Ele fracassou porque era dominado pelo seu Elemental Físico.

O dia estava claro e quente e a agitação na mansão de Publio Lentulus Cornelius ia no auge. Preparava-se a partida e muita coisa necessária à família estava sendo arrumada de conformidade com os costumes da época. A esposa de Publio, Lívia, conversava com sua amiga e confidente, a esposa do Senador Flamínio Severus, amigo de Públio, que também era Senador em Roma. Colpúrnia avisava a sua amiga sobre quem era o tio de Publio, que a jovem esposa desconhecia.

— O pretor Sálvio Lentulus, — dizia Colpúrnia — , foi destituído, há muitos anos, do cargo de Governador de Província devido a um número de intrigas graves em que se viu metido. Hoje ele exerce atribuições sem grande importância no Palácio do atual Procurador da Judéia, Pôncio Pilatos. Sálvio Lentulus não é bem um homem que se compare a teu marido, em virtudes boas e confiáveis. Tu eras muito jovem quando ocorreram acontecimentos muito graves e até perigosos em nosso ambiente político e social, com referência aos parentes de teu esposo, com os quais agora vais conviver. A esposa de Sálvio, Fúlvia Prócula, que ainda deve ser uma mulher jovem, bonita e bem tratada, é irmã de Cláudia Prócula, esposa de Pôncio Pilatos, o Procurador a quem teu marido foi recomendado pelo Senado. Até onde sei, Pôncio Pilatos é rude, político traiçoeiro e ex-militar sanguinário. Um militar acostumado às agruras e à brutalidade dos campos de batalha. A rudeza daqueles tempos o acompanha até hoje e creio que o acompanhará até o final de seus dias. Não te deixes ser muito notada por ele… Tem fama de conquistador barato, típico dos chefes guerreiros, tu me entendes?

Lívia não mirava na face de sua confidente, mas seu coração estava acelerado pelas revelações que a amiga lhe fazia. Já entendia que aquela viagem não ia ser nada agradável e fácil para si, e se dependesse apenas de seu esposo e dela mesma, não iria de jeito nenhum. Conhecia bem as intrigas palacianas em Roma e elas sempre terminavam com mortes e traições.

— Tu vais conviver, minha querida, com gente perigosa. Sei que tens habilidade natural para lidar com intrigas, mas as que vais encontrar não são melífluas como as com que tu te deparas aqui. São rudes, grosseiras e até certo ponto, acintosamente violentas. Cuidado, pois, contigo acima de tudo. Sempre que puderes, furta-te ao recebimento de agrados por parte de Sálvio Lentulus. São sempre venenosos. Guarda minhas palavras. Embora seja tio de teu marido, Sálvio não é idoso. É só alguns anos mais velho. Mas é uma raposa venenosa e não se furtará à tentação de te conquistar e estragar teu relacionamento com nosso honesto e virtuoso Publio. Gosto muito de vós ambos e não me agrada a idéia do perigo a que tu te vais submeter por tua filha. Tomara que, no futuro, se ela sobreviver à provação porque passa, saiba te ser grata pelo sacrifício que fazes hoje.

Lívia sentia o coração saltar dentro do peito, mas apenas acenava com a cabeça, evitando falar para não trair sua alta ansiedade. A doença da filha a quem adorava e as pressões políticas a que estava submetido faziam que Publio tivesse se tornado irritadiço e impaciente. Lívia não queria encontrar um clima que viesse a piorar sua situação emocional. O senador geralmente era de paz, mas também tinha participado, na condição de comandante, de guerras terríveis e também tinha ceifado muitas vidas nos campos de batalha. Não gostara nem um pouco da experiência, mas Lívia não sabia qual seria sua reação se alguém mexesse com a família.

Yehoshua o doutrinador

Yehoshua tinha absoluto controle dos fatos que aconteciam em seu tempo e que lhe interessava deles participar direta ou indiretamente.

Pulemos, agora, para a estada da família em Jerusalém. Pôncio Pilatos logo notou a beleza de Lívia e sua concupiscência foi incendiada. Diariamente ele fazia visitas à casa do Pretor Sálvio Lentulus sob a desculpa de que gostava das palestras com o homem. Na verdade, buscava um meio de se introduzir na intimidade da esposa do Senador, uma aventura arriscada. Por isto mesmo, talvez, Lívia se tivesse tornado o objeto de cobiça do Procurador Pôncio Pilatos. Olhando a História registrada na Luz Ódica percebe-se um infinito de tecituras delicadas que o homem comum daquele tempo não tinha condições de registrar. A rica história de Yehoshua ficou plasmada nos escritos da época apenas numa pequena parcela de seu riquíssimo contexto. Os desafios que o Espírito de Pôncio Pilatos se colocara antes de encarnar eram tremendamente fortes, e o são até hoje. Sexo coital, atração pelo oposto e pelos vícios morais sempre foram a montanha a ser domada apenas com a arma da Vontade Espiritual a batalhar contra o Desejo carnal ou o Poder do Elemental Físico. Mas para ele e para todos os que ocuparam e vieram a ocupar o Poder Venal dos homens daqueles tempos havia e ainda há dezenas de monstros infernais a atacar. É o caso da corrupção, que já naqueles tempos e antes mesmo, nos antiqüíssimos impérios faraônicos e na antiqüíssima Grécia campeava todo-poderosa; também é o caso da atração quase invencível pela gula e pela ganância de tesouros venais através da exploração do povo e de sua ignorância, sempre mantida pelos que manipulam o Poder. Creio que Lívia e Cláudia Prócula vieram  àquela época como uma porta pela qual Pôncio Pilatos poderia ter cruzado e se salvado de ter mandado escrever a mais cruel e mais terrífica página da História da Humanidade sobre este planetinha de nada. Ainda não sei com certeza, mas a partir do momento em que Pilatos capitulou diante do ódio dos algozes do Templo, a humanidade optou por um desvio tortuoso e demasiado longo para finalmente, num futuro incerto, chegar ao Caminho e, através deste, à Verdade e à Vida. Tudo de mal que a humanidade sofreu e ainda vai sofrer sobre este planeta serão ecos daquele dia cruel e insano, quando a vaidade do homem sufocou a Justiça do Homem.

Fúlvia Prócula, esposa do Pretor Sálvio Lentulus, irmã de Cláudia Prócula, esposa de Pôncio Pilatos, não era nem de longe parecida, em virtude, com a irmã. Era venal e luxuriosa. Por isto, as atenções do Procurador da Palestina para com a recém-chegada lhe despertavam as piores reações de inveja e rancor. Ela há muito desejava tornar-se a concubina do Poderoso Prefeito e, com isto, gozar do que de melhor havia nas terras palestinas. Mas Pôncio Pilatos não lhe dedicava qualquer atenção além da que merecia como sua cunhada e isto a fazia ferver no óleo da frustração e do rancor vingativo.

Arquitetando conseguir colocar a família do Senador diretamente sob sua guarda, em seu palácio, Pôncio Pilatos imaginou um ardil e para executá-lo convidou o Senador, sua família e a família do Pretor Sálvio Lentulus para um jantar em sua suntuosa residência palaciana. Mais uma vez seu Espírito perdia a batalha contra o Elemental Físico que habitava. A luxúria, a gula e a falta total de Ética e de Moral do Elemental Físico se sobrepuseram a qualquer laivo de decência que Pôncio pudesse ter e exercer sobre si mesmo. Todos os convidados se sentiram horados, apenas Lívia entrara em ansiedade, pois adivinhava as intenções libidinosas do Procurador para com ela. Mas a quem falar? A quem pedir ajuda? Ela não tinha uma única amiga a quem recorrer e sua defesa foi levar consigo a filha doente, mesmo contrariando seu esposo que julgava melhor deixar a criança descansando aos cuidados de escravos escolhidos para isto. Em meio às libações e à música tocada e cantada por escravas líbias, o Procurador propôs ao Senador vir morar em seu luxuoso palácio onde, certamente, receberia tratamento mais digno e mais próximo daquele que gozara no Centro do Poder do Mundo, Roma. Teceu muitos elogios aos escravos que havia escolhido a dedo para serviçais a serviço dele e de sua própria família e disse que, com toda a certeza, em que pesasse ser a residência do Pretor Sálvio Lentulus uma residência aprazível e com relativo luxo, certamente nem de longe se comparava com o que seu palácio podia oferecer a um Senador Romano. Criou-se um momento de tensão, onde Fúlvia se mostrava toda entregue a defender a causa do Procurador, pois intentava colocar a si mesma como a acompanhante zelosa junto à criança doente. Mas esquivando-se politicamente ao embate que percebeu estar-se desenhando no futuro imediato, com resultados dolorosos para si mesmo e para sua família, o Senador Públio esquivou-se alegando que a saúde de sua filha é que havia motivado sua vinda à Palestina em busca de melhores ares para o tratamento do mal desconhecido que a afligia. Pilatos teve de conter um arroubo de raiva e disfarçar sua frustração. Mas logo sua mente ágil nas manobras palacianas e de traições vislumbrou um meio de não largar o osso. Como bom conhecedor das terras que governava, ele imediatamente indicou a Galiléia como a região de melhor clima na Palestina e ofereceu ao Senador a sua residência que lá possuía nas proximidades da vila de Nazaré. Ali o povo era pacífico e sendo um local pobre e que servia de descanso para um grande número de caravaneiros, não havia perigo quanto aos sicários que infestavam a Palestina e punham em desassossego até mesmo as fortes patrulhas romanas. O Senador Publio ouvia tudo e, como bom político, estudava e escrutava cada frase dita pelo Procurador. Alguma coisa naquela servilidade estranha para um homem que, todos afiançavam, era tremendamente orgulhoso e arrogante, punham-no em alerta. Então, declinou desta oferta também e solicitou ao frustrado Procurador que conseguisse, através de seus comandados, uma residência confortável, não necessariamente luxuosa, nas terras galiléias, em Nazaré, onde ele pudesse alojar sua família em sossego.

— Então, seja como o senhor deseja — disse Pôncio represando sua frustração. — Pedirei a nosso amigo Sulpício que providencie uma residência segundo suas exigências, mas advirto-o de que não o deixarei em paz, pois agrada-me sobremaneira sua verve rica e atualizada sobre nossa amada Roma.

Sulpício Tarquinius, homem da confiança do Procurador, aproveitou a deixa para mostrar que andava atualizado com o que acontecia nas terras da Judéia e comentou, aparentemente descontraído e divertido.

– E por falar em Nazaré, vós já ouvistes falar do seu “profeta”? Dizem que o homem é milagreiro e anda a realizar grandes cousas no campo da bruxaria, do curandeirismo, ou seja lá que nome se dê ao que afirmam que ele faz.

Soltando uma estrondosa gargalhada, Pôncio Pilatos rebateu, jocoso, ao comentário de seu subordinado.

– Pelos Deuses, Sulpício, por acaso tu não sabes que das terras hebréias nascem profetas milagrosos todos os dias? Por acaso desconheces que as querelas religiosas deles, bastante enfastiosas, giram sempre ao redor desses homens estranhos? Seria divertido, se não fosse extremamente aborrecido ter de lidar com tais picuinhas. Deixasse eu as rédeas frouxas e eles apedrejariam dezenas de tais milagreiros diariamente e, em alguns anos, teriam de importar homens para a procriação, pois os de agora de um modo ou de outro seriam condenados à lapidação por terem de algum modo injuriado suas estranhas Leis.  Senador – disse o Procurador voltando-se rindo para seu convidado – os doutores da Lei, e que são os rabis do Templo, se consideram, individualmente, inspirados pelo Deus deles. Cada um surge, a cada dia, com uma nova revelação que logo se torna norma de conduta. Há tantas que um judeu, se procurasse cumpri-las todas, nem mesmo pestanejaria porque estaria insultando o tal Jeovah que eles adoram acima de tudo e todos.

– Mesmo acima de nossos deuses?! – Comentou o Senador com ar entre de surpresa e estranheza.

– Eles desprezam nossos deuses – Intrometeu-se Sulpício, orgulhoso porque conversava de igual para igual com os mais nobres senhores da imperial Roma. – Deveriam ser todos chicoteados até à morte e dependurados na cruz para serem devorados por abutres. Eu, senhor, detesto e desprezo todos os hebreus. Mas tive a oportunidade de conhecer de perto o tal homem milagreiro. É jovem, forte, e sua pessoa inspira respeito. Um respeito que não sei dizer de onde nos nasce, mas que nos dobra em sua presença. Foi em Cafarnaum. Ele dirigia a palavra a um grupo bem grande de gente, nem todos hebreus. Aliás, ali havia muitos legionários nossos, pude observar bem. Procurei ficar bem perto do jovem pregador, pois ele parece que se dedica exclusivamente a isto: pregar uma nova religião, ao que pude compreender. Sua palavra era como um cântico de esperança para todos os que sofrem não somente na Palestina, mas no mundo mesmo, até nos mais longínquos recantos. suspenso entre o céu e a terra. Ele me pareceu estar buscando renovar os pensamentos de quantos o escutavam… Comentava sobre nossas guerras de conquistas e das grandeza de Roma como se fossem feitos miseráveis; e tecia amargas afirmativas acerca das obras monumentais de Herodes, em Sebastes. Ele asseverava que acima de César está um Deus Todo Poderoso, que zela e atende os rogos dos desesperados e dos aflitos, desde que estes rogos sejam feitos com pureza de coração. Na sua pregação as palavras eram de humildade e amor, nunca de revolta e rebeldia. Ele pregava uma estranha filosofia onde todos os homens são considerados irmãos bem amados do seu misterioso Deus de Bondade. Segundo seu ensinamento, todos somos filhos desse Pai de misericórdia e justiça, que nós, romanos, desconhecemos, mas que ele assevera que nem por isto deixam de ser filhos d’Ele também. Sinceramente, ouvir o jovem pregador nos dá o que pensar… 

Entre os que ouviam a narrativa de Sulpício, Flávia e Cláudia eram as mais interessadas. Flávia passou a desejar ardentemente encontrar esse tal pregador nazareno. Se realmente podia fazer milagres, talvez, só talvez, pudesse fazer algum para sua querida filhinha doente. Daquele dia em diante ela só pensava no milagreiro de Cafarnaum.

Pôncio Pilatos não gostou do silêncio que se fez depois da narrativa de Sulpício e quebrou o silêncio com um comentário depreciativo.

— Por acaso esse… homem, assevera que somos irmãos também dos nossos escravos? De nossos inimigos? Ora, isso é balela! Não somos os senhores do mundo à-toa. Somos isto porque somos os melhores, os superiores. E eu não declino dos deuses romanos para adorar esse outro de que tu dizes que o tal pregado fala. Mas… Dize-nos, Sulpício, por acaso estás pensando em mudar de religião?

 Quem?! Eu? — Assustou-se Sulpício, para quem a pergunta parecia esconder uma ameaça. — Nunca! O fato de ter-me sentido tocado pela fala do pregador, não quer dizer que vou abdicar de nossos costumes e de nossa religião. Quer dizer somente que ele é muito hábil com as palavras. Seria um perigo para nosso Governador aqui na Palestina. Graças aos deuses ele não fala de política. Sua pregação se volta para a religião dos hebreus. E, olhem, ele está despertando inquietação entre os dirigentes do Templo em Jerusalém. Mas isto, creio eu, não nos interessa. O homem logo será mais um que vai passar sem deixar rastro.

Sulpício estava totalmente errado…