Yehoshua

Yehoshua sabia o que acontecia no palácio de Pôncio Pilatos. Sabia do perigo que aos poucos se formava sobre  sua pessoa. Mas prosseguia com seu plano.

Era noite e Pôncio Pilatos não conseguia conciliar o sono. Havia duas preocupações em sua mente. Primeira, um lictor, como Sulpício, estar fortemente impressionado com um pregador hebreu. Certamente isto era para incomodar. Um lictor não poderia deixar transparecer tanta admiração por alguém da escória humana, como eram todos os hebreus. Um lictor era o anunciador do Magistrado ao povo. Ia à frente segurando um feixe de varas que informavam a quem as olhasse a importância do homem da Lei. Quanto mais varas segurasse o lictor, mais importante e mais Poder Legal o Magistrado teria. Um lictor era, pois, alguém importante e necessário nas funções dele, o Prefeito daquele lugarzinho miserável. Devia ser espião, claro, mas jamais um admirador do inimigo e, certamente, hebreus eram inimigos do Império. E se o tal pregador era hebreu a conclusão lógica era que ele também se transformava numa ameaça provável, No entanto, seu lictor não conseguira fugir à magia do tal pregador milagroso. Talvez devesse ir conhecer pessoalmente o sujeito…

PÔNCIO PILATOS 2

Pôncio Pilatos era um homem que vivia no inferno da concupiscência e da ganância.

Pôncio Pilatus lembrou-se de que seu lictor lhes tinha falado sobre o milagre que o sujeito fizera no filho de Coponius, um velho legionário já aposentado. Segundo a narrativa de Sulpicio, o tal milagreiro teria restituído a vida ao filho moribundo de Coponius. Então, apoiando as mãos na amurada do segundo andar de seu castelo, onde ficava seus aposentos particulares, estendeu a vista pela escuridão que cobria Jerusalém e onde, aqui e ali, alguma fogueira ou algum fogo aceso algures lutava bravamente para deixar escapar uma réstia de luz que penetrasse o véu de Morfeu que se estendia negro sobre a cidade. Tomou a decisão de mandar vir à sua presença o velho centurião. Queria ouvir de seus lábios a confirmação. Mas o Prefeito de Jerusalém não conseguiu conciliar o sono e a noite avançou pela madrugada com ele deambulando pelos corredores e salas vazias, cujo aspecto noturno não era nada agradável. Para completar seu desassossego diante de seus olhos a bela silhueta de Lívia, a esposa do Senador aparecia do fundo de sua mente para surgir como algo convidativo, lascivo, pecaminoso. Seu desejo pelo corpo da mulher o punha em brasas e ele se atormentava por não poder estar deitado com ela, gozando do que imaginava ser as delícias de seu corpo. Pôncio não se incomodava com o esposo de sua desejada fosse um alto dignitário romano, muito superior a ele em hierarquia. Se tivesse de planejar sua morte para tomar-lhe a mulher, não hesitaria em fazê-lo…

O dia amanheceu escuro. O sofar anunciando a primeira hora fez que todos despertassem sob as sombras de uma tempestade que certamente desabaria sobre a cidade movimentada, onde o único lugar realmente admirável era o Templo que abrigava simultaneamente tanto o palácio de Pilatos, quando o de Herodes e o dos dois comandantes do Templo, Caifás e Anás. 

Próximo a eles Abel se preparava para partir guiado por Yehudhah ish Qeryoth. Este, estava muito contente. Sentia-se leve, intimamente feliz, embora não soubesse dizer a razão daquele estranho bem-estar. Certamente, pensava com razão, tinha tudo haver com o milagre que seu Senhor, Yehoshua, havia feito restituindo a vida ao seu antigo companheiro de folguedos e arruaças. Estava ansioso por contar tudo aos outros discípulos e não via a hora de partir. E esta chegou. À frente da carroça toda ornada de espalhafatosos adereços religiosos, muitos dourados a ouro, tendo à frente seis guardas germanos e atrás outros seis, Abel acenou para Qeryoth para que subisse no seu transporte e tomasse lugar a seu lado.

— Gostaria de compartilhar desse luxo em vossa companhia, rabi. Mas preciso que certos indivíduos me vejam à frente de seus guardas. Isto, certamente, lhes esfriará os ânimos. Vosso transporte parece mais um chamariz para assaltantes que um discreto transporte de um rabi simples, itinerante.

— Eu sou o rabi Abel, um dignitário do Templo — trovejou o irascível rabi. — Não vou sair por aí como se fosse alguém de menor grau. Nem pensar. E estou-te pagando regiamente para que me protejas. Então, se julgares necessário, contrata alguns de teus companheiros de crimes para que fortaleçam minha guarda pessoal. Estás autorizado a isso.

Qeryoth considerou por um momento e em silêncio o homem gorducho e arrogante diante de si. Com certeza o desgraçado desconhecia o perigo mortal que era contratar bandidos para seguir uma caravana supostamente cheia de ouro e outros bens cobiçados. Era colocar um faminto perto de um bezerro assado. Meneou a cabeça negativamente e se adiantou ao grupo. Com um gesto de mão ordenou o início da marcha.

Já fazia duas horas que o grupo andava pelas poeirentas e irregulares estradas de barro da Palestina quando um cavaleiro veio ter com o grupo. Vinha a todo o galope em um cavalo malhado muito bem tratado. Yehoshua reconheceu nele seu amigo Levi e sentiu uma grande alegria quando o teve a seu lado.

— O que fazes por aqui, Levi? — Perguntou ish Qeryoth, estendendo o braço e segurando o do companheiro, mão apertando firme a curva do grosso braço do recém-chegado.

— Recebi ordens de Anás de vir reforçar a guarda do rabi que tu acompanhas — respondeu Levi. Ish Qeryoth observava-o atentamente e o via novinho em folha e senhor de todo o seu vigor físico. “Pelo Santo dos Santos” — disse de si para consigo — “ele está mais saudável do que antes. Realmente, não há como duvidar do Poder que meu Senhor Yehoshua recebe de seu Pai Celestial. Isto é mais do que milagroso”.

— Não estou gostando do modo como tu me olhas — disse Levi, cortando os pensamentos de admiração e espanto que via na expressão do olhar perscrutador de seu amigo Qeryoth.

— Estás ótimo! Apesar da carraspana em que te encontrei, estás ótimo! E fico contente por isto. Agora, vamos. Contigo em minha companhia creio que nossa viagem será tranqüila.

A caravana pôs-se em marcha. E assim prosseguiu sem que houvesse qualquer perigo para os viajores. A presença de Qeryoth diante do pequeno destacamento desencorajava os mais afoitos e menos avisados. Qeryoth era cumprimentado com acenos de mão ou de cabeça por todos os sicários com que cruzavam e lhes correspondia o cumprimento com as feições fechadas, uma espécie de aviso. E o gigantesco Levi a seu lado reforçava o respeito dos afoitos. E foi assim que Abel chegou a Magdala já depois de soar do sofar anunciando o fim do dia de trabalho. Sem se incomodar com o cansaço e as dores que o atormentavam no ventre e no corpo fustigado pela viagem, suando em bica e enxugando a face num pano de algodão já bastante ensopado, com voz entrecortada o rabi ordenou a ish Qeryoth que fosse direto para onde sabia estar o tal milagreiro. Tinha urgência de lhe falar e o calar. Mas o que aconteceu já foi narrado. Ele chegou até Yehoshua sendo devorado por um câncer metastásico, desconhecido como tal naqueles tempos, que o devorava sem piedade e da presença do Filho do Homem saiu sem qualquer sinal do mal que o afligia há mais de seis meses (ver CXXIX).

Na vila de Magdala, sentado sob sua tenda ricamente ornamentada, Abel meditava profundamente no que lhe tinha acontecido. Havia chegado à vila com disposição beligerante contra o tal Yehoshua, filho de Yoseph, o construtor. Mas da presença daquele jovem desconcertante saíra com perfeita saúde. Mais perfeita do que jamais tinha  sentido na vida. Suas forças haviam retornado com vigor. Sua energia de vida era comparável à de um jovem adolescente. Sentia-se distenso, alegre, otimista. Andando de um lado para outro com uma taça de vinho nas mãos, Abel tinha a mente em total confusão. Cada palavra do diálogo que mantivera com o pregador de Nazaré reboava em sua recordação de modo vívido. E as últimas palavras do belo jovem lhe queimavam a mente e inquietavam a alma. O que ele teria querido dizer com “Eu te curo, aqui e agora, para quando, chegado o momento de levantares tua voz contra mim, tua consciência seja teu juiz que não te perdoará até mesmo após tua morte. Vai em paz e nos deixa com ela. Anda!” Será que previa o futuro? Será que sabia que um dia estaria diante do Sinédrio para ser julgado por suas heresias? Mas… De que heresias se podia acusar aquele homem de palavra certa, franca e sempre dentro das verdades do Pentateuco?

Abel bebeu todo o vinho e voltou à mesinha para se servir de mais. Dispensara o seu servo. Queria ficar só. Queria pensar em paz em tudo o que tinha ouvido. “O que está escrito está morto, porque está fixado no papiro, rabi!” Estas palavras queimavam a mente de Abel. Sentia que ali havia verdade, mas não conseguia nenhum contra-argumento para combatê-la. Sim, a palavra escrita era a mortalha da idéia. Era a catacumba do pensamento. Era o embalsamamento da Verdade. Agitado, o rabi foi até a lona que servia de porta para sua rica tenda e a abriu, dando alguns passos para a escuridão da noite. Olhou ao redor e não viu ish Qeryoth, mas não perguntou por ele, pois sabia que, uma vez cumprida sua missão, certamente tinha retornado para o lado do filho do Construtor. E não estava errado. Tinha de estar perto do homem para poder vigiar suas ações que, agora sabia, eram melifluamente perigosas. Ele destilava idéias inovadoras, perigosamente inovadoras, nas mentes tacanhas de quantos o ouviam. E respaldava o que dizia com milagres inquestionáveis, como o que lhe fizera a ele, Abel. “A Verdade não é estática, mas dinâmica. Por que não dais ao povo a interpretação correta dos Livros que tendes? Por que escondeis propositadamente a Verdade que ali está? Não foi para pregar a Verdade que vós fostes escolhidos pelo Incriado para trazer as luzes do Conhecimento aos filhos do Criador?” Abel, agitado, retornou ao interior da tenda e tornou a encher seu copo, que, desta vez, entornou sofregamente. O calor da noite somado ao do álcool já o fazia suar abundantemente. Sem pensar em mais nada saiu e com um gesto de mão chamou Levi, que o seguiu em silêncio. Foram até o poço cuja água servia à vila. Era na verdade uma pequena barragem construída com pedras e que represava a água que escorria de dentro da mata, juntava-se numa pequena cachoeira cantante e ia acumular-se dentro do pequeno poço. Mas não tão pequeno que não coubesse umas cinco pessoas ali dentro, folgadamente. Sem se incomodar com nada, visto que os arredores estavam vazios, o rabi se despiu e entrou no poço, mergulhando e permanecendo sob a água até quando a falta de ar já o incomodava. Deu mais uns quatro ou cinco mergulhos, saiu do poço, cuja água voltou a cair por sobre a borda propositadamente deixada mais abaixada e a prosseguir em sua trajetória pela noite a dentro.

De volta à sua tenda, Abel se jogou sobre as almofadas e logo adormeceu pesadamente…

—O dia seguinte, uma sexta-feira, amanheceu frio e nublado. Parecia prenunciar chuva. Mas o vento que soprava forte e insistentemente dizia que esta criação da Natureza não estava disposta a permitir que a água descesse do céu. Abel se fez acompanhar por Levi e encaminhou-se para a casa da família de Míriam de Magdala. Chegou quando todos estavam reunidos para o repasto matinal e foi recebido, para seu espanto, pelo jovem Yehoshua que lhe sorriu com simpatia e lhe estendeu a mão num convite para que se juntasse ao pequeno grupo familiar para o desjejum. O rabi notou que os discípulos de Yehoshua estavam reunidos fora da casa, sob uma árvore, e ali faziam o repasto matinal. Hesitando um pouco, entrou no recinto. Um lugar lhe foi destinado e todos, menos Yehoshua, mostraram-se cerimoniosos para com ele, o que lhe satisfez o Ego sempre maior que a razão.

O rabi foi recebido na casa humilde com o máximo de deferência, o que só fazia que adotasse poses de superior e sua arrogância condicionada por anos surgia como se fosse natural em sua Identidade. Sentado ao lado da pedra baixa que servia de mesa, silencioso, Yehoshua observava com ar condoído os modos arrogantes do rabi do Templo.

JESUS CURA DOENTES

Por onde passava Yehoshua prodigalizava curas. Muitas, ele nem mesmo tinha conhecimento de que aconteciam.

Finalmente, após a bereka de agradecimento, orada em voz pomposa pelo rabi Abel, todos saíram em acompanhamento de Yehoshua. Abel logo se percebeu diminuído diante do Mestre, pois para este eram todas as atenções. Então, estugando o passo, colocou-se ao lado de Yehoshua, malgrado os esforços discretos dos discípulos para o afastar, buscando sem sucesso chamar para si a atenção dos que aos pouco iam aumentando o número de gente que engrossava o cortejo. Contendo a raiva o rabi notou que as pessoas não demonstravam qualquer respeito à sua pessoa e ele era empurrado sem consideração pelos que, sofredores, buscavam aproximar-se ao máximo do Homem de Nazaré. Logo o rabi estava para trás e por maior que fossem seus esforços não conseguia abrir caminho para voltar a ocupar o lugar em que começara a caminhada, ao lado de Yehoshua. Irado, ele abandonou o cortejo e voltou correndo até sua tenda, onde chamou Levi com gestos ansiosos.

— Acompanha-me! E anda depressa! Abre caminho entre a gente que se aglomera ao redor do milagreiro. Eu quero estar ao lado dele, quando parar para pregar, mas sozinho não consigo esta façanha. Tu és forte e tens muito mais força que eu. Usa-a, se preciso for, mas coloca-me ao lado dele. Logo os dois estavam ao lado de Yehoshua à custa dos empurrões nada delicados que Levi dava na multidão de pessoas doentes, mendigas e povo simples que acompanhavam o milagreiro quase com adoração. Levi ficou impressionado. Jamais vira tamanha admiração para com os emproados rabis do Templo de Jerusalém. Temor, sim, ele via nos olhos de todos os que iam fazer oferendas. Mas admiração? Adoração? Não, isto não. Passou a observar o homem alto ao lado do qual se mantinha e ao seu patrão bem próximo. Era alguém que fascinava e impunha respeito, quase adoração, pela só presença. Não tinha absolutamente nada de ouro ou pedras ou coroas ou nada que era tido entre as gentes como símbolos de destaque para as autoridades constituídas. Ele se vestia simplesmente, quase como um qualquer do povo. Exceto por suas roupas que eram de algodão branco e muito bem lavadas. Suas sandálias estavam gastas, surradas de tanto palmilhar o chão pedregoso e poeirento do lugar. E o homem tinha uma resistência física admirável. Não arfava nem suava, embora andasse com passos tão rápidos que era quase impossível acompanhá-lo. O rabi já escorria suor por toda a face e sua roupa luxuosa grudava-se em seu corpo o que, com certeza, lhe trazia grande incômodo. Já o Homem de Nazaré não tinha nem uma gota de suor a lhe escorrer pela face ou pelos braços desnudos e sua respiração era normal. Ele não arfava, como os que o seguiam, agora a metros atrás deles três.

JESUS E O SERMÃO DA MONTANHA

Com voz natural, mas ouvida até pelos que estavam muito distantes dele, Yehoshua pregou.

Finalmente chegaram ao altiplano que Yehoshua subiu sem diminuir a passada. Isto fez que Abel e seu escudeiro ficassem para trás, juntamente com os discípulos que não conseguiam seguir de perto o Mestre. Aproximando-se de Yehudhah, Levi comentou:

— Esse homem a quem tu segues… Ele é de outro mundo? Nunca vi tamanha resistência física em alguém. Andamos muito, quase uma hora de caminhada forçada e ele nem suou. Agora, já vai longe de nós, subindo sozinho este morro. Quando tu já o viste cansado?

— Nunca! — Foi a resposta de Yehudhah, que parecia ter um sorriso de orgulho na face.

Yehoshua finalmente parou e se sentou numa pedra, voltado para onde o populacho subia com certa dificuldade ao seu encontro. Finalmente, quando todos se tinham acomodado, os discípulos ao redor da pedra formando uma espécie de cinturão protetor e o rabi e seu guarda tomando lugar entre eles, seguidos logo abaixo por uma porção de homens que pareciam também serem seguidores especiais do milagreiro, este se pôs de pé e falou.