Yehoshua

Naquele dia Yehoshua mostrou a todos o Poder que possuía.

— Ouvi, certo dia eu ouvi — começou Yehoshua e um silêncio se fez tão logo sua voz soou clara e sonora. Falava em koiné, o grego vulgar e a língua mais falada naqueles tempos — um hebreu julgando Pôncio Pilatos. Sobre o Prefeito romano ele emitia juízos censurosos e acusadores. Também tenho ouvido hebreus falando mal dos rabis de Jerusalém, os quais, segundo quem emitia seu juízo depreciativo, eram criminosos. E o faziam, garantiam eles, baseado no que vos tenho pregado. Quero deixar bem claro que eu não julgo a ninguém, mas vós tendes motivos de sobra para serdes julgados por quem de direito; eu busco corrigir os tremendos enganos que propositadamente alguns de nossos rabis levam avante com vistas a tão somente obterem lucros materiais e, pior, cultivarem a preguiça, vivendo no luxo e no gozo de prazeres pelos quais nada fizeram por merecer que não iludir o povo e usufruir do trabalho dele em seu próprio benefício. Luxúria e Prazer sem esforço próprio não dignificam as autoridades em nenhum lugar deste mundo. Não há nos livros sagrados hebreus nada que autorize reis, imperadores e rabis à exploração desrespeitosa daqueles que justamente trabalham e produzem para todos. Ao contrário, encontrareis nesses livros que reis e governadores têm o dever de zelar pelo bem estar do povo ao qual devem reger. São seus guardiães e lhes compete administrar a riqueza comum com honestidade e eqüidade com vistas tão somente ao bem-estar de todos.

— Aqui e agora eu vos digo: não queirais julgar, para que não sejais julgados.

Abel aproveitou-se do pequeno intervalo que Yehoshua fez em sua fala para se pôr de pé e questionar.

— Rabi — gritou alto para ser ouvido pela multidão. — Quem nos julgará, se nós julgarmos nosso próximo?

— Vosso Pai que vos habita — foi a resposta imediata de Yehoshua. — Meu Pai e o Pai de todos vós. Por que tu me questionas? Em verdade em verdade eu vos digo, a vós todos que aqui e agora me ouvis: com o juízo com que julgardes eis que sereis julgados; e com a medida com que medirdes o vosso irmão, eis que também sereis medidos, pois Aquele que tudo vê e ao Qual nada escapa, não permite que a Justiça Divina não seja feita para o bem e a salvação do Espírito.

— Mas tu não podes negar que o Prefeito de Jerusalém é um usurpador de nosso direito de nos governarmos por nossas próprias autoridades; não podes negar que os romanos são intrometidos que nos humilham e nos exploram em proveito próprio — Rebateu Abel, notando que algumas cabeças acenavam em apoio às suas palavras, o que lhe deu mais coragem para questionar o Messias.

— Por que vês tu o argueiro no olho do teu irmão e não enxergas a trave no teu próprio olho? — Rebateu Yehoshua. — Ou será que negas que o Templo é o primeiro a cometer os mesmos crimes dos quais tu, agora, acusas nos romanos? Tu és um sinedrita. Um juiz do povo hebreu. Quando tu te reúnes com teus pares, por que não começais, vós todos juntos naquele momento, a aplicar a Lei e a prática da Justiça em vós próprios antes de julgardes vossos irmãos?

— Do que nos acusas, pregador? — Enfureceu-se Abel, ao notar cabeças acenando afirmativamente em apoio ao que o Profeta dizia.

Yehoshua o doutrinador

Naquele Sermão o Pastor de Almas estava sendo duro, ainda que sabendo que colocava mais óleo sob o caldeirão para nele ser imolado.

— Eu não vos acuso, mas questiono vossos procedimentos, vosso modo de medir com dois pesos e duas medidas. Por que não trabalhais duro, como estes que aqui estão, para começar? Por que não plantais o que comeis? Por que não fiais o tecido das roupas que vestis? Por que não cozinhais vosso próprio alimento, como faz o vosso povo? Por que não distribuís as riquezas que acumulais às custas do povo que explorais, em socorro dos mais necessitados e menos validos pelos Poderes Constituídos? Por acaso o trabalho não vos dignifica? Por que não ides à lida para obter vosso pão de cada dia, mas, em vez disto, tomai com impostos injustos e dízimos imorais e insultuosos o que é produto do suor dos que devíeis proteger e orientar e amparar e socorrer? O bom líder, rabi Abel, é aquele que dá o exemplo, não aquele que exige do chicoteado que o faça por ele.

— Vós dizeis aos vossos irmãos: deixei-nos tirar de vossos olhos estes argueiros. No entanto, todos vós tendes traves enormes em vossos próprios olhos e não as enxergais. Qual é a causa de tamanha miopia, quando se trata de olhardes para vós mesmos antes que para vosso próximo? Hipócritas! Eis o que sois! Tirai primeiro a trave de vossos próprios olhos e então vereis com clareza como proceder para retirar o argueiro do olho de vossos irmãos. 

— Em verdade em verdade eu vos digo, a todos vós que aqui hoje vos encontrais para ouvir a verdade de mim, que sou o Mensageiro d’Aquele que me enviou: não lanceis aos cães o que é santo nem lanceis aos porcos as vossas pérolas para que não suceda que eles, em suas ignorâncias, ponham-lhes os pés em cima e assim pisoteando-as se voltem contra vós e vos despedacem.

— Guardai em vossos corações, vossos templos íntimos e invioláveis, o que seja santo em vós e não apregoeis o que tendes de bom em vós mesmos, pois Aquele que tudo vê e tudo ouve, sabe o que tendes na quantidade certa, o que nenhum homem pode saber.

— Muitos tesouros cada um homem leva em seu íntimo, embora dele muitos de vós passem a vida sem saber que os têm. Mas eu vos digo: batei, e abrir-se-vos-á; pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis. Mas não procureis tesouros onde eles verdadeiramente não se encontram, pois eis que o Pai os escondeu em vós mesmos e estes tesouros não podeis ver nem tocar, senão sentir; não podeis segurar em vossas mãos, senão distribuir em vossas ações e em vossas palavras de consolo e de verdade. E quanto mais os doardes, mais achareis em vossos íntimos, eis que os tesouros do céu não são para a rudeza da terra e não têm fim.

pastor-silas-malafaia

Eis um que se diz pastor do Cristo, mas não ouve jamais o que Ele deixou como Lei.

— Eu vos pergunto: qual de vós, sendo pai, quando seu filho lhe pede pão  dá-lhe uma pedra para comer? Ou se seu filho lhe pedir um peixe lhe dá, em vez disto, uma serpente?

— Pois se vós outros, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai Celestial dará bens aos filhos que Lho pedirem? Sim, crede em mim: Ele o fará, desde que o filho peça com toda sinceridade e tenha agido com merecimento diante de Seu olhar certo e juízo justo.

— Em verdade em verdade eu vos digo: tudo o que vós desejais que vos façam vossos irmãos, fazei-o primeiro vós a eles. Eis que esta é a Lei que foi pregada pelos profetas.

EDIR MACEDO2

Outro rabi moderno que não ouve a voz d’Aquele que clama no deserto.

— Irmãos meus, ouvi bem minhas palavras: buscai com afinco a porta estreita e entrai por ela, pois estreito e espinhoso é o caminho que conduz à Morada de Meu Pai. A porta larga e espaçosa abre-se para o caminho que guia para a perdição; e muitos são os que por ela penetram alegremente, mas para suas infelicidades só encontrarão dores, sofrimentos e rangeres de dentes ao final do caminho.

— Rabi — gritou Abel, pondo-se novamente de pé. — Que porta larga é esta a que tu te referes? Dize-nos para que nós a evitemos!

Esta dupla não inspira confiança. Principalmente o

No nosso Brasil estamos prenhes de políticos que deviam ler mais atentamente as palavras d’Aquele que prega no Deserto.

— Hipócrita! Por toda tua vida, ao levantares de teu leito entras pela porta larga e buscas o caminho florido da perdição. E se ainda assim, não compreendes a que me refiro, então, não tens apenas uma trave em teu olho; também tens uma montanha de cera em teus ouvidos. Vai! Limpa-te desta sujeira e pensa no que me ouviste falar, pois que não repetirei o que vos digo, senão no final dos tempos. Mas quando eu o fizer, ai dos que tenham palmilhado a porta larga da perdição. Melhor seria jamais terem nascido.

— Eu vos digo aqui e agora em minha palavra de verdade: quão estreita é a porta e quão apertado e espinhoso é o caminho que guia cada homem para o Paraíso; e quão poucos serão, em todos os tempos, aqueles que com este caminho hão de acertar.

— Irmãos meus, guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós vestidos de ovelha, quando em verdade não passam de lobos em peles de cordeiros. Eles vos falarão com língua mentirosa e vos afastarão de meu Pai pregando o temor a Ele. No entanto, crede em mim: nenhum filho bom teme ao seu pai entre vós. Então, por que o bom filho temeria meu Pai e vosso pai também?

— Sede bons. Distribuí vossos tesouros em silêncio e aquele que recebê-lo de vós que o faça em silêncio, pois o silêncio é ouro e a palavra pode ser prata azinhavrada.

AS PESTES EVANGÉLICAS

Muitos prestidigitam com a Bíblia na mão. Que terrível condenação lhes está reservada.

— Assim, toda árvore boa dá bons frutos, mas a má árvore somente dará maus frutos. Líderes mentirosos de homens tolos são como árvores más e os tolos se envenenarão ao comerem de tais frutos.

— Mas eu vos digo que, em verdade em verdade, assim como toda árvore má que não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo, também assim os maus líderes que só dão maus frutos pelos quais podeis reconhecê-los.

— Nem todo aquele que me diz em brados: “Senhor! Senhor!” entrará comigo ou sob minha proteção no Reino de Meu Pai; mas sim aquele que faz a Vontade de meu Pai, o Senhor dos céus. Esse entrará no Reino de Deus, pois a mim terá dado ouvido e eu sou aquele que há de vir. Minhas palavras são verdadeiras e em mim não encontrareis erro.

— E eu vos garanto que no dia do Juízo muitos dirão em agonia: “Senhor! Senhor! Não foi em teu nome que profetizamos e não foi em teu nome que expulsamos os demônios e obramos prodígios?”

— Mas então eu lhes direi em voz bem clara e audível por todos em qualquer parte do Mundo: Pois eu jamais vos conheci nem de vós ouvi falar; então, apartai-vos de mim, vós que obrastes iniqüidades; vós que amealhastes tesouros em nome de falsidades; vós que mentistes e iludistes e me insultastes. Ide, malditos de mim e de meu Pai! Não vos quero ver jamais e nunca vos reconhecerei como enviados meus.

Os olhos de Yehoshua fixaram-se com um olhar de fogo na face de Abel, que subitamente sentiu-se reduzido a pó e se sentiu compelido por uma força indomável a sair dali o mais depressa possível. Era como se o próprio ar o estivesse empurrando para longe; como se a terra não aceitasse ser pisada por seus pés. Em desespero e controlando-se à força, o rabi deu a volta sobre si mesmo e correu sem pejo em busca da trilha que descia o promontório em direção ao vale. Um desespero incontrolável o assolava e nunca antes se sentiu tão só e tão abandonado como naquele momento de agonia.

— Todo aquele que ouve minhas palavras de verdade e as observa, será comparado ao homem sábio, que edificou a sua casa sobre a rocha. E veio a chuva, e transbordaram os rios, e assopraram os ventos, e combateram aquela casa, e ela não caiu porque estava fundada na rocha.

— E todo o que ouve estas minhas palavras e não as observa será comparado ao homem tolo, fútil, arrogante, usurário e comodista, que edificou a sua casa sobre a areia da ganância e da mentira. E veio a chuva, e transbordaram os rios, e assopraram os ventos e combateram contra aquela casa, e ela caiu e foi grande sua ruína.

Yehoshua silenciou e o eco de suas palavras parecia permanecer no ar, ecoando nos ouvidos de todos os que ali estavam. Havia, em muitos, medo; havia em muitos, esperança e havia em poucos a alegria porque tinham compreendido que eram ricos e não sabiam.

O Mestre, então, abriu os braços e orou em voz alta ao Pai Celestial, dizendo:

“Eis-me aqui a Teu serviço, Pai de todos nós. Eis que me esforço e lanço sementes em terreno ora pedregoso, ora fértil. Mas eu te rogo que, por teu amor, as sementes caídas sobre pedregulhos sejam dali levadas pela chuva do pranto do arrependimento e caiam em terreno fértil e, embora que tardiamente, dêem finalmente o fruto que devem fazer germinar em todos os corações de meus irmãos e Teus filhos, pois assim como Tu me amas, também os ama porque teu nome é AMOR”.

E Yehoshua, então, desceu o promontório andando tão rapidamente que já estava fora de vista, quando começaram as perguntas e os questionamentos.