Quando queria falar a pessoas escolhidas ele não procurava as sinagogas, mas um boque qualquer.

Yehoshua passeou os olhos sobre os homens diante de si. Estavam num bosque de arvores frondosas e o ambiente ensombrado era muito fresco. Uma brisa agradável soprava por entre a mata fazendo farfalhar as folhas, balançando os galhos mais finos e causando uma dança hipnótica das sombras e das réstias de luz que desciam até o solo de terra escura e pedras grandes. Ao lado do Mestre estava sua mãe, sua irmã Ruth e sua esposa. A conversa sussurrada entre os homens cessou, quando perceberam que o Mestre se tinha movido e os olhava de cima da pedra onde se sentara para poder abarcar a todos com a vista. As três mulheres estavam compenetradas, silenciosas e reverentes ao lado de Yehoshua, agora chamado por aqueles homens de “O Profeta do Amor Divino”.

—É com alegria que os vejo, a todos, aqui, atendendo ao meu chamado. Sereis meus escolhidos a partir de agora e eu vos designarei por discípulos meus. Vós tendes comparecido a todas as minhas preleções e tendes ido às cidades próximas repetir o que venho pregando a quantos me podem ouvir. Mas às vezes dais interpretações equivocadas do que digo e isto me desagrada, pois confunde os que vos ouvem falar sobre mim. Então, quero que conversemos livremente. Quero que pergunteis sobre dúvidas que tendes devido ao que venho pregando. Não vos agasteis de perguntar. Quem não sabe deve buscar o conhecimento. Assim também, quem não entende bem o que ouviu, deve buscar a fonte para se esclarecer. Então, eis-me aqui à disposição de vós todos.

Yehoshua escolheu mais 72 discípulos para o seguir e, depois, pregar seus ensinamentos.

Fez-se um silêncio expectante. Os homens se remexiam e se entreolhavam sem saber como começar. Quase nenhum deles ousara, antes, questionar o Senhor, como o chamavam entre si. Agora, era desconcertante estar ali, apenas eles, os escolhidos, para conversar particularmente e aprender com exclusividade diretamente da Fonte de Sabedoria. Um dos presentes, um jovem ainda imberbe, pôs-se de pé, pigarreou para clarear a voz e falou.

— É uma honra estarmos aqui. Não somente para mim, mas creio que para todos nós. Por que o Senhor nos chamou especificamente?

— Eu já o disse: quero dirimir vossas dúvidas. Quero que repitais o que de mim ouvirdes com precisão e sem alterar o significado de minhas mensagens. É o que tem acontecido e eu o sei bem.

— Quem vos informa, Senhor? — Perguntou o jovem, curioso.

— Meu Pai. Ele e eu somos Um.

Fez-se um silêncio expectante.

— E… E vosso Pai está aqui, entre nós? — Insistiu o jovem, agora com menos temor.

— Sim. Em cada de um de nós.

— Nas mulheres também? — Ouviu-se uma voz vinda lá do fundo do grupo. — Os rabis nos ensinam que as mulheres são indignas porque têm períodos de impureza e tornam a nós, homens, impuros se nela tocarmos quando estão sangrando. É por isto que só os homens são considerados diante de Jeovah.

Yehoshua soltou uma gostosa gargalhada, o que descontraiu o grupo e levou a muitos a imitá-lo. Não porque comungassem com Seu conhecimento, mas por empatia e relaxamento.

— Nenhum homem tem, diante dos olhos de Meu Pai, maior merecimento que a mulher — disse o Mestre, após cessar o riso. — Os rabis estão absolutamente errados quanto a este preconceito infundado. E pecam diante do Pai quando levam o povo hebreu a diminuir aquelas que são a única via de chegada de vós a este mundo, homens. Nunca mais repitais tamanho absurdo. Se a mulher fosse indigna do Pai, por que Ele a teria criado? E por que eu, seu Filho Predileto, me teria casado com uma? Ei-la, aqui, ao meu lado. E eu vos asseguro que prefiro mil vezes a ela do que a um homem a me fazer carícias.

O grupo estourou numa gargalhada, totalmente descontraído e tomado de surpresa pela observação de Yehoshua.

— Senhor, é condenável um homem servir de mulher para outro homem?

A pergunta foi feita por um pastor de ovelhas. Era atarracado, sobrancelhas peludas e dentes cariados. Ele tinha ficado de pé e feito a pergunta sem temor, com voz clara e sonora.

— Vós me ouvistes dizer, várias vezes, que recebestes de Meu Pai o Livre Arbítrio para fazer convosco mesmos o que quiserdes. Então, eu te pergunto: quem é dono do corpo que é emprestado a outro homem para deleite destoutro? Quem é dono do corpo que faz carícias em outro homem? Tu? Alguém aqui?

Um silêncio se fez no grupo. E Yehoshua deixou que ele pesasse até começar a incomodar os que o olhavam expectantes.

— Mestre — falou outro homem, também pondo-se de pé. — Está bem claro nas escrituras que Jeovah condena absolutamente os homens que tenham tão repugnante comportamento. Tais indignos, quando pegados em flagrante, são condenados à morte por lapidação. Por que tu não os condenas também, já que te apresentas como Filho de Jeovah?

— Nunca me apresentei como filho d’Ele, Simeão. Eu sou Filho do Altíssimo. O Criador até mesmo de Jeovah. Acima de meu Pai nada há. Mais poderoso que Ele nada há. Senhor absoluto de tudo o que podeis ver e imaginar, Ele é o Todo Poderoso. Eu, como vós, somos filhos d’Ele. Jeovah é somente um seu servo. É Poderoso e é o encarregado de guiar e zelar pelo povo hebreu. Mas Jeovah não é nosso Pai.

Agora, o silêncio era pesado e a expectativa parecia sustar até a brisa que havia parado de soprar.

"Em nome de Jesus" pastores homossexuais se casam e se beijam diante de seus fiéis. Quando o Mestre dos mestres sancionou isto?

Yehoshua não condenou os homossexuais. Mas isto não ficou registrado…

— E eu vos asseguro que nem mesmo Jeovah condena um homem pelo que ele mesmo faz consigo. Todos vós recebeis o único bem que realmente vos pertence neste mundo: vossos corpos. Então, tendes o direito de usá-lo como bem vos apetecer. Somente vossos Espíritos têm o direito de julgar e condenar ou não, vossas almas mortais. Quando qualquer um de nossos irmãos se arvora em juiz do que o outro faz consigo mesmo, comete falta grave diante de nosso Pai, pois está interferindo na vida que seu irmão deseja viver. E ele é livre para tanto.

— Mas é lícito um homem andar pelas ruas da cidade aos beijos e carícias com outro homem?! — A pergunta quase gritada era feito pelo pastor de ovelhas. — Eu vi isto em Cesaréia, uma cidade do pecado e que é bem perto daqui, e fiquei revoltado. Ali, naquela cidade, certamente Jeovah não habita.

— Ora, ora — falou Yehoshua com ironia divertida na voz. — Então, tu és o secretário de Jeovah? Ele te diz onde habita ou não habita? Ele te informa sobre o que faz ou pretende fazer?

Uma onda de gargalhadas varreu o grupo, fazendo que o pastor se contorcesse para olhar o grupo cheio de revolta.

— CALAI-VOS! — gritou ele a todo pulmão. — POR QUE RIDES DE UM ASSUNTO TÃO SÉRIO QUE ESTÁ CONTIDO EM NOSSOS LIVROS SAGRADOS? Nem um homem nem uma mulher pode se entregar à imoralidade com outro de seu sexo. Isto é claramente condenável e os rabis não cansam de nos advertir sobre este pecado. Eu não aprovo este comportamento bem diante de meus olhos!

A VERADEIRA FACE DE JESUS...

Ele não foi chamado de O Rei dos Reis à-toa.

— Eu disse, a todos que me têm ouvido — e a voz de Yehoshua se sobrepôs com potência sobre a balbúrdia que o protesto do pastor causara —, que não deveis julgar vosso irmão, pois que também sereis julgados; e pela medida que vós o medirdes, sereis medidos. Será que não compreendestes o que eu disse? Quanto à pergunta de Nicodemus, o pastor de cabras que se mostra irado conosco, eu respondo: não. Nenhum homem nem nenhuma mulher deve expor-se aonde não sejam bem aceitos. Por ventura vós provocaríeis o leão faminto passando em seu território carregando a perna sangrenta de um carneiro? Pois assim fazem quantos pratiquem carícias com quem seja de seu próprio sexo, quando se exibem acintosamente diante de gente que não aceita, por incapacidade de os entender, o que fazem entre si. O respeito do indivíduo deve ser praticado diante das normas da maioria, pois estas prevalecem sobre aquele. Mas a maioria não tem o direito de invadir a privacidade daqueles que se entregam entre si em suas casas ou em lugares isolados e íntimos para eles. Eu vos disse que só ao Pai cabe julgar e agora vos digo que Ele não julga aquele que usa o que lhe foi dado segundo sua própria vontade. Para o dia de hoje basta sua própria aflição. E não é grande a aflição daquele que não é aceito pela maioria?

— Não façais de vossas crenças a Verdade geral, pois elas, as vossas crenças, são apenas vossas e restritas aos vossos juízos. E vossos juízos são função do que vossas almas mortais aprenderam com a maioria dominante na sociedade onde viveis. Guardai o silêncio, se não tendes palavras de compreensão e aceitação para com vosso próximo. E em vosso silêncio, em vosso coração, julgueis a vós mesmos, pois sois ao mesmo tempo vosso réu e vosso juiz. E eu vos digo que por mais letrados que sejais, nunca podereis ser juiz de vosso irmão.

— Nos livros sagrados está escrito como Lei recebida por Moisés diretamente de Jeovah, o guardião do povo hebreu, que não deveis matar. Eu vos falei sobre esta Lei, mas tenho de acrescentar que cometeis crime de morte quando apontais o dedo acusador para vosso irmão, quando ele não age contra vós e, sim, apenas consigo mesmo e para consigo mesmo. Que mal causam a vós aqueles de mesmo sexo que se buscam? O que sabeis das necessidades deles para os julgardes? Se o fazeis apenas porque os rabis vos dizem que é assim porque a Lei assim determina, sois como piolhos que andam pela cabeça dos outros.

— Irmãos meus, para que sejais meus discípulos tendes que, primeiramente, despir-vos de todo preconceito para com vosso próximo. Esta é a Lei, pois que ela diz “amai a Deus sobre todas as coisas e ao vosso próximo como a vós mesmos”. Não podeis amar a vós mesmos se odiais vosso irmão. O ódio que por ele votais com certeza é reflexo daquele que votais, sem o saber, a vós mesmos. Por isto eu disse: “antes de apontar o argueiro no olho de teu irmão, tira primeiro a trave de teu olho”. Não entendestes ainda minhas palavras? Ninguém tem direito de acusar seu próximo, do mesmo modo que a ninguém é dado o direito de invadir o espaço de seu próximo. Se alguém não quer ser invadido em sua intimidade, por que invade o espaço do outro com comportamentos que aquele outro não aceita? Isto é provocação e esta provocação tem uma razão que deve ser perquirida por aquele que é impulsionado para agir provocadoramente. Por pior que lhe pareça o comportamento dos que em sendo do mesmo sexo se dão em carícias mútuas, crede em mim: esta carência não é do Espirito Humano, mas da Alma Mortal que é como a sombra do Espírito. É preciso que saibais separar o joio do trigo. O que vosso irmão fez, com toda a certeza não o fez pela vontade de seu Espírito Divino, mas por uma razão de Alma que, com freqüência, nem mesmo ele conhece. Uma razão de alma mortal que o domina e lhe dita coisas fúteis e perigosas para sua vida mesma. Irmãos meus, o Mal não está fora de cada um de vós, mas reside em vosso ser, estejais ou não vigilantes contra ele. E eu vos digo mais: aquele que age maldosamente por obediência a um tirano, a um déspota, a um malvado, por covardia ou temor a ele, não é digno de mim. Os maus, os tiranos, os déspotas, no reino de meu Pai são menores que as pulgas que infestam um cão. Não têm valor senão enquanto Espírito que não despertou. O Espírito do homem é a Presença do Pai em cada um de vós e em cada homem sobre a terra. E não somente nos homens, mas também nas mulheres, pois Eva também foi criada pelo Pai Celestial. Pensai bem antes de abrir vossas bocas e levantar vossos dedos para acusar. Não esqueçais nunca do que eu vos disse: “Com a medida com que medis vosso irmão, sereis medidos”. 

Fez-se um silêncio respeitoso e nele se ouviu a voz pesada de Simeão, o pastor de cabras.

— Então, Senhor, tu me aconselhas a aceitar o que meu ser não aceita? Homens que se dão em carícias à vista de todos? Mulheres que se beijam em público como se isto fosse natural?

— Simeão — falou Yehoshua e em sua voz havia um tom de tristeza —, se estás com os pés na lama e não gostas de lama responde-me, o que é mais fácil: tomar uma pá e trabalhar duro para retirar toda a lama que te cerca e na qual tens os pés afundados, ou simplesmente afastar-te do lamaçal e lavar os pés para não ter mais lama neles?

— Afastar-me do lamaçal é o mais certo a fazer — respondeu o pastor de ovelhas.

— Então, sempre que te deparares com algo que não aceitas, mas que é aceito pela maioria, toma aquele lugar como um lamaçal e, em silêncio, retira teus pés dali para que não emporcalhes teu Espírito com a sujeira que julgas ver nas almas dos outros. O maior erro que se pode cometer é tentar consertar o que não deseja ser concertado. É preciso, primeiro, saber se o que se vê está torto ou quebrado. E eu vos digo que esta não é uma fácil tarefa. Então, deixai que cada qual viva sua vida em paz e afastai-vos do que não aceitais por incapacidade de compreensão daquilo que vos enoja ou irrita vossos juízos de alma. Defendei-vos ficando permanentemente em vigília, pois que o inimigo sempre ataca quando se está desprevenido.

Yehoshua calou-se e passeou o olhar sobre o pequeno grupo. Percebeu toda atenção neles para o que dissera. Percebia o vendaval de emoções e juízos que causara em cada um com suas palavras. Então, voltou a falar.

— Eu vos quero como meus discípulos, mas tendes que vos esforçar para livrar-vos dos véus que embotam vossos espíritos. E estes véus são vossas crenças. Nada é certo, nada é errado, mas tudo está certo e tudo está errado. Refleti nestas minhas palavras e ide em paz.

Yehoshua enlaçou a cintura de sua amada e sem mais dizer desceu da pedra e rapidamente toda a família desaparecia dentro das folhagens. O grupo permaneceu sentado, quieto, calado, cada qual centrado em si mesmo…