APÓSTOLO PEDRO - SIMÃO BARJONAS

O Discípulo Rebelde sempre esteve sob a atenção de Nosso Senhor, e isto o punha desorientado.

Ish Qerioth chegou à casa de Ruan. Era um casebre pobre. Duas crianças, meninos, brincavam na porta, enquanto três outras crianças, meninas, ajudavam a mãe nos afazeres domésticos. Yehudah Ish Qerioth chamou Ruan com voz alta e raivosa. A mulher acudiu pressurosa e quando se deparou com o homem diante de si, olhar chamejante, de onde parecia sair chispas de raiva, tremeu e se apoiou no portal para não cair. Com voz trêmula ela murmurou, em resposta à pergunta do sicário, ao qual já conhecia, embora nunca lhe tivesse dirigido a palavra.

— Meu senhor ish Qeryoth, o que desejais com… com meu marido? — A voz da mulher soava fraca e trêmula.

— Vim matá-lo. Mas não temas. Não tenho nada contra ti e teus filhos. Só contra o desgraçado de teu marido. Não temas. Não te deixarei abandonada. Minha família é rica e eu posso dar-te o sustento que tu e teus filhos merecem.

— Mas… Senhor, por que desejais matar o pobre Ruan? O que ele vos fez de tão mau assim?

— Ele  nunca poderia fazer nada contra mim, mulher. Mas ofendeu alguém muito caro ao meu coração. Tentou estuprar e surrou a irmã de meu Senhor Yehoshua. Ela não merecia o que Ruan lhe fez. Vim cobrar a dívida de sangue que ele contraiu comigo e com meu Mestre.

— Foi… Foi Yehoshua quem vos mandou punir Ruan? — Perguntou a mulher com um fio de voz.

— Não. Eu tomei a decisão por mim mesmo. O Senhor é bondoso demais para tomar vingança, mas eu não. Eu me vingo, quando ofendido. E teu marido me ofendeu. Agora, ele vai pagar caro pelo que fez. E te vendo e à tua família com esse homem indigno julgo que a morte é pouca punição para ele.

A mulher curvou a cabeça sobre o peito e, chorando, deixou-se escorregar, segurando-se no portal rústico, até ficar de joelhos diante do discípulo impiedoso.

— Senhor, tomai minha vida em lugar da de Ruan — murmurou com voz apagada. — Eu não posso sustentar nossos filhos sozinha, mas ele é homem, ele trabalha e pode arrumar outra mulher para os trabalhos domésticos.. Eu nada valho…

Ish Qeryoth arregalou os olhos de assombro. Como era possível que aquela mulher se oferecesse para morrer em lugar do criminoso de seu marido? Como podia perdoar ao desgraçado o que fazia e sofrer calada a ingratidão por seus sacrifícios?

— Mulher, levanta-te! Não tens que temer pelos teus filhos. Já te disse que sou rico e posso prover o sustento deles.

— Não sei de vingança que teu Senhor tenha ordenado contra um irmão nosso — disse a mulher com voz sufocada e olhando para Ish Qeryoth com os olhos marejados. — Ele prega a paz, e isto foi o que sempre o ouvi dizer, quando nos fala na encosta do morro. O amor de mãe jamais pode ser substituído pelo ouro, ish Qeryoth. Sim, eu sei que meu Ruan é mau e bruto. Mas em sua rudeza, ele toma conta de nós e eu me sinto segura com ele. Nossos filhos, também. Se tu o matas, como achas que vamos ficar neste mundo?

— Chega de conversa, mulher. Levanta-te…

Yehudhah segurara a mulher pelos ombros para levantá-la e arregalou os olhos, de susto. Ela queimava em febre. Ele a soltou e ela novamente se segurou no portal, cambaleando.

— Estás doente? — Perguntou ele, meio abobalhado.

— Não, ish Qeryoth. Estou morrendo… Não creio que veja o dia de amanhã…

— E teu maldito esposo. Ele sabe de tua situação?

JESUS CURA DOENTES

Yehoshua amava intensamente todas as pessoas. E curava a quantas dele se aproximavam, sempre com o mesmo carinho e sempre com a mesma atenção.

— Sim, ele sabe, sim. E me disse que ia escolher uma nova mulher, jovem e saudável, para tomar meu lugar ao lado de nossos filhos. Talvez, por isto, tenha se aproximado da jovem de quem tu me falaste.

— Ele a surrou. Deixou-a deformada e quase morta. Não é assim que se conquista o amor de uma mulher. Se queria conquistá-la não devia agir daquele modo. E levou consigo um canalha que o ajudou na surra que aplicaram em Ruth. O coxo Jonathan, que também vai morrer pela minha sica. Foram muito valentes contra uma jovem e indefesa moça. Quero ver como se sairão contra mim.

— Ele é apenas um pastor de ovelhas. E sua vida tem sido muito, muito sofrida e dura. Eu… Perdoa-me, estou fraca demais para…

E a mulher caiu desmaiada e queimando em febre nos braços de ish Qeryoth, que sem se dar conta do que fazia, aparou-a antes que ela batesse com a cabeça no chão. As crianças correram para seu lado, chorando e chamando pela mãe, que agonizava nos braços do mau discípulo. Este, repentinamente se sentiu mal e arrependido. Viera matar um homem e terminara por matar uma mãe. Seus olhos miraram uma a uma as faces pálidas e magras e assustadas ao seu redor e seu coração se confrangeu. Então, sem se dar conta, ele rezou: “Yehosua, sei que sou um ímpio revoltado; sei que sou um criminoso condenado; sei que sou mau e que não mereço a honra com que tu sempre me tens distinguido. Mas se posso pedir-te um milagre, peço-te agora: cura esta mulher e se uma morte tem de acontecer aqui, que seja a minha porque não mereço a vida que tenho. Eu a maculo, mas esta mulher honra e engrandece a vida miserável que tem…” O pranto sacudiu o corpo do discípulo rebelde, enquanto ele abraçava com força o corpo ardente de febre da mãe daquelas crianças. E o milagre se fez. A febre cessou. A cor voltou aos rosto da mulher, seus olhos brilharam de vida e seus dentes, estragados pela cárie, ficaram sãos e bonitos. Ela sorria e chorava abraçada ao discípulo pasmo. Ish Qeryoth levantou-se sem dizer nada e saiu em direção ao monte onde sabia que ia encontrar aquele por quem procurava.

Yehoshua chegou à casa de sua família e encontrou seus discípulos desesperados. Mal o viram, e se lançaram correndo para ele em busca de socorro. Mas o Senhor os olhou uma um e com expressão de censura, testa franzida e lábios apertados, abriu com o braço caminho entre eles e passou direto para dentro de casa. Encontrou Míriam, sua mãe, cercada de suas irmãs, todas atarefadas nas labutas da casa.

— Tu os castigaste, não? — Perguntou, beijando sua mãe na face e sua esposa nos lábios.

— Fizeram por onde merecer — disse Míriam de Nazaré, sorrindo. — Mas tu podes devolver-lhes a voz quando te aprouver…

— Não, não. Tu os puniste. Tu lhes devolverás a voz quando julgares ser o tempo certo. Tenho fome. Há comida pronta?

— Toma, irmão — disse Ruth trazendo um copo de vinho para oferecer ao seu irmão amado. — Bebe devagar para mitigar tua fome. Já, já, teremos a comida pronta.

Yehoshua abraçou carinhosamente sua irmã mais amada e aceitou o copo de vinho. Ruth, vaidosa com o amor de seu mano, voltou sorrindo para o fogão e começou a cantarolar sua música predileta. Yehoshua a acompanhou e logo, todos cantavam ali dentro, para espanto e agastamento dos discípulos que, mudos e decepcionados, sentaram-se sob a sombra de uma figueira e se deixaram ficar quietos, cada qual com seus pensamentos. Aos poucos uma pequena multidão foi-se formando ao redor deles, expectantes por ouvi-los e poder ver de perto o homem que assombrava toda a Galiléia. Yehoshua veio ter com eles e se sentou também no solo. A sombra era boa e fresca. O Senhor olhou em silêncio para a pequena multidão e para seus discípulos. Então, falou.

— Eis que vós tendes diante de vossos olhos onze perfeitos membros da comunidade judaica. Meus postulantes. Nenhum deles ainda fez jus ao honroso título de meu apóstolo. E eu lhes digo aqui e agora, e na presença dos que me ouvem: o tempo se escoa depressa e não tereis tempo extra para entender minha mensagem de Amor Fraterno. Somos todos um. Somos todos irmãos diante do Pai Celestial que a tudo criou e a tudo deu de Sua Excelsa Vida. Não deveis separar-vos nem pela cor da pele, nem por nacionalidade, nem por bens nem por ausência deles, pois em verdade em verdade eu vos digo que só  tendes uma Pátria, a verdadeira,  e esta é um dos reinos de meu Pai. Tudo o que vedes ao vosso redor não passa de uma grande ilusão. Uma ilusão onde tendes de experienciar a Vida e aprender a distinguir entre o Falso e o Verdadeiro. O futuro da humanidade vai depender muito do que pregardes ao mundo depois que eu me for. E em verdade em verdade eu vos digo que só regressarei quando chegado seja o tempo da colheita do trigo maduro. E só então eis que o joio será separado do Pão da Vida. E este pão sou eu, entenda quem tenha ouvidos de ouvir e olhos de ver e mente de pensar.

Yehoshua calou-se e se levantou, dirigindo-se para dentro de casa, pois Miriam, sua irmã, o chamava para comer. Mas antes que entrasse em casa, o Senhor viu ao longe seu discípulo rebelde que vinha correndo esbaforido e acenando-lhe com a mão. O Senhor esperou que Yehudhah chegasse até ele e o mirou nos olhos, sorrindo.

— Aconteceu! — Exclamou Yehudah arfante. — Tu me atendeste! Tu a salvaste!

— Erras. Teu amor fez o milagre, ish Qeryoth. Isto me mostra que ainda não estás perdido. E me alegra muito. Vem comigo, vamos comer.

— Mas…

— Eu sei de tudo, homem. Não já te disse? E, a propósito, quem te autorizou a ir atrás da justiça dos homens? Onde escondes tua fé, da qual só lanças mão quando estás em apuros?

— Eu… Eu… Mas… Ela, a mulher de Ruan… Ela se curou!

— Dize-o bem: ela se curou. Seu amor pelos filhos facilitou o trabalho do Pai em atendimento ao teu rogo.

— Pai?! Eu não chamei por nenhum pai. Eu chamei por ti,Yehoshua. E tu…

— Estava aqui, rindo e cantando com minha família. Como podia ter ido atender-te, se não podia nem mesmo te ouvir?

E o Senhor entrou em casa, rindo, enquanto Yehudhah permanecia parado, desorientado, a olhá-lo sem compreender aquele homem misterioso, brincalhão e despreocupado…