Senador Romano em sua roupagem

Abel errou quando pensou ser capaz de bater-se em esperteza com o Senador Romano.

É domingo e Cafarnaum fervilha com os comerciantes ambulantes. Mas agora há um assunto novo, principalmente entre os hebreus e este assunto que polariza a atenção de fariseus e saduceus é o Deus de bondade que Yehoshua vem apregoando por todo lugar por onde passa. Devido aos milagres que ao seu redor acontecem aos montes, o povo anda muito inclinado a abdicar do Jeovah sanguinário, vingativo e discriminador. Mas não é só entre os hebreus que grassa a discussão sobre o desconhecido Deus de bondade que Yehoshua prega. A discussão é bem maior entre os goins. Eles também confrontam seus deuses com o Deus de Yehoshua e o choque entre estas entidades são fortes. 

Yoseph

Os trajes sempre foram os distintivos das classes sociais entre os humanos.

Caminhando lentamente por entre o povaréu, Abel aguça os ouvidos para ouvir o que é dito e seu coração está disparado, sua garganta seca e suas mãos suadas de ansiedade. Ele acredita que está coberto de razão. Yehoshua é mil vezes mais perigoso do que os rabis do Templo em Jerusalém podem suspeitar. Espertamente ele exerce seu ministério longe da capital e quase sempre não se serve de sinagogas. Quando faz isto é para jogar em ridículo qualquer rabi que esteja no parlatório cumprindo com seu dever. O destino de Abel é a mansão de Pôncio Pilatos onde está hospedado o Senador de Roma. Quer encontrar-se com o homem para avaliá-lo e às suas intenções com relação ao encontro com o agitador.

Foi assim, ouvindo tudo o que podia e gravando o máximo em sua memória, que Abel chegou ao Palácio de Pôncio Pilatos, onde Publio Lentulus e sua família estavam hospedados. O rabi se fez anunciar pelo legionário que estava de guarda. Esperou uns vinte minutos, antes que o homem retornasse e o convidasse a segui-lo. Encontrou o Senador sentado sob um caramanchão florido, à beira de um lago artificial, onde a água que descia de umas pedras artisticamente arranjadas cantarolava alegremente. O senador não se levantou para o cumprimentar. Ao contrário, olhou-o com curiosidade e, depois da inspeção desconcertante, sem falar, indicou outra cadeira diante de si, num convite mútuo para que seu visitante se sentasse.

— Meu legionário me disse que tu te chamas Abel e que és rabi do Templo de Jerusalém. O que fazes tão distante daquela cidade? E qual é o motivo de tua visita?

Abel não gostou do modo como o encontro se iniciava. Tinha imaginado ele falando e o Senador ouvindo, mas estava acontecendo exatamente o contrário. Pigarreou, ajeitou-se na cadeira para ganhar tempo e finalmente respondeu às perguntas da autoridade romana.

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Assim como aconteceu com Ele, acontece até hoje com muitos dos homens justos e honestos. São perseguidos pelos incapazes e incompetentes.

— Sim, sou Abel e sou um rabi do Templo em Jerusalém. Também sou sinedrita, que significa que faço parte da mais alta corte religiosa e política de minha nação. E o motivo que me traz à vossa presença é vosso interesse no pregador itinerante chamado Yehoshua. Por que o buscais?

— Motivos particulares que não dizem respeito a quaisquer autoridades hebraicas.

A resposta fez que Abel inspirasse fundo para se controlar. Ele detestava os kittins e aquele encontro lhe era um martírio. Mas tinha de suportar a impertinência e a arrogância do homem, para o bem do Templo.

— Talvez eu pudesse ajudar-vos, se soubesse porque o procurais…

O Senador não gostava daquele homem. Seu olhar fugidio e a expressão de ódio mal-disfarçado faiscando nos olhos negros o punham instintivamente em guarda. Era um homem dos Campos de Marte e conhecia bem o caráter dos homens bastando colocar neles seu olhar perspicaz. E este olhar lhe dizia que estava diante de alguém que não merecia confiança.

— Sabes com certeza onde posso encontrar esse… Pregador itinerante, como tu o chamas?

Abel esfregou disfarçadamente as mãos. A pergunta não era a que esperava fosse feita. Mas inspirou fundo e respondeu com a respiração presa.

— Neste momento, eu creio, ele está na vila de Citópolis, próxima daqui. Cumpre uma missão que o Templo o incumbiu de realizar.

Publio Lentulus permaneceu fitando nos olhos de Abel. Não moveu nem um músculo de sua face ou de seu corpo e esta imobilidade fria inspirou grande insegurança no rabi.

— Estás certo de que não mentes para mim? — A pergunta, feita com voz gelada e timbre surdo, continha um quê de ameaça e isto fez que Abel se arrependesse de ter encetado aquela visita perigosa. Agora, gostaria de nunca haver chegado nem perto do maldito palácio e seu inquilino perigoso.

— E por que eu faria isto, podeis dizer-me?

— Não, eu não posso. Isto compete a ti me dizer. E então?

— Yehoshua é um rabi bem… bem distinto… bem diferente de todos nós. Em seu nascimento, afiança-se, eu não posso garantir que seja verdade, até um anjo veio anunciar a gravidez de sua mãe. Então…

— Não te perguntei sobre o nascimento desse Yehoshua, rabi Abel. Por que tu decidiste falar-me disso? — A voz e o olhar penetrante do Senador eram como espinhos na cadeira onde o rabi se sentava. Ele se contorcia buscando um modo de não perder sua dignidade diante daquele homem assustador.

— Porque Yehoshua é um tanto rebelde. Assim, quando vos disse que ele deve estar em Citópolis, não pude e não posso garantir que esteja lá, realmente. Ele vai para onde acha que deve ir. Vai para onde pensa que nossa gente precisa de lhe ouvir as palavras. Mas eu conheço todo este terreno e…

O Senador bateu palmas por três vezes e duas mulheres surgiram como do nada e vieram, cabeças abaixadas, postar-se diante do seu senhor.

— Estas duas mulheres — disse Sulpicio — são Ana e Sêmele. Ambas são judias e criadas do pretor Sulpício, de quem, suponho, tens conhecimento. Ele as colocou ao serviço de minha esposa, Lívia, e de nossa filhinha. Creio que o que elas nos vão relatar é de seu conhecimento.

Voltando-se para as criadas, o Senador ordenou, seco:

— Falem!

As duas mulheres, com voz de temor, narraram o que se tinha passado no templo de Cafarnaum. Falaram do embate entre o rabi Abel e o milagreiro Yehoshua e discorreram com entusiasmo sobre as curas que se fizera entre as pessoas doentes que lá estavam. Quando as duas terminaram de relatar o que tinham visto e ouvido, com um aceno de mão do Senador foram dispensadas e se retiraram às pressas.

—Como ouviste, as duas criadas contam que há uma… inimizade entre tu e esse homem chamado Yehoshua. Então, como se explica que ele e tu estejam juntos em uma missão do Templo de Jerusalém?

Abel empalideceu. Caíra numa armadilha e precisava ser muito esperto ou nem queria desconfiar o que lhe poderia acontecer. O Senador romano claramente estava ao lado do seu detestado inimigo.

— E então? — A voz do Senador era incisiva. Abel pigarreou e procurou falar com a maior tranqüilidade de que podia lançar mão. Mas o suor que lhe escorria pela testa e face denunciavam seu nervosismo.

— Sim, entre mim e Yehoshua não há um bom relacionamento. Ele é um tanto rebelde, mas não creio que este assunto seja de vosso interesse. Vim para tentar ajudá-lo na busca que faz…

O Senador ergueu a mão e falou com voz vagarosa, mas de tom impositivo.

— Agradeço teu interesse em me ajudar. Mas não necessito de tua ajuda. Eu já sabia que o milagreiro de Nazaré se encontra em Citópolis e já providenciei para que um de meus soldados vá lá convidá-lo a vir até mim. Agradeço por tua disponibilidade, mas ela não me é necessária. Passar bem.

O Senador bateu palmas por duas vezes e como por encanto dois legionários se apresentaram empertigando-se diante dele.

— Acompanhem o rabi Abel à saída.

E foi só. O romano se virou para o tanque e ficou a olhar a água descer cantarolando pelas pedras da cachoeirinha, totalmente indiferente ao rabi que, embaraçado, ergueu-se, curvou levemente a cabeça em sinal de respeito e tropeçando nos próprios pés foi escoltado até à saída do palácio

Se a raiva fosse um veneno material, Abel cairia ali mesmo fulminado por ela. Andou pela rua até onde não mais podia ser visto por ninguém do palácio de Pôncio Pilatos. Então, hesitou um pouco e se decidiu: iria a Citópolis, ao encontro de Yehoshua. Ainda não tinha bem claro em sua mente o que queria com o detestado “inimigo”, mas sentia grande necessidade de confrontar com ele.

Yehoshua dirigia-se para Cafarnaum. Como sempre seu passo era elástico, mas seus apóstolos já se tinham acostumado a ele e o acompanhavam sem dificuldade. Cefas era quem ia ao seu lado, secundado por Yehudah ish Qeryoth, sempre calado e atento a tudo o que acontecia ao redor, nos morros e na mata que, vez por outra, margeavam a senda. Sem qualquer explicação, o Mestre mudou de direção e passou a se dirigir para Betsaida, às margens do Mar da Galiléia, no território da Gaulanitide, domínio de Felipe, irmão de Herodes, rei da Palestina. Acostumados àquele modo de agir, os apóstolos não questionaram o Mestre e o seguiram. Eles se apertavam ao redor de Yehoshua para ouvir a conversa entre ele e Qeryoth, pois este era o único que falava coisas e fazia perguntas ou questionamentos que os demais não tinham coragem de fazer.

— Yehoshua — falava Qeryoth — Tenho ouvido tuas pregações e elas são muito polêmicas. Sei que tu tens um propósito ao fazeres isso. Mas bater de frente com o rabi Abel não creio que seja uma decisão sábia. Ele é influente no Sinédrio. E é muito rico, o que importa muito no meio dos sinedritas. Tu te colocas bem diante do abismo, se me entendes. Além disto, posso dizer-te com toda a certeza, Herodes anda se incomodando com o que tem ouvido sobre teus feitos. Ele é um impostor que odeia todos os hebreus…

— E por acaso, Qeryoth, os hebreus não fazem por onde merecer o ódio dele? Até onde tenho ensinado, vós, quando incrementais maus sentimentos no coração de vosso irmão, sois tão culpados quanto ele.

— Quê? — Exclamou, surpreso, Qeryoth. — Se estou entendo, vós nos acusais de sermos responsáveis pela raiva do impostor contra nós?

Yehoshua sustou o passo e olhou ao redor. Havia uma grande figueira à margem da estrada, logo adiante, coisa de uns cem metros de onde o grupo estava. O Mestre encaminhou-se para a árvore sem dizer nada. Quando todos chegaram à sombra, Yehoshua indicou o solo e pediu que todos se sentassem. De pé diante de seus discípulos ele, então, falou.

— Quando Qeryoth fala posso ver em seu íntimo que há rancor e desprezo para com Herodes. Eu vos pergunto: não tendes aprendido nada, comigo? Eu vos digo e a todos os que me têm ouvido, que deveis praticar o Amor e a Caridade indiscriminadamente. E, agora, eu vos pergunto: credes mesmo que o que a família dos herodíades fez e faz é por pura decisão de cada um deles? Eu vos respondo: NÃO! Por detrás de cada ação de cada homem, rei ou mendigo, há a Vontade do Divino Pai. E o Pai habita em cada homem ou mulher neste mundo. E o Pai é Um consigo mesmo. Então, quando um homem ou uma mulher toma determinada decisão e age de determinado modo, não é a Carne que o faz, mas o Espírito. E o Espírito sabe do que precisa cada homem, cada vila, cada cidade, cada país e todo o mundo em seus mínimos detalhes, em suas mínimas necessidades. Em verde em verdade eu vos digo que não cai uma folha de uma árvore que não seja pela vontade do Pai. E este Pai não está em nenhum céu, senão dentro de cada um de vós e dentro de tudo o que vêdes ao vosso redor. Ele é UM e é TUDO neste mundo. O Rei Herodes tem sido muito bom para o povo hebreu. Tem construído cidades boas; tem mandado fazer estradas boas; tem realizado grandes obras em benefício dos hebreus. Por que, então, tendes de odiá-lo somente porque não é de descendência judia nem davídica? Por que viveis presos a valores inúteis, que serão esquecidos ao correr do tempo? Respeitai vosso irmão independentemente de quão estrangeiro seja. Se ele vos melhora a vida, tende-o por vosso irmão também, pois em verdade em verdade ele o é. Quantos benefícios os rabis do Templo de Jerusalém já fez por vós? Citai-me uma cidade que eles tenham construído usando do imenso tesouro que acumulam ciosamente para si, mentindo que é para o Pai Celestial, o dono absoluto de tudo o que há na Terra, visto que a tudo deu forma e vida, da pedra ao homem? Eu vos respondo: Nenhuma!

— Mas Herodes o fez e continua fazendo. Que importa qual nome ele dá às cidades que cria? Sebaste, Cesaréia, Antipátrida, Fasélida, Cipros, Herodion, Fortaleza Antônia, são apenas nomes, nada mais que nomes. Mesmo que a intenção seja a de prestar homenagem a outros homens iguais a ele aos olhos do Pai, não é o nome da construção que importa, mas a construção em si mesma. Cada uma dessas cidades trouxe grande incremento para vosso povo. Então, por que não enxergar isto e fechar os olhos para as demais tolices? A Política humana é tola e faz tolices. Mas o Pai que habita em cada político, em cada rei, em cada tetrarca enfim, usa o que o homem carnal faz em benefício de seus propósitos e é isto o que importa.

— Senhor — cortou Cefas —, e quando as ações políticas do homem levam à guerra entre os povos… Isto também é pela Vontade do Pai?

— Sim, é — respondeu Yehoshua, para surpresa de seus apóstolos. — Assim como a doença que abate o corpo é fruto da insensatez do indivíduo, assim também a guerra é fruto do mal-pensar daquele que dirige multidões.

— Mas… — Balbuciou João.

— Mas…? — Incentivou o Mestre.

— Mas se o Pai habita cada um de nós, judeus ou não, como pode Ele ser insensato? Como pode Ele mal-pensar, já que tu nos dizes que Ele é a perfeição absoluta?

Yehoshua chamou João para perto de si e o abraçou com um sorriso carinhoso.

— És tímido, como todo jovem, meu querido irmão. Mas em tua timidez demonstras grande argúcia. Tuas perguntas são boas e lógicas e eu as respondo para ti e para nossos companheiros e irmãos de jornada com muita alegria. O Pai não domina totalmente a Carne em que vosso Espírito está aprisionado. O Pai, sua Consciência Absoluta, deixa ao homem carnal, à sua pessoa, agir livremente para que erre e aprenda com seus erros. O Pai, quando minúscula centelha em vós, homens e mulheres, é um aprendiz d’Ele mesmo. Sua Imensa Consciência não cabe no estreitíssimo limite de vossas cabeças nem de vossos corações. Ele permanece adormecido por longo tempo, deixando que a Alma Mortal que construís com o viver muitas e muitas vidas, se solidifique o suficiente para se tornar forte o bastante e crescer em Razão e Justiça. Só quando tal acontece é que aquela centelha d’Ele começa a despertar. E é quando vós, homens e mulheres da raça humana, passais a pensar, criar e agir de conformidade com a Lei da Verdade e do Amor Divino. Então, o que tendes é, quando jovens na Caminhada, uma alma titubeante para vos ditar os caminhos que deveis seguir. E como toda Alma Mortal é nascida da carne, não pode viver para o Espírito, mas apenas para os desejos carnais. O Espírito precisa dos erros da Alma; precisa de experimentar tanto o prazer quanto a dor através dela. E são os erros das pessoas que levam nações a mergulharem na senda da aprendizagem pelo sofrimento, pela dor. E conhecer a dor é necessário ao Espirito, pois como pode o homem saber do doce se não experimenta o amargo?

— Senhor — Cortou Levi — pelo que entendo, nós, vossos apóstolos, somos Almas Mortais e, como tal, somos sujeitos ao cometimento de erros, muitos até bem rasteiros. Então, pergunto, por que vós nos escolhestes para aprender vossos ensinamentos e pregá-los depois?

— Eu vejo além de que podem enxergar os olhos do corpo, Levi. E vi em vós que o Fruto já está pronto para o amadurecimento. Ainda que vivendo sob o jugo do Templo, vós não vos corrompestes. Mesmo sob o domínio da mão-de-ferro dos rabis, vós vos mantivestes fiéis a valores superiores e independentes. Sempre agistes como se fossem obedientes aos perversos, mas vossas Mentes analisavam e se insubordinavam contra os desmandos dos que têm o Poder Venal. Éreis espíritos com sede e eu sou a água que veio saciá-la.

Um tropel se ouviu. Yehoshua sustou sua fala e olhou para além, para o caminho que já tinham percorrido. Então, com um aceno de mãos e uma ordem seca, imperiosa, chamou seu pequeno grupo para se embrenharem pelo mato à margem.

Ele não desejava ser encontrado pelos legionários a mando de Publio Lentulus.