A árvore sicômoro. Sob uma destas árvores Yehoshua descansou com seus apóstolos e sua família.

O Rei dos Reis caminhava apressado. Junto a ele iam seus discípulos e ao seu lado caminhavam sua irmã Ruth, sua Mãe Míriam e sua esposa, também Míriam. Era por isto que o Mestre andava a passos mais vagarosos que os de costume. Não desejava cansar o pequeno grupo que ocupava todo o seu coração humano. Mesmo assim, suas passadas largas obrigavam os seus familiares a se esforçar para se manterem ao seu lado. Iam por caminhos rústicos, geralmente trilhas de cabras selvagens, por sobre montes e pedregulhos enormes, sempre fugindo aos caminhos freqüentados por todos. Yehoshua queria manter-se distante do assédio dos miseráveis e dos doutores da Lei que, infiltrados entre o povo, o vigiavam atentamente e anotavam ao máximo suas palavras para, depois, através delas, armarem um bote mortal contra ele. Yehoshua os conduzia a Citópolis, um vilarejo a 32 quilômetros aproximadamente de distância de Nazaré. Citópolis era pequena, habitada por gente simples, a maioria constituída de pastores, mas também havia ali gente que cultivava o campo e criava ovelhas. As plantações eram pequenas, familiares, e o produto não era comercializado senão na feira pública local, para a qual vinha gente das redondezas.

Ruínas de Citópolis. Foto colhida na internet (http://bmwcklt.org)

Finalmente chegaram ao alto de um morro de onde podiam descortinar a pacata e quase esquecida vilazinha de Citópolis. Yehoshua sustou o passo e passeou a vista sobre o vale onde se situava a pequena vila. Estavam sob a copa de um grande sicômoro e Yehoshua decidiu que permaneceriam ali, longe dos caminhos por onde circulavam as poucas gentes que transitavam pelas redondezas.

Citópolis estava mais ou menos a um quilômetro e meio de onde o grupo se encontrava e o pequeno bosque ao redor impedia que fossem enxergados pelos raros transeuntes que passavam pelas trilhas de cabras e pastores. Yehoshua destacou Cefas, André e Filipe para irem à vila comprar mantimentos. Depois que seus três apóstolos se retiraram o Mestre sentou-se sob a árvore e alheou-se do grupo, entregue à sua costumeira meditação. As mulheres estavam atarefadas em preparar o material de cozinha e pediram ao apóstolo Mateus que buscasse água para cozinhar a carne que os outros trariam da vilazinha. O restante dos discípulos tentavam erguer uma pequena barraca usando galhos e folhas das árvores disponíveis.

O dia transcorreu sem dificuldades. A noite era de lua cheia e a luz prateada banhava tudo, a tudo emprestando uma atmosfera surrealista. Sentado ao redor de uma pequena fogueira, o grupo orava uma bereka pelo dia tranqüilo que tinham vivido. Ao redor e longe deles algumas fogueiras também tinham sido acesas por pastores que cuidavam de suas ovelhas. Havia lobos nas terras vizinhas e era preciso a atenção dos pastores para evitar ataques aos rebanhos. Por isto, a fogueira do acampamento dos apóstolos e familiares de Yehoshua não despertava maior atenção dos que a avistavam.

Aquecendo-se ao redor do fogo, todos esperavam que Yehoshua falasse. Estavam acostumados a ouvi-lo e ele nunca desperdiçava palavras. Mas o Mestre estava quieto, ausente, meditativo. Ruth, a irmã mais jovem e a mais irrequieta do grupo, sem qualquer pejo sentou-se ao lado do irmão e se deitou a fio comprido, descansando a cabeça sobre seu colo. Yehoshua sorriu e lhe acariciou os cabelos.

— Por que me olhas assim? — Perguntou Yehoshua carinhosamente.

— Porque sei que tu vais falar, mas não sei a razão de ainda não o teres feito.

— E tu me queres ouvir?

— Eu e todos os demais aqui presentes, ou não te teríamos seguido para acampar ao ar livre neste frio danado de ruim.

Yehoshua estourou numa sonora gargalhada, que contagiou a todos.

— Está bem. Sobre o que desejais que eu fale?

A pergunta pegou a todos de surpresa e houve um pequeno silêncio no grupo, onde todos se entreolhavam com um mudo pedido de socorro dirigido aos demais. Então ouviu-se a voz da inquieta Ruth que sugeriu algo inusitado.

Satanás, uma de suas muitas representações. Ele é a figura menos conhecida entre os homens de boa ou má vontade.

— Fala-nos dos demônios. Quem são eles? Por que assediam tanto as pessoas? Por que atacam mais os pobres e miseráveis do que os ricos e poderosos? Não vi, até hoje, nenhum dos ricos e poderosos vir endemoniado até tua presença pedir socorro. Qual a razão desta descriminação que os demônios fazem?

Yehoshua ergueu a sobrancelha, em sinal de surpresa, e acariciou os cabelos acobreados de sua irmãzinha tão querida por ele.

— Só de tua cabecinha ardilosa poderia vir tal pergunta. Que, por sinal, é de suma importância.

E voltando os olhos para todos os que o rodeavam e o miravam com expectativa, o Mestre falou.

— A pergunta de Ruth é muito importante para vós, que sois meus representantes entre os homens. Então, prestai atenção ao que vos ensino, hoje. O que pensais que são os demônios?

Os apóstolos e os parentes do Mestre se entreolharam atrapalhados. Nunca, antes, haviam voltado a atenção para este dilema. Cefas arriscou um palpite.

— Senhor, eu creio que o Demônio seja um espírito expulso do céu pelo Criador. Aliás, é isto que consta no livro do Gênesis.

— Não é não. Ali está apenas uma fábula que oculta a verdade aos olhos dos que não podem conhecer a Verdade — disse Yehoshua, sério. — Uma parábola que até os rabis menos informados desconhecem o que representa.

— E o que representa essa parábola, querido? — Perguntou Míriam, a esposa, sentada ao lado esquerdo de Yehoshua. Ela pousou a mão no braço forte de seu esposo e o olhou com carinho e curiosidade.

— Representa — cortou Ruth, faces afogueadas —, os arcanjos caídos do terceiro céu.

Todos os olhos se voltaram para ela, que deu de ombros e disse que a informação era de Jeroboão, o monge de Hemi.

— Aliás, meu irmão sabichão, o que é o tal Terceiro Céu? — Perguntou a irrequieta e traquinas irmã do Cristo.

Todas as cabeças se voltaram prenhes de curiosidade para o Rei dos Reis. Ele suspirou e acariciou os cabelos da irmãzinha, sorrindo misteriosamente.

— Vamos por partes, pois Ruth me impôs um sermão complexo para todos vós. O que os monges de Hemi entendem por Terceiro Céu não é algo longe de nenhum homem. Ao contrário, está nele e com ele o tempo todo e por todos os tempos. Lembrai-vos de que já vos falei dos sete céus sendo o primeiro este que podeis ver, tocar e sentir. Este mundo é o mais denso de todos os céus que meu Pai criou para todas as suas criaturas.

O envoltório que conheceis como Corpo é chamado de Elemental Físico pelos monges de Hemi; e dele eu também já vos disse alguma coisa.

O Elemental Físico de cada pessoa tem vida própria totalmente independente da Vida Espiritual que nele habita. Também já vos ensinei que os Elementais Físicos humanos são totalmente originados da matéria do Primeiro Céu, ou seja: da matéria terrestre, logo, voltam-se totalmente para este céu, o céu material terrestre, e ignoram absolutamente os demais, a esse superiores em complexidade e delicadeza.

O segundo céu, eu já vos falei dele também, é aquele das emoções e dos desejos. Vós o conheceis de sobejo, pois que ele está em cada ser vivo na terra. Emoções e Desejos são atributos inerentes ao Elemental Físico dos seres vivos, desde os mais rudes até o homem. Os Desejos são imediatistas e totalmente voltados para o primeiro Céu. São os olhos que fitam o solo e não enxergam a beleza da abóbada celeste. As emoções são o combustível que move e atiça o Desejo na carne.

O terceiro céu é o céu Mental e é aquele onde ocorrem os pensamentos de todos os seres, não somente dos humanos. É conhecido entre os monges como o Plano Manásico e constituem a ponte entre os três céus: o céu material, o céu emocional e o próprio céu mental. O Terceiro Céu é fundamental para a existência dos dois outros a ele inferiores.

O quarto céu é aquele de onde fluem as intuições reveladoras dos segredos do Pai aos que merecem conhecê-los. É denominado pelos monges de Hemi como Plano Búdico. Raros são os homens que atingem este céu e vós ainda não estais entre eles. Mas é meu desejo que ultrapasseis os outros céus inferiores e atinjais este, superior, e assim será feito no devido tempo.

O quinto céu é aquele de onde surgem as Essências Espirituais, e é conhecido entre os monges como Plano Átmico. A Essência Espiritual é simbolizada, no Livro hebreu do Gênesis, pelo sopro do Pai no homem de barro. Este sopro é a Vida Imortal que energiza e faz viver o homem do primeiro céu, o Elemental Físico, tanto quanto o homem do segundo e terceiro céus, o Homem Emocional e Desejoso e o Homem do Pensamento Criativo ou Destrutivo; Bom ou Mau. Estes três homens constituem cada um ser humano dos que vivem na terra.

O sexto céu é aquele chamado de Mundo Espiritual e é conhecido entre os monges de Hemi como Plano Anupadaka. Como já vos ensinei, é neste Céu que estão as Mônadas de todos os seres vivos que conheceis e, também, dos seres cujas vidas desconheceis, como a água, a pedra e os metais.

A Mônada Humana é uma porção da Matéria do Sexto Céu, a Matéria Espiritual ou Anupadaka, vivificada pela Vontade do nosso Pai Celestial. Anupadaka quer dizer o que tem existência por si mesmo; o que não tem pais geradores. A vida que vivifica esta matéria vem do Sopro Divino, o Sopro do Pai.  Sem seu Sopro de Vida soprado nesta Matéria, a Mônada Humana não existiria e sem ela, nenhum homem poderia existir na Terra.

O sétimo céu é aquele chamado de Divino e conhecido entre os monges de Hemi como Plano Adi. Não existe um oitavo céu porque o Sétimo Céu é o Ser de nosso Pai Celestial. É incomensuravelmente infinito e Sua Luz não pode nem ser suposta pelos humanos ou por quaisquer outras formas de Vida na Carne ou no Primeiro Céu.

Yehoshua elevou sua mão direita e passou-a no ar, como se descrevendo um arco que abrangesse todos os presentes. Ao mesmo tempo, murmurou quase inaudivelmente: “Por minha vontade vossas mentes compreendem agora todo o significado do que eu lhes acabo de narrar. Não tereis mais dúvidas a respeito desta informação”.

 — Agora, meus queridos, vamos aos Demônios de minha querida irmãzinha.

— Meus?! Quem disse que são meus? — Estrilou Ruth, causando risos entre os outros.

 — Ora, foste tu quem os trouxe para cá — disse Yehoshua entre risos. — Mas vamos a eles. Os Demônios não têm permissão de atuar acima do terceiro céu, ou seja, não podem ir além do céu Mental. Logo, eles só podem manifestar-se nos seres humanos…

Ruth arregalou os olhos e exclamou:

— Então… Então eles não caíram do sétimo céu! — Tornou a exclamar a impetuosa Ruth.

— Errado, irmãzinha. Eles vieram justamente de lá. Dize-nos: quem são eles?

Ruth franziu o sobrolho e se concentrou em pensar uma resposta lógica para o desafio que lhe colocava seu irmão. Seus olhos arregalaram-se e ela soltou um sonoro OH! de susto.

— O que foi? — Perguntou Míriam, a irmã, curiosa.

— Os Demônios! Eles somos nós… Nós, mulheres e homens. Nós, onde quer que estejamos!

— Muito bem — disse Yehoshua aplaudindo com palmas a sua irmã. —  Agora, que descobriste quem são e onde estão os Demônios, responde à tua segunda pergunta: Por que eles assediam tanto as pessoas?

Míriam, a mãe, respondeu pela filha.

— Creio que é porque os demônios humanos não conseguem praticar a Caridade. São egoístas; são tendenciosamente malévolos, corruptos e mentirosos, mesmo quando pensam que desejam fazer algo bom.

— E por que são assim? — Perguntou Míriam, a irmã, despertando o interesse de quantos ouviam a família falar.

— Creio que é porque ainda não sabem quem são…

— E quem são eles?

— Ora, no âmago do Ser de cada Demônio humano está aprisionado o Sopro da Vida Divina. Se assim é, então, eles na verdade são Deuses em aprendizagem. Como crianças da Criação Suprema, cometem erros porque não se conhecem, ainda.

— A mãe está certa, Yehoshua? — Perguntou Ruth, voltando seus belos olhos para o irmão mais velho.

— Certíssima, Ruth. É isto mesmo. Agora, responde tu: por que os Demônios assediam tanto as pessoas e atacam mais os pobres e miseráveis do que os ricos e poderosos?

Durante um longo tempo Ruth permaneceu calada, pensando. E todos ao redor aguardavam pacientemente que ela encontrasse a resposta para a pergunta que ela mesma tinha feito. Então, voltando os belos olhos para a face de seu amado irmão, a jovem respondeu:

— Acho que é porque nos Demônios ricos e poderosos o orgulho, a arrogância e a prepotência soterram a humildade. Eles vivem a vida buscando meios de manter o controle sobre os pobres e os miseráveis e pensam que são todo-poderosos exatamente porque impõem aos outros, infelizes, o modo de vida que querem que eles adotem para sempre os servir e os adular. É por isto que os demônios ricos e poderosos não te procuram para expulsar aquilo que é inerente a eles mesmos: a maldade, a crueldade, a tirania e a opressão do próximo.

— Sábias palavras, irmãzinha. Vejo que já estás quase pronta para ser uma de minhas emissárias junto aos Demônios criados pelo meu Pai.

— Olha, tu me podes mandar aonde quiseres e eu irei com gosto. Mas ir pregar para esses… demônios bípedes que se dizem humanos… Isto, não mesmo!

E Ruth se levantou do colo de Yehoshua e foi para dentro da cabana rústica que os esperava para dormir…