APÓSTOLO PEDRO - SIMÃO BARJONAS

Cefas ou Simão Barjonas. Posteriormente, Pedro.

Yehoshua retomou a direção de Cafarnaum, mas não enveredou pela cidade, que fervilhava de gente vinda das redondezas, todas ansiosas para conseguir alguma cura para suas mazelas. Encaminhou-se para o morro onde havia feito sua pregação depois conhecida como O Sermão da Montanha. Mal o pequeno grupo chegou ao local e já uma romaria começava a se fazer presente. As pessoas pareciam formigas vindas de todas as direções. Quase todas eram gente pobre, com vestes sujas ou esfarrapadas. No entanto, era possível também enxergar abastados, pois estes vinham em liteiras ou cercados de empregados para os servir. Martha, Ruth e Míriam, as irmãs do Mestre; Míriam, sua mãe, e Míriam, sua esposa, também estavam ali. Tinham acompanhado toda a caminhada, mas eram as últimas do grupo, pois não conseguiam acompanhar o passo acelerado de Yehoshua. O Mestre esperou que elas se sentassem ao seu lado e bebessem a água que João lhes servia. Estavam sedentas. Yehoshua também notou que os homens, na multidão que se aproximava e se espalhava ao redor, buscavam obter os melhores lugares, os mais próximos dele e de seu grupo, e não se pejavam de empurrar com grosseria as mulheres, principalmente aquelas que traziam filhos nos braços. Muitas choravam e se desesperavam por não conseguirem chegar bem próximo de Yehoshua.

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Hoje, gente como esse da foto, está longe de ser digna do título de Apóstolo.

Yehoshua se levantou e, ignorando os que brigavam por um lugar mais próximo a si, foi até o fim da multidão e passou a andar entre os desvalidos. À medida que passava as curas se faziam e os gritos de alegria se levantavam de todos os lados. Ele continuou seu passeio até quando julgou que já era tempo de retornar ao seu lugar. Entrementes, os que haviam sido abandonados por Ele porque brigavam por um lugar mais perto de onde se sentara, estavam, agora, correndo para conseguir outro lugar novamente mais próximo do Mestre. Este, contudo, retornou para onde havia deixado seu grupo e, de pé, falou à multidão.

TEMPLO EVANGÉLICO 1

Isso está muito longe do que o Rei dos Reis tentou ensinar aos homens. Aqui se enfatiza o apego ao venal e, não, ao Espiritual. Por isto, sofremos.

— Aqui, neste lugar, não faz muito tempo eu vos disse: “Os últimos serão os primeiros no Reino de Meu Pai”. Mas parece que não compreendestes minhas palavras, pois eu vos vejo aos empurrões para obter melhores lugares próximo a mim. Em verdade em verdade vos digo que não são aqueles que assumem os lugares bem próximos do Sacrário os que serão notados pelo Pai, mas sim aqueles que trazem seus corações em contrição e humildade. O sacrário do Pai não está em lugares visíveis por vossos olhos mortais, mas sim em vossos corações. Construí um sacrário aí e, então, recebereis a visita d’Aquele que tudo sabe e tudo conhece de cada um de vós, onde quer que estejais. E não tenteis construir vossos sacrários através de TEMPLOS DE PEDRA e orações vazias e sem a ação que a ratifique. Agi em benefício de vosso irmão, como fiz eu aqui e agora. Não desperdiceis vossos momentos de vida em rogar, estáticos, pela ajuda do Pai para vossas dores e decepções. Trabalhai juntos, sempre, pela União entre vossos irmãos e pela melhora de vossas vidas. Se vossos vizinhos se sentem bem em viver onde vivem, então, vós também vos sentireis bem em viver na companhia deles. Não desperteis ódios nem fugi ao convívio entre vós mesmos, pois eis que tenho dito e repetido: sois irmãos perante o Pai. Bens e posses e poder material nada são diante da Eternidade. Tudo isto é passageiro, menos vossos Espíritos. Agi em benefício de vossos irmãos. Esquecei-vos de vós mesmos, pois na mesma medida em que fizerdes isto, o Pai se lembrará de vós e vos acudirá quando julgar necessário. E não vos prendais a líderes que mais criam ilusões que caminhos verdadeiros. Eis que tenho dito e repetido: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Quem não me seguir, não encontrará a senda para o Pai e Sua Morada.

— Senhor! — Gritou um homem lá de dentro da multidão. — Eu gostaria de ajudar meu próximo, mas sou tão pobre que não tenho o que lhe dar. Como posso fazer o que mandas?

— Tu vives? — Perguntou o Mestre.

— Sim, Senhor, eu vivo. Mas em quê condições…

— Se te lamentas, não vives e não aceitas o que tens nem a condição que te foi dada para nela trabalhar. E se não aceitas o que tens nem tua condição, por bem pouco que seja, então, és realmente pobre. E se és pobre, cala-te.

Houve um murmúrio de incompreensão entre o povo ali presente.

JESUS E O SERMÃO DA MONTANHA

O Rei dos Reis pregava a céu aberto, longe dos Templos luxuosos, que só engrandecem a arrogância dos tolos.

— Ouvi que vos falo e não repetirei o que digo agora. Ninguém é pobre se vive e tem saúde. Tu, que me dirigiste tua lamúria, pensas que só podes ajudar teu semelhante se dispões de bens materiais para lho dar. Mas eu te digo que tu tens braços sãos, pernas sãs, saúde boa e palavra livre. És adulto e não provecto. Tens, portanto, o melhor e mais valioso tesouro que alguém pode ter. Então, pensa em como usar isto que tens e é precioso para qualquer um a fim de ajudar aqueles mais desvalidos que tu. Se não podes sozinho realizar o bem ao teu próximo, busca outros que o possam e luta com eles até que os convenças a atuar de conformidade com o poder que possuam e o bem material de que disponham. Busca uma idéia dentro de ti; uma idéia que seja aceita por quem tem o poder de realizar o que tu desejas, mas não podes fazer sozinho. Arrebanha teus semelhantes numa cruzada em benefício de teu irmão necessitado. Então, estarás cumprindo com a Lei da Generosidade e estarás de bem com o Pai Celeste. Tende em vossas mentes, irmãos meus, que nada acontece por acaso. Não cai nem uma folha do galho de uma árvore que não seja pela Vontade do Pai. E se Ele coloca um necessitado diante de ti, que tens saúde e pode lutar por ele, é porque deseja testar tua capacidade de te entregares a teu irmão. O Pai não cria situações à-toa. Ficai, portanto, todos vós, atentos aos desafios que o Criador de Todas as Coisas vos coloca para vos provar a prática da Caridade e do Amor ao vosso próximo. Os que desperdiçam estes momentos de desafios com certeza desperdiçam a atenção do Pai para consigo e chorarão por isto.

Yehoshua deu aquele encontro por findo do modo como sempre fazia: com um aceno de cabeça chamou seus apóstolos e seus discípulos e desceu o morro, passando por entre o povo ainda perdido no esforço para entender o que ele lhes tinha falado. O Mestre se encaminhou para a praia. Queria ficar um tempo sozinho, mas o povaréu não desistiu dele e o seguiu em romaria. Quando chegou à praia, Yehoshua olhou para trás e viu a multidão que o seguia sedenta de mais milagres. Suspirou com resignação e murmurou: “Como fazer que usem seus cérebros para pensar por si? Sou direto. Sou claro. Sou objetivo. No entanto, o que vejo em seus corações é uma terrível dependência de mim; uma assombrosa necessidade de que alguém lhes alivie as provas que necessitam enfrentar e vencer”.

Virando-se para Cefas e seu irmão, André, pediu-lhes que conseguissem alguns barcos para que todos se distanciassem mar a dentro, a fim de que pudesse ter um momento de sossego com seu grupo e sua família. Não demorou e estavam em cinco barcos de pesca. Seguiam os doze, o Mestre e sua família, mais sete discípulos do grupo de setenta e dois que quase sempre estavam presentes às pregações do Mestre.

JESUS E OS PESCADORES

Yehoshua muitas vezes usou os barcos para poder pregar longe do sufoco dos desesperados.

O mar estava calmo e as ondas mais pareciam marolas preguiçosas. André, Cefas e os demais logo tinham amarrado as embarcações lado a lado, estendido tábuas para assento e, assim, criaram um palco flutuante. Ao Mestre foi dado um lugar de destaque, para que pudesse falar a todos. Yehoshua tomou assento e aceitou um peixe frito que o dono de uma das embarcações lhe ofereceu. Comeu o peixe e lavou as mãos na água do mar. Então, voltou-se para sua assistência e perguntou:

— Em quê eu vos posso ajudar, esclarecendo o que tenho dito? Pergunto porque vós sereis meus ouvidos, meus olhos e minha boca perante os povos, quando eu me for.

Houve um momento de silêncio, que foi quebrado por Yehudah ish Qeryoth.

— Tenho acompanhado com muita atenção o que tu dizes, Senhor, e uma de tuas afirmações me suscita dúvidas.

Todos se voltaram para ish Qeryoth. Era o único que não se sentia acanhado quando se tratava de falar francamente com Yehoshua.

— E qual de minhas afirmações te incomoda, meu irmão?

— Tu já a disseste algumas vezes, em público. Trata-se daquela em que afirmas que nem uma folha cai do galho de uma árvore que não seja pela Vontade do Pai. Ora, se tudo, absolutamente tudo o que acontece a uma pessoa, acontece porque o Pai assim o deseja, então, esse Pai a quem tanto tu te referes é mau.

O silêncio que se fez tornou-se quase denso e até as marolas pareciam ter cessado seus movimentos preguiçosos.

— E por que chegas à conclusão de que nosso Pai é mau, ish Qeryoth?

— Porque o mal que nos acontece só acontece por ser Sua Vontade. É isso o que tu afirmas, ou estou enganado?

— Não. Estás certo.

— Estou certo?! — E ish Qeryoth se espantou com o que Yehoshua acabara de dizer, sorrindo.

— Sim. Mas vou explicar. Primeiro, eu vos disse, a todos vós e a quem mais me ouviu, que vós tendes duas realidades. Uma, esta que nos cerca e onde vossos corpos físicos foram gerados e é, por ela, alimentado e vivificado. A outra, que não podeis enxergar com vossos olhos nem sentir com vossos sentidos, é a realidade Espiritual. Agora, lembra que eu também tenho dito, reafirmando o que consta dos Livros hebraicos, que o Pai é o criador de todas as coisas. E entre estas coisas estão as duas realidades que citei. Então, para a realidade em que pensais que estais vivos Ele criou Leis que, em sendo Sua Criação são invioláveis. Ao viverdes aqui, viveis sob o domínio destas Leis e elas são reflexivas, isto é, elas trazem de volta ao homem o que ele cria. Assim, a cada ação de cada um de vós, segundo as Leis do Criador, corresponde uma reação que nasce de vossas ações mesmas. Assim, se sobre vós vem o Mal é porque vós criastes condições para que ele vos sobreviesse. Se sobre vós vem a bonança, é porque vós criastes condições para que assim fosse. E tais condições podem não ter sido criadas nesta existência, mas em outra, anterior a esta, o que está conforme com a crença farisaica e a Lei de nosso Pai. De qualquer modo, segundo as Leis do Pai Eterno, o que fizerdes voltará inexoravelmente para vós. Se fizerdes o bem, recebereis de volta o bem; se fizerdes o mal, recebereis de volta o mal. Sois os donos de vossa felicidade ou infelicidade. Não é simples?

— Não, não é — negou ish Qeryoth, contraditando todos os que tinham acenado afirmativamente com as cabeças. — Vê, Yehoshua, o Pai é a Perfeição. Então, se Ele está em nós e é nosso Ser Divino, por que este Ser comete erros que nos retornam na forma de infelicidades e dores?

— Eu iniciei falando de vossos corpos físicos, não notaste? Também já disse que há duas entidades em vós, assim como há dois corpos. A primeira entidade é a Alma, criação do mundo em que nasceis e viveis. A Alma é para o corpo carnal o que o Espírito é para o corpo divino, ou seja, o Ser que comanda, que tem a Vontade. A Alma tem sua vontade, que conheceis como Desejo; mas a alma se restringe à dimensão física em que todos nos encontramos, agora. O Espírito também tem sua Vontade, mas esta é nascida na fonte eterna de todas as coisas. É, portanto, oposta àquela, da Alma. Enquanto o desejo é voltado apenas para as coisas da dimensão física que nos cerca, a Vontade do Espírito se volta integralmente para as cousas do Mundo Celestial. E é aqui que está o simbolismo do combate entre o Mal e o Bem; entre o Demônio e Deus. Apenas um simbolismos, pois o Diabo, tal como o imaginais, não tem existência real. Ele nasce de vossos Desejos mesquinhos, que criam força em vosso interior. Combatei tais desejos e os substituais por anseios bons e o diabo se evaporará como fumaça ao vento. Sejais como crianças que, mesmo que esteja gostando muito de uma brincadeira e de seus brinquedos, larga-a sem se incomodar com isto e corre para os braços de seu pai, tão logo ele chega à casa. Os brinquedos, que pareciam tomar toda a atenção da criança, perdem totalmente importância diante da figura do pai que retorna ao lar. Então, estejais sempre prontos para largar estes brinquedos que são as coisas e as ilusões desta realidade e correr para os braços de vosso Pai, quando Ele finalmente chegar à vosso casa, ao vosso lar, que é o vosso Ser.

Yehoshua calou-se e se voltou para olhar para a praia. Aos poucos as pessoas estavam indo embora. Ele as mirou por um tempo e voltou a falar.

— Olha-os. Mesmo daqui de onde estamos é possível sentir a frustração deles porque eu me afastei. Não ajais como eles agem. A criança vê seu pai sair para o trabalho com a mesma alegria com que o recebe ao entardecer. Mantende-vos como a criança, que tudo aceita com naturalidade e de tudo também se desprende com naturalidade. Ela é que é importante e isto é o que ela diz em seu comportamento. Se vos mantiverdes desapegados das coisas do Desejo, então estareis sempre dentro das boas Leis que o Criador criou para esta realidade. Compreendes, Yehudhah?

Ish Qeryoth acenou afirmativamente com a cabeça e mergulhou o olhar nas águas que, agora, escureciam com o cair da tarde e o chegar da noite.

— Retornemos. É tarde. O povo já retomou sua vida natural. Preciso reunir-me convosco, mas mais à noite, quando todos já estejam em suas casas e a agitação do dia, assim como as alegrias e as frustrações havidas com minha ação entre eles esteja sossegada.

Os barcos foram trazidos à praia e eles seguiram para Nazaré, onde chegaram já bem tarde da noite.