Abel era um rabi cego e aguerrido adversário de Yehoshua.

Tu não és bem-vindo à minha leitura! ─ Gritou Abel, dedo em riste, olhos flamejantes de ira. ─ Tu e teus seguidores insultam o Templo e seus rabis! Tu e teus seguidores desfiguram as escrituras! Todos vós devíeis ser presos!

Yehoshua continuou sua caminhada em total silêncio, mas com um sorriso divertido na face. Os que o observavam ficavam confusos com aquele riso estranho, mas alguns começaram a também rir por empatia. O Rei dos Reis subiu ao parlatório e sem qualquer cerimônia empurrou Abel para o lado. Este tentou resistir, mas a força do jovem era bem superior à sua. Tentou, então, uma retirada, mas a mão poderosa de Yehoshua segurou-o pelo braço e o obrigou a permanecer ali, ao seu lado.

— O que queres comigo, maldito? — A face de Abel estava vermelho apoplético. Parecia que ia infartar.

Intrépido, Yehoshua não perdia oportunidade de falar a Verdade aos povos que o procuravam.

— Quero ouvir as tuas interpretações sobre o texto que acabaste de ler. Ele é deveras interessante. Então, começa. Eu e todos aqui te ouvimos. Sugiro que comeces pelo primeiro desses mandamentos: Amarás, pois, a Jeová teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças. Em nome dos que aqui se encontram, rabi Abel, eu te pergunto: quem é Jeovah? Onde Ele está?

— Jeovah é nosso Deus e está em toda parte. No alimento que comemos, nos pensamentos que pensamos, nas oferendas que lhe ofertamos, nas berekas de agradecimento que oramos, nas ações que cometemos… — Respondeu, ufano, o rabi. Ia ser fácil enrolar o atrevido pregador sem templo e agitador de multidões.

— Ah… — exclamou Yehoshua, curvando a cabeça e mirando os próprios pés, sabendo que agora era o centro das atenções dos ali presentes. — Então, quando os sicários matam um semelhante, na mão que assassina está Jeovah? Mas não foi d’Ele a ordem: Não matarás?

— Nosso Deus Jeovah, bendito seja seu nome, não nos proíbe matar os goins! — Gritou Abel. — Nossos livros estão cheios de fatos descritos por nossos profetas onde é dito que Jeovah, bendito seja seu nome, nos manda eliminar todos os ímpios. Ele nos deu esta terra e nos autorizou matar os ímpios que aqui viviam.

— E por ímpio — rebateu Yehoshua — devemos entender quem não nasceu aqui, filho de pais hebreus? Jeovah não reconhece nas outras nações homens dignos e bons, capazes de boas ações e bons sentimentos?

— Quem não pratica os mandamentos da Torá não é digno de Jeovah, Yehoshua! — Gritou Abel olhando por toda a assembléia, onde algumas cabeças aprovavam o que ele dizia.

— Mas há inúmeras nações que desconhecem totalmente os livros de nosso povo, Abel. E no entanto, entre as pessoas daquelas nações há homens bons, puros, capazes até de nos superar em bondade e fraternidade.

— Cita um só, eu te desafio! — Urrou Abel, inflamado.

Yehoshua o doutrinador

Manso de coração e sábio nas palavras, ele não deixava de fustigar os falsos e mentirosos.

— Os indianos, por exemplo. Seus monges passam a vida adorando o Criador de todas as Coisas e doando suas vidas em prol dos outros. Não chamam ao Criador de Jeovah, mas sim de Brâman, o qual se compõe de três outros Deuses aos quais chamam de Brahma, Shiva e Vishnu. Sei que tu conheces bem esta doutrina, pois que aqui, em terras palestinas, há templos indianos nos quais muitos hebreus foram educados. Entre eles, tu também, Abel, tanto quanto eu. E há ainda os povos orientais.

Muitos monges orientais, que se denominam xintoístas, passam por aqui pregando sua fé. E nela pode-se ver, se não se tapa os olhos e os ouvidos com arrogância e prepotência, que eles pregam a caridade, a bondade, o perdão, a mansidão e a fraternidade. Não são estas virtudes dignas de Jeovah, ou será que o Deus dos Hebreus é tão-só sanguinário e protetor de ferozes e aguerridos matadores hebraicos?

Os xintoístas não oferecem ao Criador de Todas as coisas as vidas de animais ou aves, pois acreditam, com correção, que a Vida de qualquer Ser é do Criador desde sempre. Assim também é com os budistas. Por que entre os hebreus homens como tu vivem seu tempo matando animais e deles ofertando a Jeovah suas carnes queimadas e a Vida que os animava?

Por que entre os hebreus se prega a matança de semelhantes só por não terem nascido de pais hebreus nem em terras hebraicas? Como podem os rabis hebreus ofertar ao Criador aquilo que Ele criou com seu Poder? Como podem os rabis ousarem devolver ao Criador o que Ele prodigalizou à Terra por Sua Vontade: a Vida? Podes esclarecer-nos isto, rabi Abel?

Uma grande bulha cresceu entre os presentes. Todas as cabeças se voltaram para Abel que passeava os olhos sobre a platéia e percebia que se não desse uma resposta hábil corria sério perigo ali. Mas o que dizer? Foi Yehoshua quem o salvou do apuro.

— Jeovah é um Deus poderoso, mas não é sanguinário nem, muito menos, vingativo — Disse Yehoshua, calando a bulha que crescia em raiva contra o rabi. — Jeovah é, sim, o Senhor dos Hebreus. É o protetor desta Nação, mas em verdade eu vos digo, a todos vós que tendes ouvidos de ouvir: Ele não é o protetor de todos os povos da terra.

“Sede mansos como mansa é esta ovelha, pois a coragem não está no aço, mas no coração.”

Está em Deuteronômio: o Criador dividiu as Nações dos homens em sete raças e a cada raça deu um Senhor, e isto consta, reafirmo, em Deuteronômio, Abel. E Jeovah é um destes deuses. Tens razão quando afirmas convicto que Jeovah é o Deus de Israel, mas erras quando acreditas que ele é aguerrido, vingativo e cruel. Vê, Abel, Jeovah, neste exato momento, prodigaliza Seu Poder obrando curas entre os que aqui estão, doentes e aflitos. E aqui não estão somente hebreus, mas há homens de outras nacionalidades. Jeovah não distingue os homens por Nação, mas sim por sua Fé e sua Retidão. Jeovah não deseja que seu povo decore letras mortas, mas sim que pratique a Fé, a Fraternidade e a Caridade. Basta isto para que o povo hebraico receba de seu Deus toda a atenção que vive mendigando tolamente.

Voltando-se para a multidão, Yehoshua pediu em voz alta:

— Senhor desta Nação escolhida para receber o Filho do Homem, Jeovah poderoso e soberano protetor do povo de Israel, mostra teu imenso poder e cura aqueles que aqui se encontram e que são merecedores de Tua imensa caridade. Para que se tenha presente que tu atendes a quem com o coração te roga, obra milagres aqui e agora, ó Grande Pai!

Fez-se silêncio expectante e logo começaram  a se ouvir gritos de alegria de pessoas que repentinamente tinham ficado saradas de seus sofrimentos e males físicos e mentais. Uma grande confusão se fez no ambiente, o que deu a Abel a oportunidade de tentar aparecer como o representante de Jeovah naquela sinagoga. Ele agitou os braços e pediu aos gritos que as pessoas o ouvissem. Em vão. A gritaria se tinha transformado em confusão e ele sumiu em sua pequenez. Agastado, desceu do parlatório e se retirou, rancoroso.

Yehoshua, para total espanto de seus 12 apóstolos e 72 discípulos tomou o lugar deixado vago por Abel e ergueu os braços. Não fez mais que este gesto. A multidão foi silenciando, alguns ainda chorando a alegria da cura recebida, e todas as faces se voltaram para o homem simples, bonito e extraordinariamente espantoso, que os olhava sorrindo.

E quando o silêncio se fez, Ele falou e recitou as palavras da Mensagem Divina. 

Ouve, ó Israel; Jeová nosso Deus é o único Deus. Os que aqui estão e são hebreus prestem bem atenção neste detalhe que os rabis, ou por ignorância e cegueira, ou por maldade e esperteza, não põem em ressalto: A invocação contida neste apelo é para a Nação Israelita, não para qualquer Nação. Jeovah dita as Leis que deseja que seu povo siga. Por isto é que diz: Ouve, ó Israel. Ele não diz: Ouvi, vós todos, povos de Deus. Não tem autorização para tanto. E Jeovah diz: 

Amarás, pois, a Jeová, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças.

Mais uma vez Jeovah não dita a Lei para todas as Nações do Mundo. Ele a restringe ao povo do qual é o guardião supremo e eterno. E prossegue dizendo: 

Estas palavras que eu hoje te intimo, estarão sobre o teu coração; Tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás, sentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te e ao levantar-te.

A Galiléia de Yehoshua. A geografia mudou muito pouco. Foi uma paisagem quase igual a esta que Ele viu e na qual viveu por um tempo.

E agora eu vos pergunto: Por que o Santo dos Santos insiste em que os hebreus procedam assim? A resposta, irmãos meus, é uma só: este povo viveu séculos e séculos sob o jugo da espada e da chibata. O ódio medrou em seus corações e o ódio é uma erva daninha que não se extingue senão com muito esforço. O ódio afasta qualquer povo de seu Deus Protetor e o lança num caminho de dores e sofrimentos longo, muito longo e amargo. Jeovah, pai e senhor dos Israelitas e de todo o povo hebreu, deseja que seus filhos matem o ódio que em seus corações medrou vigoroso e forte e em lugar desta planta do Mal façam nascer, na Terra onde brota o Leite e o Mel, o Amor sem restrição a tudo o que o Criador Inominado e Incognoscível criou.

E que terra é esta de que Jeovah, vosso Pai Todo Poderoso, vos fala, ó israelitas? Eu vos respondo: esta terra é vossos corações, pois só nele pode brotar o Leite da Vida Eterna e o Mel da Caridade e do Perdão. Em nenhuma outra terra neste mundo encontrareis o paraíso que buscais, pois ele está em cada um de vós. É isto que Jeovah vos revela, homens aguerridos e cegos.

E Jeovah ordena a todos os hebreus e israelitas: Atá-las-ás como sinal na tua mão, e serão por frontais entre os teus olhos. Escrevê-las-ás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas.

Por que Jeovah, vosso Pai Celestial, ó hebreus, vos ordena que ateis em vossas mãos e em vossos frontais as Leis que vos dita? Porque, eu vos respondo, é pelas vossas ações, vossas mãos, que distribuireis o alívio às dores de vossos semelhantes; e este remédio vós criareis em vossas mentes, o laboratório divino onde vossos espíritos devem trabalhar arduamente para vencer as tendências do corpo e da carne e criar o remédio do Amor e da Caridade. E tua casa, ó israelita, é o teu corpo constituído de carne, de sentimento e de pensamento, os umbrais que tu desconheces. De um Umbral para outro há a porta da tentação. A fim de vencer tal perigo, deves escrever a Lei de Jeovah em tais portas, a fim de que, quando tiveres de abri-la, te recordares da Lei e não hesitares em tua ação. 

E disse mais, Jeovah, em sua Lei aos israelitas e hebreus. Ele disse: Quando Jeová teu Deus te introduzir na terra que prometeu com juramento a teus pais, a Abraão, a Isaque e a Jacó; que te daria grandes e excelentes cidades que não edificaste; e casas cheias de todas as boas coisas, casas que não encheste; cisternas cavadas, que não cavaste; vinhas e olivais que não plantaste, e comeres e te fartares; guarda-te e não te esqueças de Jeová que te tirou da terra do Egito, da casa de servidão. E por que Jeovah falou tais cousas que, agora, vos parecem confusas e incompreensíveis? Porque, eu vos digo em verdade, que Ele falou através dos Profetas segundo os costumes e as crenças daquela época, que são diversos dos costumes e das crenças desta época em que vós viveis. Povos e costumes com os quais hoje conviveis não eram comuns em convivência naqueles tempos dos Profetas. Jeovah falou por simbolismos para que só os escolhidos pudessem entender Sua Mensagem e estes, uma vez entendidas as suas mensagens, as traduzissem aos menos validos por seus Espíritos ainda adormecidos. E a que terras Jeovah Pai se referia? À terra árida dos corações empedernidos da maioria de Seu Povo. Abraão, Isaac e Jacob aqui, simbolizam vossos Corpos, os mais pesados fardos de vossas vidas; vossas Mentes, as forças pelas quais deveis vencer as dificuldades para atingir a Revelação; e vossos Espíritos, aos quais a Revelação deve despertar. São estes os simbolismo de Abraão, Isaac e Jacob. A que cidades Jeovah vosso Pai Celestial, se referia? Cidades que não edificastes? O vosso Pai não se referia às cidades dos vossos irmãos aos quais chamais de gentios e às quais sois incitados a conquistar pelos cegos que se auto-intitulam vossos rabinos. Estas cidades são tão passageiras quanto as vossas próprias. Jeovah vosso Pai falava sobre as cidades cujas muralhas não haverá trombetas que derrubem: a cidade de vosso bons pensamentos, vossas boas ações e de vossa Caridade irrestrita e absoluta. E a que casas cheias de boas coisas que não construístes Ele se referia? Jeovah, vosso Pai Celestial e zeloso, vos promete um Espírito Vivo e só em vossos Espíritos encontrareis vossas casas cheias de coisas boas que não enchestes porque ela já vos chegará cheia por sobejo de todas as graças do vosso Pai. Assim também deveis entender e compreender a referência a cisternas cheias e que não cavastes; às vinhas e olivais que não plantastes, mas das quais bebereis e vos fartareis. E quando Jeovah se refere ao Egito como a Casa da Servidão não quer execrar aquele povo só porque não é Seu povo. Apenas usou o símbolo que, naqueles tempos, era comum entre as gentes israelitas. A servidão ainda está em vós que, acomodados e acovardados, curvais vossos cangotes ao jugo da canga das mentiras dos que, hoje, se vendem a vós como vossos guias. 

Está escrito: Temerás a Jeová teu Deus; servi-lo-ás e pelo seu nome jurarás. Por que temer ao vosso Pai? Qual filho pode ser bom se teme àquele que o educa e ensina? Não entendais este temor como medo ao Pai, mas sim como respeito aos Seus ensinamentos. Deveis temer a não obediência ao que Ele amorosamente vos ensina; deveis temer não seguir pelo caminho que Ele vos indica, pois se assim fizerdes adentrareis horríveis lugares de que vos lamentareis por muitos e muitos anos. E em verdade em verdade eu vos digo: não sigais vossos falsos e ignorantes rabis, pois que ele só vos conduzirá por caminhos espinhosos, de dores e lágrimas, e gritos e gemidos, sem ouvidos que vos ouça.

E também está escrito: Não seguireis a outros deuses dos deuses dos povos que estiverem à roda de vós, porque Jeová teu Deus no meio de ti é Deus zeloso; para que a ira de Jeová teu Deus não se acenda contra ti, e ele te faça perecer de sobre a face da terra. Pelo que já vos esclareci, o Deus de Israel e de todo o povo hebreu é Jeovah e não há outro que se lhe possa igualar nesta Nação. Assim, Ele vos exorta a serdes fiéis aos seus ensinamentos, pois que não o fazer é incorrer nos caminhos desviantes que só vos levarão à perdição de vossas Almas e ao fracasso de vossos Espíritos.

A Lei de Jeovah é a mesma para todos os demais seis guardiães dos povos da Terra. Então, tendo vós sido os escolhidos por Jeovah e Seus iguais como o povo que deve levar estas Leis Gerais e Eternas a todas as Nações, pesa sobre vossos ombros o Dever terrível desta missão e não podeis tergiversar sobre isto.

Israelitas e hebreus de toda a Israel, vós fostes abençoados com a mais nobre das missões celestiais. Não erreis, pois, com Jeovah, pois sua Ira cairá como mão de chumbo sobre vossos descendentes por séculos e séculos a fora, até que retorneis ao caminho justo e certo.  E esta ira não é d’Ele, pois que Jeovah, como um Deus Poderoso, não sofre deste mal inferior. É simbólico o afirmar que é Sua a Ira que vos punirá. A vossa punição virá de vós mesmos, pois, como não me canso de afirmar, sois deuses e podeis livremente escolher o bom ou o mau caminho. E se como povo enviado de Jeovah às demais nações vós escolherdes negar-vos a tão nobre missão, vosso protetor de vós se afastará e vos deixará entregues às dores e aos espinhos que tiverdes escolhidos para vós mesmos. E assim será por séculos e séculos se necessário for, até quando tomardes consciência de que sois os escolhidos para Pregar a Palavra de Jeovah, que é a palavra do Supremo Criador de todas as coisas.

O silêncio dentro da pequena sinagoga era total e absoluto. As pessoas ali presentes estavam fascinadas pelo que ouviam. Yehoshua passeou seu olhar por sobre os ovos áuricos que via como qualquer pessoa vê a flor na ponta do galho da árvore. E ele viu que suas palavras tinham sido compreendidas e em alguns dos presentes, hebreus, tinham calado fundo. Ficou satisfeito e sem mais falar, desceu do parlatório e se retirou sem se incomodar com o ser ou não seguido por seus apóstolos e discípulos.

Mas eles o seguiram fascinados e tomados de um sentimento de grandeza que jamais poderiam discorrer sobre o que os inundava.

Apenas podiam dizer que era imensamente bom…