Ele começou a ser julgado ainda no primeiro ano em que deu início ao seu trabalho como Messias.

Abel tinha ao seu redor cinco rabis pregadores itinerantes. Conhecia-os  a todos e via neles temor diante de si, o que muito lhe agradava. Mas em seu íntimo as palavras de Yehoshua queimavam sua Alma. Ouvira as pregações que o milagreiro fizera desde quando ali chegara e fôra por ele curado. Eram pregações impressionantes e desconcertantes, mas certamente havia, por detrás daquelas palavras bem colocadas e bem cuidadosas em não se deixar enredar pela própria boca, algum objetivo escuso. Não sabia dizer o que era e isto o inquietava.

— Sei que tendes ouvido o que o pregador de Nazaré anda falando pelas cidades dos arredores e aqui também — começou Abel. — E espero que tenhais percebido, como eu já o fiz, que por detrás de suas verdades há algum objetivo escuso, que eu suponho seja cativar o máximo de pessoas para, quando ele julgar azado, levantá-las em rebelião. Não sei dizer se contra o Templo, se contra Herodes ou se contra Pôncio Pilatos, mas sei que alguma coisa o milagreiro trama. O que tendes a me dizer a respeito?

Yehoshua pregava e a cada pregação, ele bem o sabia, dava um passo a mais na direção da cruz romana.

Os cinco homens, todos já passados dos quarenta e cinco, se entreolharam preocupados. Sim, tinham ouvido uma ou outra pregação do estranho nazareno, mas na verdade em seus íntimos concordavam com ele. Agora, como dizer isto ao rubicundo homem diante deles? Era claro que o rabi Abel, um sinedrita, desejava por todos os meios encontrar culpa no pregador. Egoísta apegado ao material e ao luxo, pessoalmente jugava-o um perigo enorme às sua própria vida de riquezas, futilidades e poder. No entanto, ele apenas falava a verdade e sempre com base nos próprios livros hebreus, com destaque para o Deuteronômio. Como julgá-lo sem julgar o que estava no livro? Ele dava uma interpretação nova ao velho. Ele mostrava um lado dos fatos revelados nos livros que ninguém tinha visto até então. Ele não contradizia nada do que estava escrito nos livros sagrados, exceto que condenava o Deus raivoso e vingativo das narrativas dos Livros sagrados e o substituía por outro muito mais agradável, muito mais simpático e muito mais aceito por todos os que o ouviam. Mesmo os goins gostavam muito mais do Deus pregado pelo Milagreiro do que aqueles de seus povos, quase sempre sanguinários, guerreiros e vingativos.

— Mas que diabo! — Explodiu Abel diante do silêncio que se fizera após sua pergunta maliciosa. — Será que apenas eu enxergo o Mal que há naquele homem? Ele está arrastando a escória de nosso povo e, até mesmo, a escória de goins desgraçados em suas terras, com seus milagres e sua pregação insultuosa. Até romanos estão assistindo sua fala com clara admiração e franca aceitação. Isto é perigoso, não podeis ver? Pôncio Pilatos virá sobre todos nós, quando descobrir que seus legionários estão-se deixando enfeitiçar por um pregador judeu. Isto mesmo: J U D E U ! O Prefeito não verá apenas aquele rebelde. Verá nele todos nós. Pagaremos pelo que não  fizemos. Achais isto justo?

— Tu já presenciaste a pelo menos duas das falas do pregador de Nazaré — Falou um dos cinco ali presentes, o mais velho e o mais carrancudo. — Dize-nos: o que viste de errado em suas palavras? Eu, de minha parte, não tenho nenhuma acusação contra ele, e sou sincero ao dizer isto. Tenho aprendido a ver a Torá de outra forma e o confesso a ti, mesmo sabendo que estou despertando tua ira contra mim também.

Dois atores brasileiros em cena homossexual no filme "Do Começo ao Fim".

Pecado? Deve ser condenado? Até hoje este comportamento animal encontra resistência entre algumas religiões da raça humana.

— Pelo Santo dos Santos! — Urrou Abel, exasperando-se. — Pois quê! Não vistes sua defesa dos homens que se deitam com homens? Isto é absolutamente condenado por nosso livros! E ele defendeu este comportamento abjeto para uma multidão composta tanto de hebreus quanto de outras gentes. Entre estas gentes, os mais afeitos a tais depravações: os gregos. O que ele quer com aquela imoralidade, dizei-me, vós, que não enxergais o mal no que ele faz? Por acaso, alguém aqui pode-me dizer em que parte de nossos livros há um único profeta que defenda o comportamento aberrante dos homens afeminados? Está em Levíticos: “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher, pois se o fizeres estarás cometendo abominação”. Não conheceis esta passagem bem clara de nossos Livros? E em Coríntios vós podeis ler: ““Não sabeis vós que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não vos deixeis enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homens que se deitam com outro para lhe servir de fêmea, nem ladrões, nem avarentos, nem mentirosos, nem falsos, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus”. No entanto, o milagreiro de Nazaré defende abertamente a abominação…

— Não mintas, Abel, que é feio em homens como tu — cortou, ríspido, o idoso carrancudo. — Sejamos justos como temos de ser por obrigação de nossa profissão. Somos rabis. Não temos o direito de falsear a verdade. O que Yehoshua disse foi que Deus concedeu ao homem o livre arbítrio e que, por isto, todos têm o direito de dispor de seus corpos, o único e verdadeiro bem de qualquer homem ou qualquer mulher possui nesta vida, como bem desejar. Yehoshua não sancionou a pederastia, o homossexualismo. Não, ele não fez isto. Apenas deixou a cada um a responsabilidade pelo que fizer com sua única dádiva verdadeira. Não sei quanto aos outros que aqui se encontram a teu chamado, mas eu, Simeão, concordo plenamente com Yehoshua, o profeta de Nazaré e, não, o milagreiro, como tu o chamas.

Yehoshua o doutrinador

Quando o Filho do Homem falou sobre o homossexualismo, sabia que estava direcionando a maldade dos Doutores da Lei para a direção que Ele precisava que fossem.

— Em Deuteronômio 15 — rebateu Abel, aproximando-se e se curvando sobre seu contestador, olhos chispando de ira — podemos ler: “Falou mais o Senhor a Moisés e a Arão, dizendo: Falai aos filhos de Israel e dizei-lhes: o homem, que padece uma purgação branca, é imundo”. Sabeis a que purgação nosso Deus de Israel se referia? Àquela que os homens têm ao sonhar, dormindo ou acordado, praticando a cópula. Ora, a purgação branca que os homens têm quando copulam com suas mulheres é, por natureza e diante da palavra de nosso Deus, imunda. Mesmo tendo sancionado ao homem a multiplicação de sua espécie, o Deus de Aarão e Jacob, nosso Deus Yeveh, bendito seja Seu Nome, condena a purgação do homem na cópula com a mulher. Ambos, depois do prazer pecaminoso, devem lavar-se e ainda assim ficam imundos e, logicamente, intocáveis por qualquer um de nossa gente, até o final da tarde daquele dia de pecado. E tudo o que a purgação branca do homem tocar, também se torna imunda e deve ser lavada em água limpa e ainda assim permanece imunda até à tarde do dia do pecado. Nada há mais claro na Lei, Simeão. Agora, eu vos pergunto a vós todos: como ficam aquelas criaturas, homens que se portam como mulheres e mulheres prostitutas que bebem a purgação dos homens com os quais se deitam para copular? Ora, se a purgação do homem é imunda em si mesma, aquele ou aquela que a bebe também se tornam imundos e, por nossa Torá falada, nascida da interpretação das Leis por nossos Doutores, este estado de imundície deve durar por sete dias, quando nenhum hebreu nem mesmo deve dirigir a palavra ao pecador, nem lhe dar um copo d’água ou um prato de comida ou uma manta para que se abrigue do frio. Não podeis ver o quanto esse Yehoshua ofendeu nossas Leis? Defendendo a liberdade de qualquer um fazer o que desejar com seu corpo, ele fere frontalmente o que está escrito no livro mesmo que mais gosta de citar. Prega a anarquia e a desordem e isto pode sublevar nossa gente contra o rei Herodes, contra Pôncio Pilatos e a própria Roma; e, pior, contra nosso Templo mesmo.

— Yehoshua — rebateu Simeão, a quem o olhar venenoso de Abel desagradara profundamente — deixa ao homem mesmo a responsabilidade por optar ou não, em ferir a Lei. Não vejo em quê isto o possa tornar criminoso perante o Sinédrio. E não creio que aqui neste grupo tenha alguém que não entenda a situação como eu o faço. Ele nos orienta a não julgarmos nosso semelhante e eu concordo com ele. Sinceramente, sem mentir, Abel, dize-nos se tu nunca tiveste uma polução noturna? Nunca acordaste todo molhado com a purgação branca que é condenada no Deuteronômio? Eu não minto, pois sei que não há um só homem que já não tenha tido esta experiência desagradável. Eu já a tive e não uma vez apenas. Por isto posso dizer-te com certeza: é impossível a qualquer um evitar tais situações. Todos somos imundos, a se entender como imunda esta reação que me parece natural do corpo humano à excitação lúbrica, seja ela por sonho, seja por fantasia ou na prática mesmo. Tu podes acusar a alguém sem, antes, te acursares primeiro? Já tiraste a trave de teu olho?

— Como ousas me insultar, Simeão? — Urrou Abel avançando sobre o idoso rabi como se lhe fosse bater com seu cajado. Mas outra voz se fez ouvir. Era de outro rabi, mais novo que Simeão, e seu dono dizia:

— Anteontem, à noite, estive em um bordel daqui e lá encontrei a prostituta mais famosa destas bandas por sua beleza e sua juventude. Chama-se Míriam e é irmã da esposa de Yehoshua. E ela me citou o seguinte trecho de um embate entre Yehoshua e tu, na casa da mãe da jovem: “Neste momento tens um mal que te come as entranhas. Sofres dores atrozes com o que te devora e perdes noites de sono e te contorces com estoicismo durante os ritos vazios que praticas em teu templo de pedra. Eu te curo, aqui e agora, para quando, chegado o momento de levantares tua voz contra mim, tua consciência seja teu juiz que não te perdoará até mesmo após tua morte.” Todos sabemos que tu realmente sofrias de uma dor que te fazia gritar em agonia. Onde está ela? Realmente Yehoshua te curou, rabi Abel? E sua previsão sobre tua consciência não te inquieta? Se aquelas palavras tivessem sido dirigidas a mim, rabi Abel, eu não estaria buscando culpa no justo, mas sim meditando no que ele me dissera. E posso garantir, a todos que aqui estão, que buscaria mudar meu modo de proceder na vida. Dize-nos, então, rabi Abel: pensaste ao menos por um instante no que ele te disse?

Abel passeou o olhar impotente pelas faces barbudas e sérias dos cinco outros rabis que convocara à sua tenda. Sim, todos estavam ao lado de Simeão e contra ele. Aquilo era prova mais que suficiente para colocar Yehoshua perante o juízo do Sinédrio. Mas como levar o homem até Jerusalém sem despertar a ira da multidão? Podia ver que até entre os itinerantes ele conquistara fiéis seguidores e admiradores de suas pregações. O perigo era, realmente, grande para Israel. Alguma providência séria devia ser tomada para sustar a ação deletéria do jovem pregador, pois suas idéias absurdas já estavam contaminando as mentes de quantos o ouviam falar. E o Templo, assim como Herodes e Pilatos, corriam risco de ter de enfrentar uma rebelião de conseqüências imprevisíveis.

— E então, Abel, estamos esperando… — insistiu o rabi mais jovem que havia falado. Abel se voltou para ele e respondeu.

— Com certeza tu também cometeste o pecado condenado em Deuteronômio, Levítico, Capítulo 16, sobre Uniões Ilícitas e Pecados contra a Natureza, não é? Ali é dito bem explicitamente: “Não usarás do macho como se fosse fêmea, porque isto é uma abominação”. Se confessas a todos nós que visitaste um antro de pecado, onde a cunhada do agitador Yehoshua se prostitui, certamente estás ciente que em tais antros se encontram muitos homens pecaminosos e sem moral, que se oferecem a outros como se mulheres fossem…

— Não, rabi Abel, eu não me servi das carnes ali ofertadas. Fui ao lugar para retirar de lá um rapaz que buscava saciar as ânsias de sua carne em tal meio, para desespero de seus pais, meus conhecidos. Não me julgues pelas aparências nem me atribuas comportamentos que não me tenhas visto praticar. Mesmo que não quiséssemos, temos de citar neste momento os ensinamentos de Yehoshua: não julgueis para não serdes julgados, pois com a medida com que medirdes vosso irmão, vós também sereis medidos. O senhor, rabi Abel, aponta com muita facilidade vosso dedo acusador para vosso próximo, vosso irmão, conforme ensina o Profeta de Nazaré. E sois o exemplo vivo do quanto de errado nós nos comportamos quando vos imitamos em nossas vidas. Como Simeão, também eu creio nos ensinamentos de Yehoshua e com isto não firo a Torá, mas concerto o modo como nossos Livros têm sido interpretados por todos nós.

Um longo e pesado silêncio se fez. Abel não sabia o que dizer. Havia indisposição contra ele e percebeu que se falasse, acirraria os cinco outros colegas seus contra sua posição radicalista. Pior era que todos o haviam visto entre a multidão que ouvia o Pregador de Nazaré e, até mesmo, assistido ao seu embate perdido com o jovem arrogante. Com um suspiro e sem dizer nada, Abel encaminhou-se para a entrada da tenda e abriu o pano que servia de porta. Então, olhou significativamente para o pequeno grupo. Um a um eles se puseram de pé e se retiraram, cumprimentando-o levemente com um aceno de cabeça.

Sozinho e sentindo o mundo pesar sobre seus ombros, Abel sentou-se e se serviu de um generoso copo de vinho tinto…