma cadeira igual à sua, comprida, própria para que a pessoa se deitasse nela enquanto fazia a refeição. Ish Qeryoth tinha fome e não hesitou em se sentar e se servir, observado atentamente por Caifás.

— Onde estavas, Yehudhah?

— Tomando vinho e jantando. Levi me deu teu recado. Mas era tarde e eu estava com sono. Além disto, tu já devias estar na cama. Então, também fui dormir e, agora, estou aqui. O que desejas de mim?

— Tua aparência está horrível! Barba em desalinho, cabelo misturado com terra… Em que lugar dormiste que despertaste assim? Fedes a bebida, sangue coagulado e suor. Um odor muito desagradável. Pelo que posso deduzir, andaste te metendo em encrenca. Espero que não tenhas matado a ninguém. Quando terminarmos aqui, vai tomar um banho e trocar de roupa. Se não tens uma à mão, não importa. Pede que serás atendido. Mas por Yeveh, não andes por aí feito um mendigo. E nunca mais entres em minha casa com tal aparência e tal catinga. Que diabo de discípulo és? Um discípulo do maldito?

Qeryoth ouviu tudo sem dar a mínima atenção ao Rabi. Estava faminto e comia um pedaço de bolo e bebia leite de cabra gulosamente. Caifás permaneceu em silêncio por um tempo, também comendo. Então, quando ambos já estavam satisfeitos, ele acenou ao escravo trácio para que viesse retirar o que sobrara do repasto.

— Na verdade, Qeryoth, quem quer teus serviços é o rabi Abel. Ele vai para Cafarnaum e deseja que tu sejas seu acompanhante. Sabe que tu conheces bem as estradas para lá e, também, todos os assaltantes que há pelo caminho. Eles também te conhecem e te respeitam. Abel é um homem doente. É um rabi e não é treinado nas artes de combate. Sua guarnição de seis soldados não é páreo para uma chusma de sicários, se forem atacados. E não cuides sobre teu pagamento. Ele te pagará bem pelo serviço.

As últimas palavras de Caifás fizeram que Yehudhah ish Qeryoth ficasse subitamente introspectivo. Ele estranhou não ter sentido nenhuma reação de cobiça pela prata de Levi. Sabia que podia cobrar muito bem o seu serviço, mas não encontrou nenhum elã em si para explorar o rabi indefeso. Observava-se atentamente, maravilhado com o bem-estar que o invadia por não mais se sentir ganancioso nem apegado aos dinheiros dos outros.

— E então?! — Insistiu o rabi, curioso pelo silêncio e pelo estado de alheamento que observava na expressão do assassino diante de si. — Se tens dúvidas quanto ao pagamento, não temas. Abel é rico e pode pagar muito bem tua assistência…

Yehudhah voltou ao presente e seu olhar acerado como sua sica se fixou na face dura de seu anfitrião. Sentiu súbita repugnância pelo homem e teve um forte ímpeto de sair dali o mais depressa possível. Mas se conteve à força.

— Não, não me preocupo com pagamento…

— Então… É pela viagem? Tu sabes de algum perigo real possível? — Sondou Caifás estudando atentamente a face de Yehudhah.

As decúrias romanas estavam sempre andando pela estrada romana a fim de espantar os assaltantes.

As decúrias romanas estavam sempre andando pela estrada romana a fim de espantar os assaltantes.

— A estrada para Cafarnaum é sempre perigosa, rabi. A mais segura é a construída pelos kittins, mas eles cobram pedágio. Suas decúrias o fazem. E como não se sabe quantas vamos encontrar, é bom levar bastante prata para satisfazer a gula dos soldados romanos. Isto é sabido por todos os assaltantes que conheço bem. Então, viajar pelas estradas romanas, se é seguro por uma parte, é ruim por outra.

Caifás pensou um pouco e assentiu com um aceno de cabeça.

— O que sugeres, então?

— Vamos pelos caminhos mais poeirentos e mais compridos. Mas são nossos caminhos. Eles são percorridos pelos que não têm posses. A pé ou montados em mulas. Um rabi transitando por esses caminhos não é algo de se estranhar, pois há muitos itinerantes que vagueiam por eles. O que vai chamar a atenção é a guarnição do rabi Abel e minha presença entre eles. Os itinerantes não são protegidos por guarnições nem por bandidos notórios, como eu.

Caifás pensou um pouco e assentiu lentamente com a cabeça. Então, falou.

—  Tens razão e fazes jus à fama de bom guia que angariaste entre as gentes que transitam por nossas terras. Vai tomar banho e trocar de roupa. Depois, dirige-te à residência de Abel e diz a ele o que me disseste. Creio que ele aceitará teus conselhos. Vai, agora.

Meia-hora depois,  banhado e de roupas trocadas, barba aparada e cabelo penteado decentemente, Yehudhah, que ganhara novas roupas, apresentou-se diante de Abel. Foi recebido com frieza e desprezo claro na expressão facial tanto quanto na corporal do rabi. Mas em lugar de sentir raiva por se perceber desprezado, humilhado, Yehudhah sentiu dó daquele velho displástico. “Está morrendo e, ainda assim, pensa que é alguma coisa. Coitado!” O Discípulo Rebelde e se surpreendeu por sentir dó do velho empertigado diante de si. “Tem alguma coisa estranha, mas muito boa, acontecendo comigo” pensou Yehudhah, satisfeito consigo mesmo…

♥ ♥ ♥

Um ano antes daquele encontro, na casa suntuosa de um Senador romano, Públio Lentulus Cornelius, na grandiosa Roma Imperial, uma conversa interessante acontecia entre ele e seu amigo, também senador,  Flamínio Severus, ambos reclinados nas confortáveis cadeiras conhecidas atualmente como long chaise”, mas chamadas em Roma de triclínius. Deitados nelas, confortavelmente, os dignitários romanos faziam seus desjejuns e era justamente isto que acontecia ali, entre os dois dignitários, ao anoitecer de um dia quente que ameaçava chuva a cair a qualquer momento. Eles terminavam um jantar regado a vinho caro produzido na longíqua Germânia.  Públio Lentulus tinha uma filha, ainda criança, que sofria de um mal considerado pelos médicos da época, incurável. Isto o fazia sofrer muito e, também, à sua esposa, Lívia. Um médico famoso tinha dado a entender que se tratava de lepra e isto desesperava o casal romano. A lepra não tinha cura e a morte era muito feia e dolorosa. O desespero do senador o tinha levado a pesquisar o que fosse, em busca de alguma esperança para a pequenina. E por isto, havia enveredado pelos caminhos da pesquisa sobre o retorno do espírito à vida novamente, depois de ter vivido anteriormente. Um escravo liberto, da casa de Flamínio, chamado Parmênides, outrora um grego andarilho bastante viajado e que vivera na Índia por um longo tempo, o tinha enriquecido com os conhecimentos védicos, indianos, e aquilo lhe dera esperanças novas. Era sobre isto que os dois amigos conversavam. A conversa entre eles não agradava a Flamínio Severus. Este, era convicto do Poder dos Deuses romanos e seu colega senatorial parecia colocar este Poder em dúvida. Uma heresia a seus olhos, mas como eram amigos, Flamínio não colocava esta sua visão claramente para ou outro. Condoía-se de sua situação, pois sabia o quanto ele amava a pequenina Flávia, porém não aceitava as idéias absurdas que seu ex-escravo grego havia metido na cabeça de seu amigo. Transmigração da alma? Um absurdo! Não havia sentido naquela crença hindu. Ninguém retornava depois da morte. Isto era fato. Nunca houvera uma única pessoa que tivesse contado alguma coisa sobre a tal vida depois da morte. Mas Flamínio não se sentia encorajado a confrontar sua decepção com a esperança do amigo. Por isto, ouvia-o contrariado, mas escondendo quanto podia sua contrariedade.

Flamínio Severus aconselhou ao amigo que levasse sua família para passar um tempo na Palestina. Ali, soubera ele, havia clima muito bom para a saúde e certamente este fato poderia ajudar de alguma maneira à pobre garota. Publio Lutulus Cornelius pensou longamente sobre o que acabava de ouvir. Ele tivera conhecimento, por outras pessoas que tinham transitado pela Palestina, de que por lá muitos milagreiros perambulavam realizando curas milagrosas. Não eram cultuadores dos deuses romanos, mas, em que pese esta falta grave, eram capazes de realizar verdadeiros prodígios por artes mágicas que ninguém sabia explicar. No entanto, o povo que habitava aquelas paragens era tido como insuportável pela classe política romana e o próprio imperador não lhe tinha nenhum apreço. Corria o boato de que pelas terras da Palestina campeavam assassinos conhecidos como sicários devido à adaga ou punhal que traziam consigo e com o qual faziam muitas vítimas romanas. Até entre os legionários, o que era de espantar, visto que o Exército de Roma era de homens muito bem treinados nas artes de combate, conseguindo rivalizar inclusive com os orientais, tidos como os guerreiros mais temíveis da face da terra. Publio ouviu o conselho de seu amigo Flamínio com atenção, mas não fez qualquer comentário. Preferia conversar com sua esposa e ponderar com ela sobre a viagem. Sua mulher estava prestes a dar à luz mais um filho, o terceiro.

Depois de confabular com Lívia sobre o conselho do amigo, Flamínio voltou a este e combinaram que daquele dia a um ano ele e a família partiriam para a Palestina.

Agora já se passara o tempo previsto para a viagem da família de Flamínio à Palestina. Tudo estava em rebuliço na mansão do Senador. Faziam os preparativos para a partida. Iam alojar-se na confortável residência de Sálvio, também político, ex-pretor romano e tio de Flamínio, residente em Jerusalém. Eles não sabiam, mas a estada naquelas terras hebraicas os colocaria diretamente em contato com o Rei dos Reis.

Lívia seria o elo de ligação entre a esposa de Pôncio Pilatos e Yehoshua.