Hoje, vários pesquisadores contestam a versão de que Jesus não se casou. Aqui ele é representado em companhia de Míriam de Magdala, sua legítima esposa.

Míriam de Magdala colocou a cabeça no ombro de seu esposo. Estava suada e ainda tinha engulhos.

— Meu amor —, balbuciou ela — o que há comigo? Por que este mal-estar horrível? Eu detesto vomitar…

Yehoshua sorriu e apertou sua esposa ao peito musculoso.

— Estás provando que realmente és humana. Estás grávida. É só isto.

Míriam de Magdala afastou a cabeça do tronco de seu esposo e o fitou com aqueles olhos azuis cativantes.

— O quê? Eu… Eu estou grávida? Eu vou ser mamãe?

Yehoshua soltou uma gargalhada divertida.

— Claro! Somos humanos, não? E humanos… se multiplicam, ora!

— Mas… Mas eu não estou preparada para ser mãe! — Exclamou, ansiosa, a jovem esposa do Cristo.

— Diz-me, Míriam, que mulher está? Mesmo as que já pariram muitas vezes não estão preparada para a nova maternidade. Todas as enfrentam com ansiedade. É natural, meu amor.

— Yehoshua, isto é sério. Tu és o filho do Altíssimo. Então, faz que isto cesse. Agora!

Yehoshua segurou sua esposa pelos ombros e a afastou de si o suficiente para poder olhá-la nos olhos.

— Queres que eu… Queres mesmo que eu impeça esse espírito que já se prepara para vir à Terra, negando-lhe sua oportunidade? Sabes o que me pedes?

Míriam ficou séria e afastou as mãos de seu marido de seus ombros.

— Eu não posso ser mãe. Não de um filho teu, Yehoshua.

— E por que não? — O Senhor estava sério e tinha um vinco de preocupação na testa.

Yehoshua o doutrinador

Manso na aparência e entre seus escolhidos, Ele era combativo, altivo e nunca se deixava dobrar, fosse qual fosse o perigo que enfrentasse.

— Tu és um encrenqueiro de marca, meu amado. Tu te lanças suicidamente contra os poderosos do Templo de Jerusalém. Tens a língua solta e és totalmente imprudente. Tenho medo do que vou falar, mas sinto que… que em breve serás…

O pranto embargou a voz de Míriam de Magdala e ela curvou a cabeça chorando contida. Yehoshua permaneceu quieto, olhando para sua esposa com expressão de preocupação. Então, tomando-lhe o braço, puxou-a em direção ao poço onde estava com seus discípulos. Estes, ainda sentados lá, olhavam para o casal intrigados, pois percebiam uma crise entre eles. Ao chegar ao grupo, o Mestre pediu que eles evitassem Cafarnaum porque havia um romano que andava à procura do milagreiro de Nazaré e o Mestre não desejava encontrá-lo. Então, que fossem para Betânia e o esperassem lá. Precisava de um tempo junto com sua esposa. Yehoshua não disse aos seus apóstolos que Míriam estava grávida. O grupo levantou-se e se apressou a partir.

Yehoshua permaneceu de pé, olhando o grupo se afastar para Betânia. Quando eles desapareceram ao longe, na curva da estrada de terra batida, ele puxou a esposa pelo braço e a fez sentar em seu colo.

— Míriam — falou o Mestre, sério. — És humana e tens um corpo humano. Então, como tal, teu corpo tem de cumprir com a Lei natural da vida terrena.  Nesta vida, também eu sou humano. Embora seja o Filho de Deus, para falar uma linguagem que todos entendem, estou na carne, portanto, tenho a obrigação de viver segundo as Leis da Matéria. Sinto as necessidades naturais e inerentes à carne: fome, sedo, cansaço, dores, irritação, raiva, frustração e desejo. Até mesmo o desejo por uma mulher, o desejo pelo coito com ela. Esta é uma Lei de meu Pai Nossos corpos copularam, o que é também uma Lei natural da vida terrena. É da cópula entre os corpos macho e fêmea que nasce a criança, para a perpetuação da espécie. Então, estares grávida não é nada sobrenatural.

— Tu não és um homem comum e disto todos sabemos. Se tivermos uma criança, ela será assediada. Já pensaste nisso? Eu sempre tive esta preocupação, principalmente a partir do momento em que tu começaste a realizar milagres fantásticos. Ninguém tem tais poderes…

— Erras. Todos os seres humanos os têm, mas eles aguardam que estes seres deixem de ser dominados pela Matéria e pelo Desejo que a estimula e se tornem seres espirituais, que não se prendem às ilusões da terra. Quanto às crianças em teu ventre, elas serão pessoas comuns, pois o fato de eu ser o Enviado de Meu Pai não impõe à matéria que se torne só por isto especial. A matéria não se torna celestial, meu amor. Ela é matéria e pertence ao seu reino. Isto não pode ser alterado. As crianças que tu…

— Por que dizes crianças? Estás insinuando que eu…

— Não insinuo. Afirmo. Tu darás à luz três crianças. Duas meninas e um menino. Parabéns!

— Mas como…? Ah, eu me esqueci: és o filho de Deus…

— Tu o dizes — disse Yehoshua rindo. — Mas tu também o és. Todos os humanos e suas mulheres também o são. Ele não ia fabricar uma obra inacabada, pois não? De que valeria o homem sem uma parceira capaz de perpetuar a espécie? Afinal, nós, homens, não podemos parir…

Míriam soltou uma gargalhada e concordou entre risos com seu esposo.

— Minhas crianças, meu amado, serão especiais, como tu? Quero dizer…

— Não, não. Serão espíritos comuns, como os de quaisquer outras pessoas neste mundo.

— Mas tu és o Filho do Altíssimo…

— Sim, eu o sou. Tu também o és. Eles que virão através de ti também o são. Mas não é porque foram gerados pelo corpo que meu espírito habita que terão de ser obrigatoriamente espíritos superiores aos demais. Repito: o fato de os corpos físicos que tu estás formando em teu ventre serem gerados pelo meu corpo, não impõe que os Espíritos que vão habitar esses corpos sejam tão evoluídos quanto eu o sou. Não são os espíritos que geram corpos, minha amada. São os corpos que geram corpos. Vê, aonde eu realmente resido não há nenhum Espírito que tenha qualquer mínima dívida a ser resgatada para que obtenha sua libertação da prisão a este mundo. Só os que ainda têm resgates a fazer e que precisam retornar para buscar a quitação deste débito é que precisam de corpos físicos para viver entre os mortos. E digo mortos porque os que pensam que vivem aqui, na carne, estão enganados. Na verdade, seus Espíritos estão ou em profundo sono sem sonhos, ou estão definitivamente mortos, querendo eu dizer com isto que muitas pessoas já perderam sua oportunidade de se libertar do peso da cobrança espiritual que se fizeram por seus erros e suas fraquezas. Perderam-se na tentação dos desejos mesquinhos, materiais.

Então… Meus filhos serão hebreus comuns…

— Sim, serão. Mas isto não é ruim. Tu estás dando a eles uma nova chance. Isto já é um prêmio e tanto e um dia verás isto com clareza. Agora, voltando ao que me disseste quanto a estas crianças serem meus filhos, sim, elas poderão sofrer perseguições e até atentados por este fato. Então, quando tu estiveres com cinco meses de gravidez, irás para a Índia, mais precisamente para a Caxemira. Lá eles nascerão sem perigo e desconhecidos de Herodes e dos rabis Anás e Caifás. Contigo irão Ruth, Marta e Míriam, minhas irmãs. Elas te darão apoio e te ajudarão com as crianças. Combinado?

— Eu… Queres que eu fique longe de ti?! Por que não vais conosco?

— Tenho uma missão a cumprir. Não vim para cá senão para isto. Não vou falhar com meu Pai. Mas estás certa quanto à necessidade de protegermos essas crianças. Então, faremos como eu digo, está bem?

Tinha de estar. Yehoshua era definitivo em suas decisões. Míriam suspirou e seu semblante se anuviou. Permaneceu calada por um tempo e, então, murmurou:

— Tenho a impressão de que essa tua missão não vai terminar bem para ti nem para nós…

Yehoshua apertou a cabeça de sua amada contra o peito e também sussurrou ao seu ouvido.

— Vai-se cumprir conforme foi determinado por mim. Será minha última visita a esta dimensão em busca de Espíritos que possam compreender o que digo. Depois que eu me for…

Míriam ergueu a face para olhar o rosto de seu marido e o viu sério, olhar perdido ao longe.

— O que vai acontecer depois que tu te fores?

— Haverá ou muita alegria e felicidade, o que eu vejo como pouco provável; ou muito desespero até o final dos tempos. Tudo dependerá do que os homens farão com a mensagem que eu lhes deixarei.

— Tem de ser assim: duas opções somente?

— Sim, tem. Pressinto que os homens nunca compreenderão o que o Filho de Deus veio fazer entre eles. E será uma lástima para toda a humanidade.

Antes que Míriam pudesse dizer alguma coisa, Yehoshua levantou-se a puxou pela mão.

— Vem! Vamos para casa. Eu estou faminto — disse o Rei dos Reis. Sua esposa ficou com a pergunta presa na garganta.

Quando estavam ceiando, João veio sentar-se com eles e durante o repasto dirigiu-se ao Mestre com uma pergunta.

— Yehoshua, poderias me esclarecer o que quis dizer o Profeta Isaías quando deixou escrito esta mensagem em seu livro: Pede para ti ao Senhor teu Deus um sinal; pede-o, ou em baixo nas profundezas, ou em cima nas alturas” ? 

Yehoshua olhou-o com o sobrecenho erguido, mas não se fez de rogado. Com um sorriso misterioso disse: Se nas profundezas, pedirás sob amargos arrependimentos; se nas alturas, pedirás com enlevo e felicidade”.

— Não existe esta citação no livro do Profeta… — Contestou João, surpreso.

 Não, realmente não existe. Este adendo eu o introduzi para que possas compreender o Profeta. Quando eu digo Nas profundezas eu me refiro a este mundo onde todos pensam que vivem. Quando eu digo nas alturas eu me refiro ao orbe espiritual, onde só os bons espíritos podem adentrar.

— Tu me confundiste…

— Não. Fui claro. Pensa. Deixa de ser preguiçoso e esperar que o prato te seja servido pronto. Vai para a cozinha e faz teu alimento.

— Mas o que…?

Yehoshua se levantou e comunicou que precisava partir para Cafarnaum e seus familiares, se assim o quisessem, fossem atrás dele, depois. Ato contínuo, saiu como o vento e desapareceu pela estrada que levava em direção àquela cidade.