Yehoshua sempre ensinava aos seus apóstolos ocultamente coisas que só milênios depois os homens comuns descobririam.

Depois do último encontro secreto com seus apóstolos, Yehoshua tirou dois dias para ficar com sua esposa. Subiram o altiplano onde se situava a cidade onde nascera a Mãe do Filho do Homem, Séforis, e passearam por suas ruas como qualquer casal comum. Gabriel cuidava de fazer que o povo não reconhecesse o Mestre a fim de lhe permitir momentos de sossego, visto que tão logo era notado uma multidão de desesperado se formava como um cortejo macabro a lhe seguir com choros e súplicas, muitas até absurdas. Na manhã do segundo dia, Míriam preparou uma cesta para um piquenique e os dois foram acampar às margens de um riozinho de águas límpidas e frias, que corria calmamente sob a sombra da mata entre dois morros. Ali, comeram, riram, banharam-se e se amaram ardentemente.

Era noitinha quando, finalmente, o casal retornou à morada do amigo de Yehoshua. Jantaram na companhia de todos e o Mestre chamou seus apóstolos para com eles se reunir. Sua família foi junto, mãe, esposa, irmãs e irmãos. Yehoshua cantou e sua voz era maviosa e bela. Todos o acompanharam no cântico que, surpreendendo a todos, não era voltado para a adoração de Yaveh, como geralmente eram as músicas cantadas pelos hebreus não pecadores.  Yehoshua cantava a Natureza, os rios, as matas, os animais e o mar. Ele improvisava a letra tanto quanto a música e repetia o canto a pedido, pois todos queriam aprendê-lo.

Assim a Igreja imagina que fosse o Apóstolo Tomé. Na verdade, ele jamais teve este ar de otário…

Já passava da nona hora noturna (21 horas no nosso horário) quando seus familiares começaram a se retirar seguidos pelos donos da casa. Yehoshua tinha parado de cantar e conversava amenidades com seus apóstolos. Quando finalmente estavam apenas ele e seus apóstolos, Thomé pigarreou para chamar a atenção de todos e falou para perguntar:

— Senhor, tens-nos dito que dentro de cada um de nós habita uma centelha imortal que é uma faísca de vida emanada de nosso Pai Celestial. Também tens-nos afirmado que, por isto, por causa desta centelha, somos deuses e imortais.

Todos se voltaram para Thomé, interessados no que ele poderia querer perguntar. Sabiam que quando algum deles fazia uma pergunta Yehoshua aproveitava para ministrar ensinamentos preciosos, que lhes abriam cada vez mais as mentes.

— É verdade, eu vos disse isso. Por que?

— Bom — e Thomé pigarreou repentinamente inseguro — também nos disseste que nosso Pai Celestial é a Perfeição Absoluta, não foi?

— Perfeitamente — confirmou Yehoshua com voz tranqüila.

— Não é que eu esteja duvidando do que nos disseste, Senhor. É que estou confuso…

— Fala, Thomé. Aproveita que ainda estou entre vós. O que te angustia?

— No nosso último encontro reservado, se não estou enganado, foram vossas estas palavras: Entretanto, este tempo pode ser abreviado se o homem se entrega a vícios danosos à saúde de seu corpo, como a bebida ou a prática de atividades danosas para o corpo”

— Sim, eu as disse. Por que tu mas recorda, agora?

— Bom, se nosso Pai Celestial habita em todos nós na centelha imortal que nos dá a Vida; se Ele é a Perfeição, então como é que nós, homens e mulheres, caímos em tentação? Como é que praticamos atos danosos ao corpo que Ele nos deu? Por exemplo: como é que nos deixamos escravizar aos vícios da carne, como o vício da bebida, o vício da gula, o vício da mentira, o vício da luxúria… Todos estes vícios são senhores de todos nós, homens e mulheres. Se o Criador de todas as coisas sabia que eles existiam, e se também sabia que seríamos fracos diante deles, então, por que nos criou justamente no meio deles? E por que, habitando em cada um de nós na forma da centelha de Vida Eterna que tu nos afiançaste que Ele é em nós, não tem o Poder de nos livrar de tais tentações?

Todas as cabeças acenaram afirmativamente em apoio ao que Thomé expressara com muita clareza. Yehoshua sorriu um sorriso de satisfação. Thomé tomava a iniciativa de questioná-lo quando uma dúvida lhe surgia. Ele desejava ardentemente que todos tivessem espontaneamente esta iniciativa.

Yehoshua sentia-s feliz e gratificado quando seus discípulos o questionavam para aprender e compreender.

— Muito bom que o homem questione o Homem, Thomé. Não sou alguém a quem vós deveis temer e reverenciar como se fôsseis diferentes de mim. Somos iguais, pois todos somos Filhos do Supremo. Agora, vamos à tua dúvida que, pelo que vejo, também é a da maioria de vós.

Eu também vos disse que vós sois trinos. Tendes um corpo que possui uma vida incipiente, própria dele, e que, por isto mesmo, tem necessidades totalmente materiais, visto que ele é filho da matéria. Sente fome, pois tem necessidade do alimento para sobreviver; sente sede, pois tem necessidade da água para sobreviver; sente necessidade de expelir as fezes, visto que elas podem apodrecer no interior das vísceras e causar a morte do corpo; também sente necessidade de urinar, visto que a água suja tem de ser expelida do corpo para dar lugar a outra, limpa. Etc…

Tendes uma Alma que é mortal e é fruto da educação que recebeis tanto em casa quanto no meio social em que viveis. Esta alma tem defeitos, pois é criada segundo as crenças sobre o que seja Verdade ou Falsidade, Certo ou Errado, na época em que a pessoa vive. E esta alma está além do corpo orgânico que sentis como vosso e que vos parece ser vós mesmos. Enquanto vosso corpo de carne vive pelos desejos primitivos da alimentação, da dessedentação e da busca pelo prazer do coito, além de outros desejos primitivos como o de segurança, o de controle do meio, o de fuga e o de proteção, vossa Alma Mortal, fruto dos conceitos e preconceitos sociais do momento em que viveis, busca adequar a vida primitiva do corpo ao que a Sociedade determina como sendo o certo e o justo. A Sociedade foi criada pelas Almas Mortais de vossos antepassados e é transformada e alterada de conformidade com a vontade dos que vos dirigem no momento em que viveis, como é o caso de Pôncio Pilatos, o Prefeito Romano para a Palestina; e de Caifás e Anás, os líderes dos hebreus neste momento da vida na carne. Pela necessidade de organização e vida em harmonia e paz, vossas almas mortais vos dirigem para a busca de líderes que vos ordenem o viver e o conviver. E como o meio natural sempre está em mudanças, quer pelas características mesmas da Terra, quer porque vós alterais estas características em função de vossas necessidades físicas, vossas sociedades necessitam de se adaptar às épocas e às mudanças naturais ou artificiais que acontecem sobre a Terra. Para tanto, os grupos humanos precisam que surjam entre eles líderes que tomem a si a carga pesada de ordenar do melhor modo possível a vida e sobrevivência dos integrantes destes grupos. Estais entendendo? Sei que falo de coisas que são absolutamente novas para vossas mentes…

— Estamos, Senhor, estamos sim — disse, entusiasmado, Cefas.

— Bom — prosseguiu Yehoshua —, as duas entidades que vos compõem materialmente necessitam de uma terceira que, por mínimo que seja, influa no conjunto dos dois para que busquem sempre aprimorar o modo de vida que adotam e procurem sempre a Verdade, a Harmonia e o Amor Incondicional à Vida, pois sem este Amor, vós vos destruiríeis irremediavelmente. Esta terceira entidade é a Centelha do Pai que vos habita. 

Agora, respondendo ao belíssimo questionamento colocado por Thomé, O Pai que vos habita não está plenamente desperto nas pessoas do mundo todo. Em alguns, ele já se mexe e começa a abrir os olhos, como é o caso dos que se tornam monges nos mosteiros de Hemi e em outros centros religiosos verdadeiros. Em outros, ele dorme profundamente e quem domina a entidade humana é a Alma Mortal, como é o caso da maioria dos líderes entre os homens. E como a Alma Mortal é nascida do meio social e vive toda voltada para ele e por ele, ela não é perfeita e é a causadora da queda do homem nos vícios da carne. Enquanto ela comandar a entidade humana, esta não conseguirá sair desta condição horrível. Tal só lhe acontecerá quando, através das migrações do Espírito, ela for cedendo lugar à Luz da Centelha do Pai no Homem. Compreendestes? Não é que nosso Pai que vos habita vos deixe cair em tentações; é a alma mortal que criais por força de vossa necessidade premente de proteção, defesa e multiplicação de vossa espécie que erra sistematicamente porque é mortal como mortal são as vossas criações, sejam físicas, sejam intelectuais.

Yehoshua calou-se e perscrutou as faces de seus apóstolos. Também estudou os ovos áuricos de todos eles e viu quais o tinham compreendido plenamente e quais ainda estavam confusos com o que tinham acabado de ouvir. Mas não agiu para esclarecer os que ainda estavam confusos. Estes, aprenderiam com o tempo de vida que teriam pela frente.

— Senhor — chamou Matheus — Tu nos disseste que o Pai também é trino. Então, Ele também tem um corpo material? Se tem, onde está?

— Bem lembrado, Matheus, bem lembrado. Sim, nosso Pai é trino e os rabis nos dizem que Ele é simultaneamente o Pai, o Filho e o Espírito. Explico. O Pai é o Filho enquanto Criação; é o Espírito, enquanto Aquele que Imagina e Cria as Formas, e é o Pai enquanto Aquele que Abriga dentro de si mesmo toda a Criação.

— Então — disse Yehudhah, sempre atento ao que seu Mestre falava — o Pai também é a Mãe?

— Disseste-o bem, Yehudhah. O Pai também é a Mãe. Ele é o Pai enquanto o Ser que tudo Ordena e põe em Ação segundo Leis Imutáveis;

Ele é a Mãe enquanto o Ser que tudo Sonha e Imagina após o término de toda uma Criação Sua. Enquanto Ser que Sonha e Imagina, a Mãe é Eterna e Passiva.

O Ato da Criação é Infinito, é Ativo e é Progressivo. Logo, o Pai também é Infinito, é Ativo e é Progressivo. E enquanto Ativo, Infinito e Progressivo, o Pai também é Eterno.

O Ato da Imaginação é o Ato do Sonho, logo, é Gestacional. Enquanto está neste Ato, o Pai é a Mãe que vai parir a Criação.

O Ato da Ordenação na Ação é o da Formação e Transformação, isto é, é o ato de dar forma à matéria e colocar estas formas em Ação e Transformação até seu fim. Enquanto o Ser que tudo ordena e põe em Ação a Mãe é o Pai que Educa e ajuda na Maturação da Criação.

Então, enquanto existe uma Criação, o Pai é simultaneamente Mãe também. Ele Cria, mas Educa e zela pela Evolução... Ele é Luz e Treva. A Luz do Conhecimento e a Treva da Ignorância. Sua Criação sempre se inicia na Treva da Ignorância e daí evolui para a Luz do Conhecimento. E só quando chega a este Estágio, a Criação está pronta para o Estágio seguinte: o da Sabedoria. Então, tudo se deifica…

Gabriel sorria de seu Mestre. Ele estava empolgado e falava coisas que seriam difíceis as mentes incipientes de seus escolhidos apreenderem. Por isto, decidiu ajudar e fixou naquelas mentes não somente as palavras de Yehoshua, mas também a compreensão do elas significavam…