JESUS E O SERMÃO DA MONTANHA

Naquela manhã Yehoshua deu uma lição de Mestre em Abel

Era manhã cedo. Yehoshua e os doze estavam reunidos sob uma grande e frondosa figueira. O Mestre orava de olhos fechados e seus doze tentavam imitá-lo sem grande resultado. Em volta do Mestre havia como que uma diáfana luz dourada. Era mais intuída que percebida visualmente, mas todos sentiam que ela estava ali. Já ao redor de cada um deles havia como que uma atmosfera pesada. Yehoshua não dizia palavra, mas seu semblante estava literalmente transfigurado. Uma beleza além da Matéria tornava sua expressão facial algo indescritível. Todos, menos Yehudhah tentavam imitar o Mestre. Yehudhah apenas riscava o solo com um palito. Esperava que aquele momento de êxtase de Yehoshua cessasse para poder ouvir o que ele dissera ter para lhes falar.

YEHOSHUA ALIMENTA-SE EM COMPANHIA DE GENTE SIMPLES

As reuniões de Yehoshua com seus apóstolos não eram calmas, na maior parte das vezes. Eles recebiam dolorosos puxões de orelhas…

Yehudhah foi quem havia corrido quase toda a Palestina em busca dos “desertores”. Fizera-o do modo mais seco e mais simples que podia. Ao encontrar algum deles soltos pela praia ou trabalhando em casa, dizia apenas: “Yehoshua te chama”. E se ia sem olhar para trás. Agora, silencioso, guardava para contar mais tarde ao seu Senhor o que tinha ouvido entre o povo a seu respeito. Era inquietante. Principalmente os boatos que corriam entre os romanos. Estes, pareciam interessados demais na pessoa de Yehoshua.

Finalmente o Mestre cessou sua oração, abriu os olhos e mirou cada um nos olhos. Havia alguma coisa em sua expressão que intimidou todos eles, menos Yehudhah. Este, sustentou o olhar de Yehoshua sem pestanejar. Os outros abaixaram as cabeças, incomodados com aquele olhar de censura.

— Quando eu vos enviei a pregar minha boa nova fi-lo ordenando expressamente que fôsseis para a vila de Nazaré. Entretanto, três tolos foram pregar em Séforis, onde há um braço do Grande Sinédrio e onde pelo menos cinco rabis andam furiosos comigo. Por extensão, convosco também. Por que tentastes voar tão alto?

— Estávamos tomados de grande entusiasmo — disse Cefas, secundado por acenos de cabeça de seus colegas — e queríamos provar a nós mesmos de que éramos capazes de falar como vós o fazeis.

Yehoshua olhou nos olhos de seu apóstolo e este se encolheu. Naquele momento gostaria que a terra o engolisse.

APÓSTOLO PEDRO - SIMÃO BARJONAS

Yehoshua gostava muito de Cefas, mas este nem sempre entendia o Mestre.

— Por que mentes? Pensas, Cefas, que com mentiras e bajulações podes agradar-me? Por acaso não vos tenho dito, a todos vós, que sou o Filho de nosso Pai Celestial? Desde quando se compra a confiança e a simpatia do Filho do Homem com palavras vãs? Isto é apanágio dos pecadores cujas almas já se encontram condenadas. Não enveredeis por este caminho, pois que ele não tem volta. Tentastes, há pouco, orar como eu o fazia. Mas como podeis orar verdadeiramente se tendes peso em vossas consciências e vos envergonhais de lutar para se livrar dele primeiro, antes de elevar a face ao Criador que tudo vê em cada um de vós?

Em verdade em verdade eu vos digo: não se pode agradar a Deus e à Alma ao mesmo tempo. Eis que Um deseja que voeis alto, muito alto, na bem-aventurança do Pai; e a outra deseja que mergulheis fundo, muito fundo, nos prazeres da carne. A alma se envergonha do que é e de como age. Por isto, vive procurando a sombra da Mentira e do engodo para passar despercebida. Pode obter sucesso entre suas iguais, mas jamais o obterá diante d’Aquele que vos deu a Vida e o direito de vivê-la dentro da Ordem da Verdade e da Lei do Amor. Enquanto não confiardes no Pai que vos habita, não sereis dignos de mim. Nunca tenteis voar antes de criardes penas. Não o conseguireis. Já vos tenho dito e agora repito: deixai a idéia de que sois hebreus. Não sois senão homens filhos do Criador de Todas as Coisas. Os gentílicos não honram a nenhum filho do Pai, meus irmãos. Apenas neles embotam a consciência e lhes retiram a capacidade da humanidade. A Terra que Meu Pai vos deu não tem fronteiras. Mas vós as criastes para vos separardes e alimentar em vós, em vossas almas, a distinção entre as carnes de que sois constituídos. Mas eu vos digo que nenhum de vós difere de qualquer outro. Só a aparência externa vos dá essa ilusão perigosa. No entanto, a centelha do Pai que vos mantém vivos, ativos e pensantes, não difere de qualquer outra. O diamante não se avalia pelo cetim ou pelo veludo onde repousa. O diamante é diamante no sol ou enterrado na lama. Ele não se macula pelo exterior. Assim é o Espírito que vos habita. Nunca conseguireis ser ouvidos, nem mesmo pela centelha divina que mora em vossos interiores, enquanto não abandonardes todas estas riquezas da alma e assim despidos vos apresentardes diante do Pai que vos habita. Não dareis um passo sequer em minha doutrina se não vos tornardes iguais a mim. Eu não sou diferente de vós. Apenas me elevei, por meus próprios esforços, para chegar à altura em que estou. Mas o caminho é aberto para todo aquele que compreender a Mensagem de Amor que eu vos trago para que a repasseis a todos que vos ouvir, quando eu me for. E não podereis fazer a difusão de minha mensagem se não creiais nela em primeiro lugar.

Yehoshua levantou-se e com um aceno de mão chamou aos seus discípulos para que o seguissem. Dirigia-se a passos firmes para Séforis.

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Yehoshua sempre ia aonde precisava que algo acontecesse que marcasse sua passagem entre os homens.

Quando o pequeno grupo chegou às primeiras ruas da cidade, começou a se formar ao redor deles e a acompanhá-los um grupo de pessoas que logo aumentou e se transformou em grande multidão. Os guardas romanos notaram aquilo e se inquietaram. Os centuriões que estavam de serviço mandaram ordenar aos seus comandados que agissem com toda a firmeza possível, até mesmo matando os que provocasse agitação na cidade. Yehoshua caminhava firme e sem se importar com o povaréu que se acotovelava nas ruelas estreitas de Séforis para o seguir. Alguns gritavam por ele pedindo cura para seus sofrimentos físicos. O Mestre não lhes dava ouvido e prosseguia a passo firme em direção do Templo da cidade. Yehudah olhava preocupado para a multidão que crescia. “Isto não vai acabar bem” pensou ele e tocou no braço de Mateus para lhe chamar a atenção. Sem interromper o passo Mateus olhou para Yehudhah.

— Tens idéia de para onde estamos indo? — Perguntou Yehudhah.

— Não. Mas Ele parece que está decidido ir até o Templo da cidade. No entanto, não sei a razão.

— Séforis está cheia de romanos. A agitação que Yehoshua tem causado e seus conflitos constantes com os rabis que postulam neste templo tem deixado inquieto tanto Jerusalém quanto o Prefeito. Vir aqui, depois que três dos nossos foram postos a correr é uma temeridade.

— E desde quando o Senhor teme alguma coisa, sabes dizer?

Naquele exato momento Yehoshua pareceu tropeçar em algo, perdeu o equilíbrio e teve de se apoiar nos ombros de Cefas para não cair. Ele parou a caminhada e se voltou parecendo procurar alguma coisa, enquanto perguntava com voz muito alta:

— Cefas, quem me tocou?

Cefas olhou em volta e de novo para o Mestre.

— Não sei, Senhor. Há muita gente aqui. 

— Alguém me tocou. Senti uma grande energia saindo de mim.

Uma mulher, que se arrastava pelo chão, chegou até os pés de Yehoshua e, chorando, disse em voz trêmula.

— Fui eu, Senhor. Eu toquei vosso haluk. Tinha a esperança de conseguir a cura para a hemorragia que vem minando minhas forças há mais de quinze dias… Perdoa-me, se fiz mal…

A mulher deitou a cabeça sobre o braço dobrado e ficou ali, estendida no chão, quase um trapo como os andrajos que trajava. Yehoshua abaixou-se e lhe tomou a mão, pondo-a de pé. Então, por um tempo permaneceu olhando-a nos olhos. Então, com voz forte que foi ouvida por todos ele falou e disse:

— Mulher, vai! A tua fé te salvou.

Súbito silêncio se fez ao redor do grupo. A mulher, que tremia muito quando fôra erguida pela mão forte do Mestre, passou a apalpar o ventre com expressão de espanto. Então, com olhos arregalados mirou a face sorridente de Yehoshua e gritou alto:

— Jeovah seja louvado! Eu estou curada! Não sinto mais as dores atrozes que me martirizavam! Bendito o que vem em Nome do Senhor!

A multidão ecoou com euforia a última frase gritada pela mulher. Mas Yehoshua já não estava mais parado ali e já dobrava a esquina enquanto a multidão cercava a mulher, todos querendo ver com os próprios olhos o milagre vivo que ela era.

Enquanto isto acontecia na cidade, dentro do Pequeno Templo Abel andava de um para outro lado dentro da sua casa, copo de vinho na mão, bebericando goles do líquido vermelho sem se dar conta nem mesmo de seu sabor, pensamento fixo no fiasco na sinagoga; pensamento às voltas com o que lhe acontecera. E havia o tremendo perigo que se materializara diante dele, em Simeão, o itinerante. O velho rabi se deixara cativar pelas falaciosas pregações do agitador de Nazaré. Agora, ele e seu comparsa, o jovem rabi Samael, que apoiava irrestritamente a Simeão. E havia os outros três, Matheus, filho de Miquéias, Samuel, filho de Joabe, e Ezequiel, filho de Abel, filho de Mathias. Eles não integravam o Sinédrio, mas eram rabis e, juntos, podiam fazer grande estrago se se bandeassem para o lado do agitador de Nazaré. Abel chamou Levi, o companheiro de Ish Qeryoth, e o mandou buscar estes rabis. Que os trouxessem nem que fosse a rastro. Não demorou para que tivesse diante de si o pequeno grupo de rabis dos quais suspeitava.

— O que desejas conosco, Abel? — Perguntou Samael — Por que este homem nos foi buscar de modo tão brusco?

— Não sabeis?! O curandeiro de Nazaré está aqui, em Séforis. Neste momento mesmo já se diz que prodigalizou uma mulher do povo com uma cura.

— Ora, isto não é novidade! — Exclamou Simeão, dando de ombros. — E sim, nós todos estamos sabendo de sua presença aqui. Mas o que tem isto demais? Ele é livre para ir aonde desejar e tem o direito de pregar o que desejar.

—NÃO! — Urrou apoplético o rabi Abel. — Ele não tem o direito de ofender a Torá! E ele o faz!

— Eu o acompanhei em vários momentos de suas pregações e não vi nada do que tenha dito que sequer fira as Leis da Torá. É certo que zomba e discorda e prega a rebeldia contra a Torá Falada. Mas aqui entre nós, ela bem que contém idiotices que envergonham nossas sagradas Leis Escritas — Disse Samuel, filho de Joab, com um sorriso maroto na face.

Abel tremia de raiva, mas procurou se controlar. Com os punhos fechados ele permaneceu um tempo, olhar fixo no solo. E foi quando seus olhos caíram sobre uma moeda no chão que uma idéia luminosa lhe veio à mente.

— Sigam-me! — Gritou, caminhando até à moeda e a recolhendo na mão direita. — Eu vou fazer que aquele miserável se enrole em suas próprias palavras.

Curiosos, os outros rabis seguiram o furioso Abel que, agora, tinha um brilho estranho e mau no olhar e na expressão facial. Ele foi direto a um centurião e lhe solicitou que o acompanhasse com uma guarda, pois estava certo de que eles teriam de prender um agitador que tanto perturbava o Templo de Jerusalém quanto o próprio Prefeito Pôncio Pilatos. O centurião permaneceu um tempo olhando na face de seu interlocutor. Não gostava de judeus e de seus rabis menos ainda. Mas ao ouvir que tinha a chance de prender um agitador que perturbava o Prefeito vislumbrou algum ganho para si e, sem dizer nada, encaminhou-se para onde estavam seus comandados, escolheu dez dentre os mais fortes e sem uma única palavra se postou ao lado de Abel. Este, satisfeito, empreendeu a marcha em busca de Yehoshua. Tinha a certeza de que, agora, o feiticeiro de Nazaré se daria mal.

Yehoshua chegou perto dos muros do Pequeno Templo, escolheu uma elevação para melhor ser enxergado pelos que acorriam para onde ele e seu grupo estava e começou a pregar.

— Vejo aqui os desamparados dos povos israelitas e romanos. Vejo corações angustiados; vejo mentes impotentes e revoltadas. Vejo uma multidão de irmãos e irmãs que não receberam a atenção devida dos que foram bafejados pela boa sorte nos bens terrenos. Nem mesmo os rabis se condoem das dores, dos sofrimentos e da terrível solidão que há entre os que para cá afluem esperançosos de obterem de mim um milagre que os cure de seus males físicos. No entanto, irmãos meus, eu vos digo que muito de vós fizeste por merecer as dores que vos afligem. Como trazer a ovelha rebelde tresmalhada ao aprisco, se o pastor não usa de sua vara para lhe mostrar o caminho certo? Muitos de vós, a maioria mesmo, sofreis apenas porque agistes mal convosco mesmos. Colhestes as dores e os sofrimentos que vos atormentam porque agistes com irresponsabilidade para com vossos corpos e com vossas vidas. Eu não curo a ninguém. Meu Pai faz isto e só ele tem este poder. Como está comigo onde quer que eu vá, eis que Seu Poder me acompanha e é ele quem prodigaliza os milagres que buscais. Mas eu vos pergunto: de que adianta o médico promover a cura do doente se este, quando a consegue, volta a praticar os mesmos atos que o adoeceram anteriormente? Se desejais a cura de vossas dores, então, primeiramente, buscai refletir sobre vossos…

Yehoshua calou-se o seu olhar se fixou no grupo de rabis e romanos que rompiam a mole humana e vinha diretamente em sua direção. O grupo veio postar-se diante do Mestre, os romanos afastando com brusquidão os discípulos que, surpresos, não ofereceram resistência. Só Yehudhah levou a mão à sica, mas seu olhar cruzou com o de seu Mestre e percebeu o leve aceno negativo que ele lhe fez com a cabeça. Então, contrariado, levantou-se para dar passagem ao grupo hostil.

Abel, então, falou.

— Mestre, sabemos que dizes sempre a verdade e que és justo em teus juízos. Diz-nos, então. É correto que paguemos impostos a Roma?

Um pesado silêncio se fez. Abel tinha levantado uma questão muito delicada, muito sensível tanto a romanos quanto a hebreus. Os legionários logo compreenderam que o rabi tentava colocar o milagreiro em uma situação sem saída. Se o homem disse que não, eles o prenderiam por incitação à insurreição contra o Império. Se o homem dissesse que sim, levantaria contra si a ira dos hebreus. O milagreiro estava numa bela enrascada.

Yehoshua se manteve calado, olhos fixos na face de Abel. Seu silêncio começou a pesar como uma pedra sobre a cabeça do rabi e este já estava pensando que não fôra uma boa idéia ir provocar aquele homem assim, afoitamente.

— Mostra-me o denário que tens em tua mão — ouviu-se a voz forte de Yehoshua ordenar. Pigarreando sem jeito, Abel estendeu a moeda a Yehoshua que a segurou e a olhou atentamente por um tempo demasiadamente longo, segundo o legionário que comandava a guarda. Então, estendendo a mão aberta com a moeda em sua palma, O Rei dos Reis perguntou:

— De quem é a efígie que está aqui, neste lado da moeda?

— De César, o Imperador de Roma — disse Abel, contente. O milagreiro, enfim, caía em sua armadilha. Mas sua alegria durou pouco. Quando Yehoshua falou ele se encolheu como um rato e olhou de soslaio para o centurião que prestava atenção no belíssimo homem diante de si.

— Então — disse Yehoshua — dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. A César não importa o Espírito, pois César governa sobre as riquezas e os impérios dos homens. Mas Meu Pai não atenta para as coisas da Terra e governa sobre as coisas do Espírito. Não há porque haver choque entre os dois, não é? Ou alguém tem algo mais a dizer?

Transcorreu um longo momento onde o silêncio pesou sobre todos. Então, a voz do centurião se fez ouvir.

— Ele está certo. Tu nos trouxeste aqui à-toa, hebreu. Da próxima vez que fizeres isto vais levar trinta chibatadas sendo ou não, líder entre teu povo. Vamos embora!

Os legionários se retiraram. Os rabis os seguiram pressurosos e atemorizados. Ainda tinham na mente a face endurecida e o olhar acusador de Yehoshua para Abel. Nenhum deles gostaria de receber um olhar daqueles daquele Justo.

A multidão se distraiu um momento olhando para o grupo que se retirava às pressas e quando as cabeças se voltaram para procurar por Yehoshua não havia ninguém mais naquele lugar. Nem ele, nem seus apóstolos. Para onde teriam ido?