Yehoshua amava sua esposa Míriam de Magdala e sempre que podia estava ao seu lado.

Yehoshua desceu em direção a Cafarnaum, ignorando a festividade que os rabis locais levavam a cabo na movimentada Séforis. Seus discípulos e seus apóstolos o seguiam em silêncio, mas intimamente todos estavam aliviados pelo fato de o Senhor ter optado por não ir provocar os beligerantes rabis que o detestavam. Como sempre, o Mestre seguia bem à frente de todos, com suas passadas elásticas e fortes. Mas desta vez tinha companhia, pois o general romano se mantinha galhardamente ao seu lado. Ambos, porém, caminhavam em silêncio.

Bem atrás de todos vinha a família de Yehoshua, inclusive Míriam de Magdala, sua esposa. Estavam na entrada da cidade quando do grupo se aproximou um leproso. Vinha coberto com lençóis sujos e procurava evitar o contato com as pessoas que, àquela altura, já começavam a se agrupar e a seguir, ansiosos e temerosos, o Rei dos Reis. Ao verem o Mestre de Nazaré as pessoas encaminhavam-se às pressas para se juntar às outras, na esperança de obterem dele algum milagre, quer fosse para suas mazelas físicas, quer fosse para o melhoramento de seus negócios com o aumento de lucros, quer fosse na esperança de que ele fizesse que suas lavouras dessem mais e melhores frutos. Os pastores ansiavam por um milagre que fizesse que suas ovelhas não morressem atacadas por insetos peçonhentos, víboras venenosas e predadores naturais. As esperanças eram as mais variadas, embora Yehoshua já tivesse deixado bem claro a muitos dentre eles que não prodigalizava milagres em atendimento a desejos materiais e mesquinhos. Talvez por isto, a turbamulta mantinha uma distância prudente.

Yehoshua cura um leproso. Mas o Mestre abaixou-se a abraçou o doente, ajudando-o a se pôr sobre as pernas.

Com muita dificuldade e levando empurrões grosseiros, o leproso conseguiu chegar diante do Mestre. Este, sustou o passo e segurou o forte braço do general que automaticamente tinha sacado do seu inseparável gládio.

— Onde enxergas perigo nesse homem? Nem armas ele porta. Então, guarda teu gládio e apenas observa.

Sem dizer nada, Yehoshua sustou a caminhada e permaneceu quieto, mirando interrogadoramente o leproso que, humildemente tentava de algum modo dar uma explicação para ter tido a coragem de se chegar ao grande milagreiro de Nazaré. Entre lágrimas e com voz entrecortada, cabeça curvada sobre o peito, o homem se ajoelhou diante de Yehoshua e murmurou aos soluços.

— Por piedade, perdoa-me, rabi. Eu… Eu sonhei por muitos dias e noites poder encontrar-me contigo. Em minha caminhada até aqui fui apedrejado e surrado pelos que não têm caridade para com gente como eu, amaldiçoados de Yavé. Mas agora, que aqui estou, sinto que sou um miserável amaldiçoado de Yavé e não tinha o direito de vir perturbar-te com minha desgraça. Mas… mas… tem piedade de mim…

O povo, à distância, não ouvia o diálogo entre o Mestre e o leproso, pois este falava entre soluços, o que atrapalhava o som de suas palavras. Mas estavam em grande expectativa sobre o que ia acontecer lá onde o pequeno grupo do Mestre e seus Apóstolos tinham parado.

— E por que eu deveria me apiedar de ti? — E a voz do Mestre soou estranhamente dura e áspera, o que fez o romano voltar o olhar para ele, intrigado. Por que Yehoshua parecia zangado com o miserável que se prostrava diante de si?

Entre soluços que lhe sacudiam todo o corpo, o leproso respondeu.

— Senhor, eu sei que pequei em pensamentos, em palavras e em obras. E bem mais nestas últimas que nas primeiras… Fui cego até quando ouvi de ti. Mas tuas palavras… teus ensinamentos… tudo o que ensinaste e ensinas me tocaram a alma e eu… eu me arrependi de meus erros e meus crimes… Mas meu arrependimento não é suficiente se tu não me concederes teu perdão…

Várias vezes Yehoshua pregou em Cafarnaum e muitos de seus milagres ali aconteceram.

O pranto sacudia violentamente o pobre corpo maltratado do miserável leproso e a multidão silenciosa e expectante observava o que acontecia ali. Então, Yehoshua suavizou sua expressão dura e se abaixou. Com carinho abraçou o corpo cheio de chagas do homem ferido e lhe puxou a cabeça para seu ombro.

— Eu vi tua dor e vi teu arrependimento sincero. Não mais mereces sofrer pelos erros que cometeste em tua vida. Pagaste alto tributo por eles. Também vi que muitos te julgaram e gritaram contigo dizendo que eras possesso do Diabo, mas em verdade em verdade eu te digo que o que mais te feriu foi a incompreensão de teus irmãos. Levanta e retoma tua vida, pois por minha vontade tu estás livres da lepra que te afligia.

Alguns dos apóstolos e uns poucos discípulos que cuidavam de manter a turba longe do Mestre viram, boquiabertos, uma luz dourada intensa envolver os dois homens abaixados. Fui um instantâneo e não dava para se afirmar com certeza que aquilo tinha acontecido, pois a maioria esmagadora não parecia ter visto o estranho fenômeno. Mas quando Yehoshua, amparando o leproso, se pôs de pé e fez que o homem se levantasse com ele, o milagre tinha acontecido. O leprosa estava totalmente são e era um homem muito bonito e forte. Boquiaberto, o General romano deu um passo atrás e olhou com certo temor para aquele que até ali tinha considerado como seu inferior. Ele passeou os olhos pela multidão silenciosa que, tal como ele mesmo, também olhava com temor para Yehoshua.

“Quem é esse homem? De onde veio? Ninguém na terra tem tamanho poder! Ele sempre me pareceu um simples judeu. Simpático e comunicativo, autoritário e sorridente… Mas um homem. Mas agora eu me pergunto: é ele humano?”

— Segue teu caminho, Esdras de Emaús. Tua família há muito te espera. Mas não alardeies o que te aconteceu como se tivesse sido meu único galardão. Na verdade, o Pai que te habita ouviu meu pedido e te curou. Agora, vai e te mostra ao sacerdote do templo de Cafarnaum e faze a oferta que ordenou Moisés, para lhe servir de testemunho de que nada que te aconteceu foi obra de demônio nenhum, mas sim a Vontade do Pai que nos habita — disse Yehoshua. E Esdras, com olhos cheios de lágrimas de alegria, beijou as mãos do Mestre e saiu correndo ignorando os que tentavam dele se aproximar. Obedecia a Yehoshua e não estava disposto a comentar nada sobre o que lhe tinha acontecido ali.

Aos prantos de felicidade, Esdras de Emaús se foi. Yehoshua se manteve quieto até que os murmúrios da turbamulta silenciasse diante de seu olhar censuroso e duro. E quando o silêncio se fez, ele, voltando-se para o General romano sorriu e disse, com um olhar divertido na face fagueira.

— Sou um homem como tu, general. Por que duvidas disto?

E sem esperar uma resposta do espantado militar romano, o Mestre retomou a caminhada para a praça principal da movimentada Cafarnaum. Ali, tomou assento junto ao poço onde todos vinham buscar água e esperou que seus seguidores tomassem assento ao seu redor. A multidão que os acompanhavam estava silenciosa e receosa, mas aos poucos também foi-se sentando e logo havia um mar cabeças em total expectativa.

— Qual é o maior tesouro que o homem tem a seu dispor?

A pergunta foi feita em voz alta e alcançou até os que estavam a mais de cem metros do pequeno grupo de iniciados e seu mestre Yehoshua. Ninguém se atreveu a responder e o silêncio se tornou pesado sobre a multidão que cada vez mais aumentava. O general romano a tudo observava atentamente e, também ele, se fez a pergunta de Yehoshua, mas sem encontrar uma resposta que julgasse boa para o estranho judeu que o tinha ao lado.

Antes que alguém pudesse dar alguma resposta, um centurião romano abriu passagem por entre a multidão e se aproximou do Mestre. Ele não reconheceu o general que, em roupas hebraicas, sentava-se ao lado de Yehoshua.

Assim se pintou Yehoshua e o centurião que lhe veio pedir a cura de seu criado.

O centurião veio postar-se diante do Mestre que o olhou impassível e esperou que falasse. Então, pigarreando e abaixando os olhos, o militar falou.

— Senhor, tenho ouvido sobre ti e o que contam me animou a vir à tua presença. Sei que não sou digno de estar aqui, pois não sigo nenhum dos preceitos da nova Lei que pregas entre teu povo. Mas não sou um homem mau. Cumpro com minhas obrigações porque a elas estou aprisionado. E desde que soube do que ensinas tenho tentado ser menos rígido e mais humano. Tenho evitado ser orgulhoso e procuro ajudar outros homens que não são romanos, como eu. E em missão, sempre que posso, evito matar e procuro dominar meu inimigo sem ferimentos graves, pois sei que o assassinato não é bem-vindo aos teus olhos. Tenho buscado praticar a bondade e a caridade tanto quanto elas me sejam possíveis, considerando o cargo que ocupo no Exército de Roma. E dito isto sobre mim, Senhor, quero falar da razão de eu estar aqui, diante de vós, com o coração confrangido pela dor que sofre um homem a quem muito estimo.

Tenho um criado meu que está a meu serviço há muitos anos. Agora, ele se encontra paralítico e sofre muito com a doença que o acometeu e os médicos não conseguem curar. Geme a noite toda e várias vezes o tenho pegado em lágrimas. Ele me pede, insistentemente que o mate para livrá-lo do sofrimento, mas eu o amo como a um filho e a ele devo minha vida mais de uma dúzia de vezes. Não tenho coragem de assassiná-lo, mesmo que seja para o salvar do sofrimento atroz em que se debate dia e noite. Tenho chorado em desespero, com ele. Então, ouvindo sobre ti e teus milagres, decidi vim pedir-te que lhe dês a cura. Não sei se sou digno nem mesmo de me colocar diante de ti, mas sempre ouço dizer que tu és generoso e que não nos odeias, a nós, romanos.

O centurião ajoelhou-se, curvou a cabeça e com os olhos marejados de lágrimas voltou a falar.

Esta cena cinematográfica representando Jesus e o centurião ficou famosa, mas o romano não tinha esta postura arrogante.

— Senhor, eu não sou digno de estar em vossa presença, mas se quiserdes, podeis curar meu criado… E podeis pedir de mim qualquer sacrifício, minha própria vida em troca da dele, e eu lha darei sem raiva nem censura…

Fez-se silêncio e os que estavam próximos de Yehoshua ouviam o soluçar constrangido do militar romano. Yehoshua pôs-se de pé e falou bem alto para ser ouvido por todos.

— Em verdade, em verdade eu vos digo que nunca, antes, encontrei tamanha fé em um homem. Irei contigo, centurião, e curarei teu criado.

Ainda de joelhos e olhos pregados no chão, com dificuldade devido ao pranto que chorava, o centurião romano respondeu.

— Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e meu criado será salvo. Pois também eu sou homem sujeito a outros e tenho soldados às minhas ordens. E quando digo a um “vai acolá” ele me obedece. E se lhe ordeno “vem aqui”, ele vem. E se digo aos meus servos: “fazei isto” eles me obedecem. Então, senhor, se disserdes que meu criado está salvo, sei que ele assim estará quando eu chegar de volta à minha casa. E com ele comemorarei em alegria o milagre que vós lhe tiverdes dispensado.

Yehoshua permaneceu de pé olhando atentamente para o homem que soluçava baixinho diante de si. Então, elevando a voz, o Mestre olhou para a multidão hipnotizada com o que via e falou.

— Vede, vós que aqui estais presentes e assistis a este exemplo edificante de fé. Em verdade em verdade eu vos digo que jamais encontrei tamanha fé entre o povo de Israel. Um militar romano, um homem que todo israelense odeia com maldade e rancor, humilha-se diante de um judeu que ele nunca, antes, vira, e suplica a este judeu ajuda para outro homem a quem honra e dignifica com sua amizade de irmão. Aprendei, ó irmãos hebreus, o quanto a humildade pode fazer por alguém que acredita e busca. Quanto a ti, centurião, em respeito à tua fé que tanto agradou a nosso Pai, digo-te que deves serenar teu coração e retornar à tua casa, pois eis que teu criado já se encontra são.

E voltando-se para o povo que a tudo assistia siderado pelo que ouvia, Yehoshua falou.

—Digo-vos, a vós todos, que muitos virão do oriente e do ocidente tomados pela verdadeira Fé que se estriba na humildade e na pobreza de sentimentos maus e egoístas. E estes, eu vos afirmo, sentar-se-ão à mesa com Abraão e Jacob e Isaac e todos os profetas de Meu Pai. Mas ai dos filhos dos reinos da Terra! Filhos que amam a tirania, a mentira, a vilania, a traição, a usura, a ganância e a concupiscência. Filhos que andam pelo mundo catando pedras e metais no solo e crendo que elas os fazem poderosos e tiranos. No Reino de meu Pai estes serão lançados nas trevas dos mundos inferiores. E ali chorarão em desespero e rangerão os dentes com raiva e dores, pois que a isto fizeram por merecer enquanto estavam entre vós.

E voltando-se novamente para o centurião que o ouvia com olhos brilhantes, e aguardava que ele silenciasse para, então, partir, Yehoshua ordenou.

— Homem, vai e faça-se segundo tua fé. Pois que creste, teu pedido foi atendido pelo único que ouve em silêncio o pranto de seu filho.

E o centurião tomou a mão de Yehoshua e a beijou com alegria. Depois, lançou-se por entre o povo siderado, apressado por comemorar com seu criado o milagre que estava certo havia sido feito pelo homem de Nazaré.

Sentado na pedra junto ao poço, o general romano a tudo assistiu com o coração disparado. Ele ouvia e via e em seu íntimo um turbilhão de dúvidas e questionamentos fervilhavam.

“Este homem… Este judeu… Quem é ele?”