Caifás temia as idéias inovadoras de Yehoshua porque elas punham em perigo o Sistema Político-Religioso que os rabis tinham implantado entre os hebreus. 

Caifás recebia a visita do rabi Ezequiel, filho de Josué. A manhã era amena em Jerusalém e a brisa tornava o dia muito agradável. O grão-sacerdote tinha diante de si um homem saudável, de faces rosadas e com expressão de grande alegria em todo ele. Caifás olhava seu parceiro de Templo com desconfiança e preocupação. Mas nada disse, preferendo ouvir o que o outro tinha para lhe contar. Sentado ao lado de ambos, Anás ouvia tudo atentamente.

— Então, vens de Nazaré e sei que perambulaste por lá à procura daquele que se diz ser o descendente de David que faz milagres e prega contrário ao que nossos livros nos dizem. O que tens a nos contar? Vejo que estás com excelente saúde. Aonde foi parar aquele sofrimento que te martirizava? Não vais dizer-nos que tu também foste curado pelo tal rabi milagroso…

— É exatamente o que vos direi: fui escolhido por ele, entre centenas de pessoas que se sentavam para ouvi-lo, e ele fez o milagre de me sarar. Bastou que estendesse a mão sobre meu ventre e como num passe de mágica a dor que me martirizava e quase me fazia gritar e chorar desapareceu de repente. Eu senti uma onda de força… De saúde me invadir. Eu me senti rejuvenescer como nunca jamais fui tão jovem em minha vida.

Caifás e Anás trocaram um olhar de preocupação. Aquele era mais um rabi conquistado pelo milagreiro de Nazaré. Mesmo longe, ele estava atacando profundamente os alicerces das diretrizes que eles vinham há anos costurando para manter o povo sob controle. O milagreiro vinha interferindo demais com o que eles planejavam e levavam adiante de modo tão bem estruturado.

— Estás-nos dizendo que ele te curou? Assim, de repente?

— Sim — respondeu Ezequiel, filho de Josué. — Foi exatamente isto que ele fez. E mais: eu me vestia como qualquer outro dos que lá estavam. Não tinha como ele me identificar. No entanto, não só me identificou como me fez um grande elogio. E são suas estas palavras que não me saem do pensamento: “Este irmão nosso veio aqui com a humildade dos que se julgam com demasiado pessimismo, pois que acredita não merecer a atenção e a Piedade de meu Pai. Não penseis assim, eu vos digo, pois que sois todos valorosos diante d’Aquele que possui todo Poder e toda Glória.”

Um silêncio prolongado se fez e o entusiasmado rabi, só então, percebeu o ar pesado que reinava entre os dois que o recebiam. Primeiro, sentiu-se confuso. Depois, raivoso, pois percebia que aqueles dois rabis não tinham gostado do que ouviram.

— Por que estais tão sérios? Não vos agradou o que ouvistes?

Caifás pigarreou, alisou a roupa sobre a coxa e então olhou seu visitante nos olhos, com cenho carregado.

— Não, não gostamos que tu estejas tão entusiasmado com o que ele te fez. Vê, homem, não nos faltam milagreiros a distribuir milagres pela Palestina. Não deves ficar tão entusiasmado com o que te aconteceu. O tal milagreiro de Nazaré…

— Yehoshua é seu nome, não milagreiro de Nazaré — cortou Ezequiel, contendo a custo sua raiva.

— Que seja! — exclamou com raiva contida, Caifás. — O que quero que prestes atenção é no que te aconteceu na tua fé.

— Ela se fortaleceu! — Falou determinado Ezequiel.

— Em quem? No Pai de Yehoshua? Esse de quem ele faz propaganda e que é totalmente contrário ao nosso Deus Javé, bendito seja seu nome?

— Ele disse muito mais coisas que me convenceram de que fala a verdade. E mais: estou convencido de que o Criador de Todos Nós é um Pai amoroso e, não, punitivo. Temos de rever nossos conceitos sobre Jeovah. Se ele é um Deus sanguinário e guerreiro…

Anás era genro de Caifás e os dois a princípio queriam fazer um acordo com Yehoshua.

— Cala-te! — Gritou Anás saltando de seu assento como se picado por uma cobra. — Cala-te e nunca mais profiras tamanha blasfêmia ou serás punido com a morte! Jeovah é quem é e não se discute. Sim, ele é o Senhor dos nossos Exércitos. Exércitos que vamos reconstruir quando o enviado d’Ele chegar para nos guiar contra todos os que tenham a pretensão de nos humilhar, como fazem os romanos. Estes, serão expulsos de nossa terra.

Ezequiel conteve-se a custo. De repente sentiu que tinha perdido todo respeito por aqueles dois homens. Pior: estava com vontade de aplicar uma boa surra em ambos. Então, com expressão de raiva contida, disse, entredentes:

— Também foram palavras de Yehoshua: ” Este nosso irmão sofre horrivelmente de um mal que vós tendes como um Demônio que vos castiga porque vossos pais carnais pecaram contra o Pai Celestial. Mas aqui e agora eu, o Filho do Altíssimo, curo a dor e o sofrimento deste irmão e vos mostro que não há demônios senão em vossas imaginações infantis”. Após isto, ele me curou. Será que podeis tirar vossas vendas e perceber o quanto as palavras dele abalam profundamente o que nós pregamos por séculos? Temos atribuídos os sofrimentos das pessoas aos pecados de seus pais. Assim está escrito nos nossos livros. Também ali está escrito que Jeovah disse que é um pai zeloso e que visita as iniqüidades dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração. Mas Yehoshua afirma o contrário. São suas palavras em resposta a um legionário romano quando este…  

— Maldição!— Urrou Caifás curvando o corpo para a a frente a avermelhando-se todo. — Estás proibido…

— Ninguém vai pôr mordaça em mim! — Gritou Ezequiel pondo-se de pé, punhos cerrados. — Vi, ouvi e fui curado por aquele homem. E creio nele, se quereis saber. Tenho meditado muito no que lhe ouvi dizer às multidões. Ele fala com autoridade. Uma autoridade que vem de alguém muito superior a nós todos juntos. Temos de parar de temê-lo e nos aproximarmos dele. Temos de ouvir suas palavras. Ele não é um revoltoso e pode mesmo ser aquele por quem esperamos há tanto tempo…

— Cala-te! Nós…

Os sinedritas no tempo de Yehoshua. Nem todos queriam a sua morte.

— Calai-vos vós ambos ! — Bradou mais alto que Caifás o seu visitante. — Se não me ouvirdes aqui e agora, tereis de me ouvir no Sinédrio. Falarei para todos me ouvirem. Não sois os donos dos Juízes, como pensais. Uma parte significativa de nós discordamos do modo como geris o Templo. E mutos prestam com simpatia e atenção o que se contra sobre Yehoshua. Vós Não tendes poder sobre mim nem sobre os demais de nós. Nossa hierarquia vos dá o privilégio de dirigir os trabalhos e as tarefas do Templo, mas não deveis esquecer-vos de que nossa riqueza também é vosso sustentáculo. Eu vos relatava, e vou continuar relatando, que questionado por um legionário, que lhe perguntou sobre o céu, ele lhe respondeu com algo que me deu o que refletir. São palavras do legionário: “Os que são justos e corretos, dizem os nossos sábios, vão para o Olimpo e lá ocuparão lugares de destaque na hierarquia dos deuses. Os que são vis e corruptos vão para o reino de Vulcano, onde só há cansaço e sofrimento. Mas tu disseste que não se deve dar valor aos bens materiais. Então, o reino de teu Pai é somente para os miseráveis e os judeus?” Yehoshua lhe respondeu dizendo: “Vede vós, que sois hebreus. Este que se crê romano absorveu o que eu disse e pensou muito a respeito. No entanto, nenhum de vós me respondeu quando vos perguntei sobre quem tinha pensado sobre o que eu vos dissera anteriormente. E desejais ser o povo escolhido pelo meu Pai? Escolhido para quê? Para a preguiça e o egoísmo exagerados? Para a arrogância e a estupidez da crença cega? Para a preguiça de pensar por si mesmos?”

Podes ver por ti mesmo — falou alto, Caifás — o quanto esse homem é perigoso. Ele incita as multidões a se rebelar contra nosso sistema de governo! Não percebes isto?

— O que percebo, Caifás, é que nós somos os responsáveis pela incapacidade de nossa gente de pensar por si mesma. Nós não  os incentivamos a fazer isto, o que Yehoshua procura insistentemente fazer. Ao contrário de nós, que desejamos controlar até o tempo de cada um de nossos conterrâneos, ele incentiva o povo a pensar e agir livremente, desde que combatendo o Mal que há dentro de cada um de nós…

— Nós não — Protestou Anás. — Nós somos limpos aos olhos do Senhor.

— E quem atestou isto para vós outros? Quem vos disse com a autoridade que tem Yehoshua que sois limpos aos olhos de Jeovah, bendito seja seu nome? Ele tem autoridade para isto. Ele se diz o Filho do Criador de Todas as Coisas e quem o vê e ouve compreende que fala a verdade. Mas nós, será que nós temos o direito de nos dizermos também filhos do Senhor? Somos maus! Somos venais. Pregamos mentiras!

— Estás indo além do limite e nós podemos te chamar para julgamento no Sinédrio! Falou, ríspido, Caifás, olhando ameaçadoramente para Ezequiel, que desenhou da ameaça, dando de ombros.

— Podeis convocar o Sinédrio contra mim. Mas posso assegurar-vos que será uma batalha na qual também saireis perdendo. Não sou um qualquer e sabeis disto.

— Esperai! Vamos acalmar nossos ânimos. Não é justo que nos digladiemos enquanto o agitador vive sua vida sem as preocupações que nos acarreta. Tudo bem que ele impressionou a Ezequiel. E enquanto discutíeis, eu refletia se, tendo sido curado por Yehoshua também eu não estaria fascinado por ele. Então, proponho pormos um fim a este nosso encontro e a esta nossa querela tola e voltarmos a estudar com mais cuidado esse homem que, a cada dia, parece ficar mais perigoso para o Templo. Eu até sugiro que busquemos trazê-lo até nós. Talvez possamos chegar a um termo em que nenhum de nós saia perdendo.  

Caifás e Ezequiel olharam para Anás por um momento e, então, acenando com as cabeças, retomaram seus assentos. Anás se adiantou a Caifás e dispensou delicadamente a Ezequiel. Depois que este se foi, Anás sentou-se diante de Caifás e colocou seu pensamento.

— Bom, o que assisti hoje aqui me diz o quanto nosso sistema religioso e político está sendo posto em perigo por um pregador itinerante que anda metendo coisas nas cabeças ocas de nosso povo. Não creio que devamos alimentar dissensões entre nós. Não devemos discutir com os demais rabis por causa desse homem de Nazaré. Devemos usar a todos que com ele tiveram contato a fim de traçarmos seu perfil e o perfil do que tem em mente. Que ele é descendente de David, não há dúvida. Assim era seu pai e assim é sua mãe. Então, por herança sagrada, ele é verdadeiramente o dono do Trono ocupado por Herodes. Eu sugiro que o convidemos a vir ter conosco. Não no Templo e em público, mas aqui ou em minha casa. Tentemos trazê-lo para nosso lado. Tentemos mostrar a ele que o que vem fazendo trará grande desequilíbrio e, também, perigo para Israel e todo o povo hebreu. A facção dos fariseus que se denomina zelotes pode se inflamar e criar um atrito perigoso com os romanos. Yehoshua precisa perceber isto. Temos de lhe dizer isto com clareza. Talvez mude de atitude. E talvez se convença de usar seu imenso poder para formar um exército nosso, imbatível, com o qual nós venceremos as legiões romanas e ganharemos nossa liberdade. Até mais que isto: com o Senhor ao lado dele, podemos até sonhar com derrubar a própria Roma. Mas antes de sonhar tão alto, precisamos conquistar o pregador para nosso lado.

— E se ele não quiser? E se ele se opuser a nós?

— Bom, aí, temos de encontrar um meio de silenciar sua voz.

Anás calou-se e ficou com o olhar perdido diante de si. A cada dia o pregador de Nazaré se tornava a seus olhos mais perigoso para o sistema político-religioso que eles tinham criado e mantido até aquele dia…