Yehudhah passava por duras provas, mas seu espírito despertava para a Vida.

Deixemos Yehudhah ish Qerioth às voltas com seu dilema e o Senador pisando em ovos para evitar conflito com o Procurador da Palestina, Pôncio Pilatos, e vamos retornar ao homem de nosso interesse. Os onze estavam à sua volta e aguardavam que ele dissesse alguma coisa, mas o Mestre parecia não os notar. Olhava algures, além da mata rala que se descortinava de onde estavam, um terreno em aclive suave. Juntavam-se debaixo de um grande salgueiro de frondosa copa com aproximadamente vinte e cinco metros de altura. Era a terceira hora do dia (9 horas em nosso horário) e todos sabiam que o Mestre aguardava o surgimento do povo que se acostumara a vir ouvi-lo pregar sobre um Deus de bondade fascinante. Até à sua pregação, os hebreus apenas conheciam um Deus irado, sempre disposto a castigar severamente quem ousasse sequer pensar em desobedecer às Leis do Templo. Agora, com uma autoridade impressionante e inquestionável, secundada por milagres inexplicáveis, o jovem mancebo de olhar de mel e sorriso cativante falava de outro Deus, muito superior a Yaveh e muito mais simpático, porque mais caridoso e mais bondoso. E este seu Deus misterioso era muito melhor de ser aceito que aquele que exigia ininterruptamente o derramamento de sangue no Templo de Jerusalém.

Todos os sermões que Ele proferiu foram ao ar livre, nunca dentro de templos.

Primeiro surgiram uns vinte e dois homens, todos jovens e fortes. A tez e o modo como se vestiam diziam que não eram hebreus. A maioria era síria e entre o restante contava-se alguns trácios, outros fenícios, poucos egípcios, alguns nômades árabes e dois ou três orientais. Apenas um era hebreu. Estes homens estavam sempre presentes às falas de Yehoshua. Sentavam-se sempre juntos e quando o Mestre cessava sua pregação, eles se iam como se fossem um só. Yehoshua os observava atentamente. Logo depois mais outros quinze se chegaram. Agora, eram todos hebreus naturais da Samaria. Yehoshua pôs-se de pé os chamou para mais perto com um aceno de mão. O grupo permaneceu quieto, olhando-se uns aos outros, parecendo em dúvida. Mas Yehoshua insistiu com o gesto de mão e os homens, aos poucos, puseram-se de pé e se aproximaram até próximo do Mestre, que os mandou sentar onde, geralmente, ele cedia lugar às mulheres.

O Rei dos reis dava lições de Vida e pregava a Verdade onde quer que estivesse.

Oito legionários romanos vieram juntar-se ao grupo. Nem o Mestre falava, nem eles o faziam. O silêncio era total, como a expectativa também. Decorridos uns quinze minutos ou um pouco mais começaram a chegar os doentes. Uns, de moletas; outros, apoiados em cajados que lhes serviam como muletas. Alguns, cegos; alguns surdos; muitos pálidos, esquálidos, com um hálito de arrepiar. Não tinham dentes, mas cacos infeccionados, que fazia escorrer pus de suas bocas. Homens, mulheres, crianças, todos com aspectos repulsivos. Havia, ainda, os que vinham trazidos amarrados, urrando palavrões e xingamentos os mais diversos, olhos esbugalhados e olhar desvairado. Eram os endemoniados. Yehoshua os observava sem qualquer expressão emocional na face. Parecia feito de pedra.

A multidão aumentou. Agora já beirava os trezentos e mais e mais iam chegando. O Mestre ainda calado, despertando a expectativa e a ansiedade dos que ali se ajuntavam e se espremiam na esperança de encontrar um lugar próximo do milagreiro de Nazaré. Finalmente, com a multidão com predominância de judeus e já próximo da quinta hora do dia (11 h) Yehoshua pôs-se de pé e falou.

— Vejo que aqui vindes até mim buscando a cura de vossos males físicos. Não há mal que o façais, mas a mim entristece perceber que tenho pregado no deserto. Muitos que aqui foram curados de seus males desapareceram como fumaça ao vento. É assim que esperais entrar no reino de nosso Pai celestial? Mantendo vossos vícios carnais, vossos destemperos emocionais, vossos rancores e mágoas, vossos ódios e vosso mau vício de mentir e trair por interesses mesquinhos?

— Dizeis que os ensandecidos assim estão porque um Demônio se apossou deles. Mas em verdade em verdade eu vos digo: nem todo aquele que se debate entre a loucura e a realidade é endemoniado. Muitos, a maioria de vós, sois os causadores da perda da razão destes irmãos. Por que não compreendeis quando digo que todos somos um? Que o que um de vós faz afeta quantos estejam próximos de vossas ações boas ou más? De vossas palavras boas ou más? Eu vos disse: os Presentes de nosso Pai Celestial nem sempre são conforme com o que desejamos, mas sim conforme com nossas necessidades e nossas carências diante de Seu Juízo. E aqui, e agora, eis que vejo centenas de necessitados em carne e alma. Não da cura de suas mazelas físicas, pois estas são o resultado tão-só de suas ações perversas. Necessitais mudar o modo como pensais, como julgais, como vos deixais levar pelo que homens iguais a vós em tudo, exceto na esperteza para vos controlar em nome de um Deus de ira, de vingança, de estúpida e mesquinha vigilância sobre todos vós. Não, eu vos digo mil vezes não! Meu Pai não vos controla. Meu Pai vos observa em silêncio, para não interferir com vossas fracas almas. Vós cometeis erros os mais mesquinhos e criais controles inúteis sobre eles por vossos próprios desesperos. E o fazeis pelas razões mais espantosas possíveis! Mas são vossas criações tais controles, não de meu Pai. Ele vos dá a liberdade de ser, que ninguém vos pode tirar, nem mesmo vos matando e dependurando vossos corpos na cruz para que as feras os devorem.

Yehoshua calou-se e o eco de suas últimas palavras parecia permanecer soando sobre todos os que, agora mais de mil, estavam atentos ao que ele dizia. Então, um dos homens que ele chamara para perto de si, pôs-se de pé e pediu a palavra. Yehoshua o olhou e sorriu, acenando afirmativamente com a cabeça.

— Senhor, disseste-nos que quando alguém nos esbofeteasse na face direita nós não revidássemos e lhe oferecêssemos nossa face esquerda. Tenho pensado muito nisto e, sinceramente, não encontrei nenhum ensinamento que nos possa ser de utilidade em tal atitude que tu nos recomendas, pois aquele que só apanha termina sendo desprezado por todos, até por seus familiares. A menos que seja um escravo, não é possível a alguém fazer o que disseste.

Yehoshua passeou os olhos sobre os que estavam mais próximos de si e os viu assentirem com gestos de cabeça em apoio ao que o homem havia falado.

— Entendeste mal o que eu vos disse em parábola. Não me referi a uma ação física, direta, dirigida aos vossos corpos físicos. Este insulto é o mais desprezível e de menos valor para nosso Pai celestial, embora devais fazer por onde não açular alguém a que o cometa contra vossa pessoa. Mas se tal acontecer, podeis muito bem, todos vós, evitar o ódio em vossos corações e a agressão física que este desperta nos que se julgam insultados por ações mesquinhas. Quem, dentre vós, sabendo que um cão está louco, dele se aproxima para o atiçar? Vale a mesma coisa para o homem agressivo e violento. Pois que não façais como o imprudente. Não griteis com ele nem o provoqueis. Se estiver em vosso caminho, dai a volta para que vós não vos encontreis em situação de conflito com ele. Se assim procederdes, eis que não provocareis a ira daquele que por alguma razão se encontra revoltado, injuriado. Qualquer um dentre vós pode fazê-lo, basta que viva a  vida olhando-a como quem olha para uma paisagem. Quem assim vive, percebe o que aos outros passa despercebido. Mas aquele que vive a vida olhando para os pés, para o formigueiro, não percebe o leão à sua frente até que seja tarde. Nem todos…

Homens transformados em animais ferozes para gáudio dos romanos.

— Não há como fazer isto, Rabi — Cortou outro homem de pele escura e musculoso como um Hércules e que, recostado a uma jovem figueira, escutava com atenção curiosa e pela primeira vez, o jovem pregador. — Fui escravizado em minha terra pelos romanos e fui vendido para uma escola de gladiadores. Eu não queria aquilo e não fiz por onde chegar a tanto. Sempre busquei evitar os romanos, mas não pude deixar de cair em suas mãos, quando atacaram o vilarejo onde minha família e eu estávamos. Sofri o que ninguém aqui pode imaginar, pois para que alguém seja transformado em gladiador tem de passar por um treinamento que só no Hades grego é possível existir tal tortura. Eu me tornei feroz, matador sanguinário, embora no meu íntimo aquilo me desagradasse profundamente. Livrei-me da escravidão por ter conquistado minha liberdade matando meus adversários na arena. Mas os fantasmas deles até hoje me assombram os sonhos. Seus gritos e seus últimos olhares para mim me acompanham dia e noite. Ainda continuo escravo, mesmo tendo meu corpo livre. Nenhum daqueles homens era, como tu o disseste, mais animal que humano. Mas todos estavam ali forçados a combater e matar para poder viver. Eu vivo e ando por onde quero. Sou livre. Mas a que preço…

Um pesado silêncio se fez e todos os olhares estavam presos no gigante de ébano. Yehoshua deixou que um tempo transcorresse até quando novamente as cabeças se voltaram para ele, todos atentos ao que iria dizer.

— E por acaso tu julgas que vives? — E a voz de Yehoshua soou profunda, contendo um tom de tristeza. — Não, tu não estás livres. Arrastas atrás de ti uma corrente formada pelos corpos dos mortos por tua espada e trazes uma legião de almas enfurecidas a te acompanhar dia-e-noite. Não teria sido melhor deixar que, logo no primeiro combate, teu adversário te trespassasse o coração? Por que matar por medo à morte, se ao final, todos vós com toda a certeza hão de morrer? Pois nosso Pai celestial não vos deu, a ninguém de vós, o direito à Vida Eterna em corpo físico. Este não é vosso Reino, crede em mim que não engano e não minto.

Por um momento pesou um silêncio tenso entre os presentes. Todos os olhares estavam presos no homem de ébano que, de pé, encarava o Pregador com postura de desafio.

— Se entendi bem, pregador — troou a voz do gladiador —, estás-me dizendo que eu devia ter-me deixado matar pelo meu primeiro adversário? Que homem seria eu para os que nos viam, se me acovardasse…

— Serias um Homem, Akatar — cortou Yehoshua chamando o gigante de ébano pelo seu verdadeiro nome, embora este não se  tivesse apresentado.

— O que queres dizer com isto, pregador?— Não sou homem, agora? Só o seria se me tivesse deixado matar?!

— Quero dizer, Akathar, que um homem não tem nenhuma justificativa para derramar o sangue de outro. Ceifar a vida de um irmão não é prerrogativa vossa. A vida não vos pertence. A vida que vos anima pertence ao nosso Pai, aquele que nos criou com muito amor. E em verdade em verdade eu vos garanto: meu Pai jamais toma a vida de alguém…

— Não mesmo?! — Cortou Akathar, com irritação na voz, ainda não percebendo que Yehoshua lhe chamara pelo nome, embora ele não se tivesse apresentado a ninguém naquela multidão. — Tu dizes, pregador, que nossa vida pertence a esse Pai a que tu te referes a todo momento. Mas nós aprendemos que nossas vidas, sejamos nós gladiadores ou não, legionários ou não, camponeses ou comerciantes, pertencem a César. Ele decide quem vive ou quem morre. Mesmo os judeus, como tu és, não são donos de suas vidas. César pode tomá-las a seu serviço quando lhe aprouver e pode mandar ceifá-la pelo simples prazer de vos ver mantando-vos como eu matei, em uma arena onde não tendes poder para nada, senão para matar ou ser morto. E o que tu me dizes sobre isto?

Os Césares romanos, Imperadores de Roma, na verdade, eram arrogantes e se consideravam Deuses.

— Que erras — e Yehoshua riu, parecendo divertido. — Nenhum homem é dono da vida de ninguém. Nem da sua mesma. César não o é, não o foi e jamais o será, seja qual seja a designação que se dê ao Poder que há de pensar que verdadeiramente exerce, no futuro. Queres ver? Então, responde-me: quantos Césares já sentaram no trono de pedra de Roma? E quantos morreram sem poder fazer nada para evitar a morte? E dentre estes, quantos se foram pelo punhal traiçoeiro de um assassino ganancioso ou a serviço de um ganancioso? Nenhum César, se pudesse, morreria, pois todos acreditavam e, o que vive atualmente, ainda acredita, que viveram e vive em melhor condição que vós. No entanto, o que mantém suas vidas são os mesmos alimentos que mantêm as vossas. Os mesmos sonhos enganadores. As mesmas ilusórias esperanças vãs e vazias. E sois vós os que as  produzis. Akatar, não há Poder entre vós, humanos viventes na carne. Há desespero. Há medo. Há ganância. Há mentiras. Há gula. Há corrupção dos valores morais porque a alma teme sua própria incompetência. E há o apego desesperado à Ilusão. Está escrito no Livro hebreu Eclesiástico, no capítulo 34, que tu desconheces, que: “O homem insensato sustenta-se de esperanças e da mentira, e os imprudentes edificam sobre sonhos. Bem como faz o que se abraça com a sombra e vai atrás do vento, assim também se porta o que atende a enganosas visões.” Diz-me, Akatar, onde os senadores e reis de todos os tempos têm edificado suas vidas senão sobre sonhos que só vivem na escuridão da ignorância? À mínima luz do amanhecer os sonhos se desfazem e o que deles resta são fragmentos que, como as ruínas das construções de pedra das mãos humanas, logo desaparecem na poeira das memórias que se confundem na mente humana e se desfazem nos esgarçamentos das lembranças. E assim como os reis e imperadores, também o povo comum, vós, o fazeis. Abraçais as sombras de vossos sonhos e passais vossas vidas esperando que o Pai Celeste os transforme em realidades. Mas a maior parte de tais ventos maquinados pela mente preguiçosa não levam senão ao desespero e à desesperança. Não sonheis, pois, com o que não tendes ou com o que não podeis realizar. Contentai-vos com o que tendes porque o que tendes é o que fizestes por merecer. Então, trabalhai o pouco, pois um grão de trigo é pouco, mas quando plantado e cuidado pode multiplicar-se em milhares que, espalhados pelo campo, fará a riqueza do que foi diligente e não o desprezou quando era apenas uma semente.

A vida que todos vós pensais viver, é tão-somente um pequeno sonho. Alguns destes sonhos se transformam em pesadelos, como o teu, Akatar, simplesmente porque tu não tiveste a coragem de te deixares despertar por outro irmão teu que, tanto quanto tu, acreditava estar vivo. Ele foi despertado para a verdadeira vida, mas tu, que o despertaste, continuaste o teu pesadelo até chegar aqui, diante a mim. E como no teu íntimo vejo que és um Espírito em agonia, e para que me creiam os que me ouvem, eu ordeno que todos os mortos que, cheios de rancor, te vêm acompanhando por todos estes anos depois que tu acreditaste ter conquistado tua liberdade porque te deram uma espada de madeira chamada rudius, eu, com a autoridade de nosso Pai celestial, ordeno a esses fantasmas que te deixem em paz, aqui e agora.

Um silêncio tenso desceu sobre todos e todas as cabeças se voltaram para o homem de ébano que, naquele momento, curvou a cabeça sobre o peito e deixou correr um pranto silencioso por um longo tempo. Seus soluços soavam alto. Yehoshua esperou que o pranto de alívio do homem negro cessasse e ele voltasse a fitá-lo novamente. Então, retomou a palavra.

Irmãos meus, meu Pai habita em vossos corações e em vossas mentes. Ele assiste a tudo o que sentis, pensais e fazeis. Ele compreende onde a compreensão vossa nem de leve alcança. Crede n’Ele e em sua infinita misericórdia. Meu Pai é Pai de Bondade e de Misericórdia e dá ao filho ou à filha que Ele criou a ajuda que faça por onde merecer. E a merecem todos os que praticam a caridade e lutam pelo Bem, mesmo quando pensam que não o estão fazendo, pois vossos juízos a respeito do que vos acontece é estreito e curto.

— Está escrito no livro dos Salmos, no Elogio da Lei Divina, que são “bem-aventurados os que se conservam sem mácula no caminho; os que andam na Lei do Senhor”. Pregam os rabis do Templo que conservar-se sem mácula é pagar o dízimo e cumprir com os rituais dos sacrifícios e das oferendas. Mas eu vos digo que dízimos, rituais e oferendas para angariar a aprovação de homens como vós ou vos engrandecer perante olhos que não enxergam o Caminho e a Verdade, não acrescentam um ceitil em vossa salvação. Sem mácula deve estar vossos corações perante os olhos de Meu Pai, pois a ele não escapa nada do que se passa em vossos íntimos. Em verdade em verdade vos digo que a mentira e a falsidade são entraves irremovíveis, quando praticados às escondidas e com vistas à obtenção de favores, principalmente quando quem os pratica visa com isto obter as graças de meu Pai.

Ouvi os rabis que falam com a palavra da Verdade, mas dai as costas aos falsos e mentirosos, que buscam apenas se engrandecer perante vós. Lembrai-vos de que um anão, quando sobre os ombros de um gigante, vê longe. Mas se está sobre um escolho, não enxerga nada. Os falsos rabis são como escolhos. Não sejais como anões sobre escolhos. A esses falsos rabis e mentirosos profetas, está escrito no Livro Deuteronômio, meu Pai deles escondeu a Sua face, pois a geração que segue falsos profetas é uma criação perdida. E mesmo o homem comum não cuida do que está perdido. Então, por que o faria o Pai celestial?

Cuidai para que vosso Pai, que vos habita em vossos corações e mentes tanto quanto em mim, não decida esconder Sua face de vós, pois se tal acontecer nada poderá socorrer-vos. Agora, ide. Ide e trabalhai com serenidade, centrado no vosso aqui-e-agora, sem cuidados com o que ainda está por vir, pois não tendes permissão para ver o que vos acontecerá no passo seguinte que ides dar em vosso caminhar em um momento sequer.

E quando Yehoshua deu as costas para se retirar, novamente ouviram-se gritos de alegria e espanto. Centenas dos que ali tinham vindo aleijados, coxos, mancos, leprosos, endemoniados e tomados por outras doenças, também se levantaram totalmente curados de seus males.

O Mestre seguiu para o alto do monte de onde pregava, mas desta feita não era seguido apenas por seus discípulos. Um número muito maior de homens também o seguiam, entre eles o gladiador, fascinado pelo que lhe tinha acontecido.