BETSAIDA - VILA DE PESCADORES ONDE VIVIA A SOGRA DE PEDRO

Uma vista atual dos arredores da outrora vila de pescadores Betsaida (em aramaico este nome queria dizer exatamente isto: vila de pescadores). Note-se o terreno, íngreme, desértico e pedregoso.

Betsaida era uma vilazinha de pescadores e seus moradores eram pescadores em sua maioria esmagadora. Havia alguns que se dedicavam ao pastoreio de ovelhas, mas o terreno era impróprio para esta atividade. Nos tempos de Yehoshua o Mar de Tiberíades ou Lago de Genesaré ficava bem próximo da vilazinha de pescadores. Na verdade, a vila se situava às suas margens. Betsaida  também era o berço natal de André e Filipe, pescadores como Cefas. tinha sido importante nos tempos do Rei David e nos tempos de Yehoshua havia muitos escombros das antigas fortificações que ali tinham sido construídas.

BETSAIDA - UMA VILA NA BASE DE UM MORRO ALTO, PEDREGOSO.

A senda por onde seguiam Yehoshua e Petronius serpeava por entre pedras ásperas e afiadas, que lhes feriam os pés, ainda que calçados em sandálias de couro.

Os dois homens tinham muita resistência, pois a senda era sempre  alternando  aclives e declives acentuados e o caminho pedregoso machucava muito os pés, ainda que calçados por sandálias de couro. As árvores eram raras e espalhadas por entre o pedregulho, de forma que a sombra que ofereciam não dava muito refresco aos caminhantes. Talvez por isto não fosse tão visitada pelas gentes daqueles tempos.

BETSAIDA - ESQUEMA DE UMA CASA DE PESCADORES NA VILAAs casas em Betsaida seguiam o padrão de todas elas: teto liso, de barro misturado com palha. Além de teto a cobertura também servia para os moradores dormirem sobre ela, quando o verão trazia noites muito quentes e dias ferventes.

O Sol já derramava impiedosamente seus raios sobre a Terra e os dois caminhantes arfavam, mas Yehoshua não arrefecia a velocidade de suas passadas. Assim, ambos caminharam por mais de duas horas. Yehoshua notou que seu companheiro estava arfante e suava em abundância. Ele mesmo tinha a respiração arfante e também suava muito. Ambos já sentiam sede. Por isto, o Mestre decidiu arrefecer a velocidade de sua caminhada, o que levou seu parceiro de jornada a lhe ficar intimamente muito agradecido por esta decisão.

— Vejo agora a razão de teres escolhidos esta senda — falou com voz entrecortada pela respiração arfante, o general romano. — Não creio que algum daqueles que mendigavam teus milagres tivesse resistência física para te acompanhar. Eu mesmo estou estafado. E olha que sou um combatente de resistência física muito boa. É sempre assim? Onde tu apareces logo se forma aquela multidão de pedintes?

— É. Mas na verdade os que sofrem de males físicos, resultado, quase sempre, do modo de vida desregrada que levaram, não me aborrecem. Até sinto grande dó de suas dores e de seus sofrimentos. O que me irrita de verdade é a ganância dos que me procuram com objetivos materiais vis. Eu não valorizo bens materiais, Petronius. Também não valorizo gozos carnais. Isto é muito pequeno diante do Reino de Meu Pai.

— Estás-me dizendo que teu pai é um… Rei? De onde?

Petronius estava confuso com Yehoshua. Esperara encontrar um homem aguerrido, grosseiro e disposto à revolução contra o Império, mas encontrou alguém que o desconcertava a cada palavra e a cada passo.

— Sim. Meu Pai é O Rei acima de todos os reis da Terra, Petronius. E não te assustes por ouvir-me dizer isto, pois que tu também és filho d’Ele. Todos os seres vivos são Seus filhos, são Sua criação. Do mais pequeno verme à maior baleia nos oceanos; do menor dos roedores ao maior dos elefantes; do mais miserável e deserdado dos homens até o mais poderoso mortal entre os mortais, todos são Seus filhos; todos são Sua Criação.

Petronius puxou o ombro de Yehoshua e o fez olhá-lo de frente. O Mestre mirou-o com uma interrogação na face.

— Dizes que nós somos irmãos e eu não compreendo isto. Mas pelo que tu acabas de dizer, também sou irmão do… do Imperador. Isto… Isto é verdade? Eu entendi certo?

Yehoshua sorriu e deu de ombros. Voltou-se e se pôs a andar enquanto dizia em voz alta.

— És inteligente, Petronius. Então, conclui por ti mesmo.

ÁRVORE SICÔMORO.

Esta e a árvore denominada sicômoro. É da família dos figos e seus frutos e folhas são comestíveis.

O general teve de descer até a vila de pescadores atrás de Yehoshua ruminando em silêncio o que tinha acabado de ouvir. Estava muito cansado, pois, por mais que acelerasse o passo estava sempre atrás do Mestre. Chegou à casa da sogra de Cefas pondo os bofes pela boca. Era quase o meio-dia. Estava sedento, mas teve de receber o lava-pés antes de ser dessedentado. Finalmente, alimentado, descansado e sentado à sombra de um grande sicômoro, ele, a família da sogra de Cefas, Yehudhah acompanhado de Ruth, Filipe e André e os demais apóstolos do Mestre que chegaram à vila já o sol se deitava, conversavam. Cefas estava no interior da casa, ao lado da cama de sua sogra, com o cenho franzido de preocupação. A senhora ardia em febre e intimamente Cefas se perguntava por que Yehoshua não a curara. Nem mesmo se aproximara de seu leito. Compungido, o apóstolo do Mestre se deixou ficar ao lado do leito refrescando a fonte da idosa com um pano úmido. Era só o que podia fazer, pois todos os remédios conhecidos para combater a febre ela já havia tomado sem resultado. A cada hora a velha senhora ficava mais e mais fraca e Cefas começou a achar que ela não veria o sol do dia seguinte. Observou cuidadosamente a boca da mulher e notou que ela estava estranhamente inflamada e com uma cor arroxeada, além de exalar um mau hálito quase insuportável. Angustiado, esqueceu-se dos outros e se entregou aos desvelos de tornar as últimas horas de sua sogra as mais amenas possíveis.

Sob o frescor do entardecer e debaixo do sicômoro, Filipe foi quem deu início ao convescote. O calor abrandava devido ao vento que soprava do Lago de Genesaré para a terra, o que não era comum naquele horário. Além disto, a sombra do grande Sicômoro tinha resguardado da canícula solar o solo sob sua copa. Ali, a terra estava fria e ajudava no resfriamento do entardecer. À guisa de desculpa pelo atraso em chegar, ele iniciou sua fala neste sentido.

— Nós pensávamos que vós iríeis direto para Séforis, onde os rabis estão realizando um festival em homenagem a Javé. Não é algo comum e as gentes não entenderam aquela festividade. Diz-se que na verdade eles querem é fazer que se conheça o novo Templo de Séforis que, embora muito menor que o de Jerusalém, não perde para ele em riqueza e ostentação.

Os olhos de Yehoshua encontraram os de Petronius e o Mestre sorriu de leve. O romano entendeu sua mensagem e também sorriu. Atento ao romano, Yehudhah is Qerioth captou aqueles sorrisos e ficou intrigado. Atenta a ele, Ruth, por sua vez, também estranhou aquela cumplicidade entre “o inimigo do povo hebreu”, tal como eram tidos os romanos, e seu irmão. Ela, pessoalmente, admirava o homem. Sua estatura, seu físico atlético a impressionavam, mas o que mais lhe agradava no general era sua postura franca e destemida. Sentia que naquele homem não havia traição. Ele era o que era e era convicto disto. A jovem caçula de Míriam, a mãe, não discriminava nenhuma pessoa entre as outras. Para ela, todos eram seus irmãos e irmãs e tinha aprendido isto em Caxemira, no mosteiro de Hemi, de cujo superior, Jeroboão, sentia imensa saudade.

— Os homens orgulhosos e fúteis se galardiam de tais grandiosidades terrenas e isto é um de seus maiores pecados. Mas o pecado de alguns rabis da Judéia neste quesito é abominável. Eles são os representantes de Iavé para a divulgação da Verdade dos Profetas entre os homens, mas restringem isto ao povo hebreu e, entre estes, interpretam o que disseram os profetas de modo errado propositadamente. Se soubessem como serão cobrados pelo meu Pai quando a hora for chegada, estariam chorando lágrimas de sangue.

Petronius aproveitou a deixa e entrou na conversa com um questionamento que fez todos os olhares se voltarem para ele. Já percebera que o único que o olhava com desconfiança era ish Qeryoth e temia ser desafiado pelo irascível seguidor do milagreiro.

— Tenho ouvido que falas muito nesse… nesse teu Pai e que, segundo tu o afirmas, é o pai de todos os homens…

— E de todas as mulheres também — ouviu-se a voz jocosa de Ruth, na face da qual havia um sorriso divertido. — Nosso Pai Celestial não discrimina suas filhas nem concede privilégios aos homens apenas porque são machos.

Yehoshua soltou uma estrondosa gargalhada que terminou por contagiar a todos os presentes. Mas o romano apenas sorriu de leve, passeando o olhar perscrutador pelas faces daqueles homens rudes e barbudos ao redor. Vendo que o visitante do seu irmão parecia pouco à vontade com a hilaridade que seu comentário despertara, Ruth tratou de minorar a tensão de Petronius.

— Desculpa-me, romano, eu apenas quis brincar um pouco. É que…

— Petronius — cortou o militar, olhando com olhar sério na face da irmã do Mestre.

— Como?! — Atrapalhou-se a jovem, enquanto seu namorado fechava a expressão facial e o riso cessava entre os demais. Yehudhah olhava com olhar duro para aquele a quem considerava inimigo de seu povo. Yehoshua, contudo, cabeça baixa para o desenho de um peixe que rabiscava no pó do chão e ainda rindo, parecia não perceber a tensão que crescia entre os dois “inimigos”.

— Meu nome é Petronius. Por favor, chama-me por ele. Eu te agradeço.

— Para nós és…

— Um irmão — cortou Yehoshua e seu olhar penetrante fixou-se nos olhos de Yehudhah, que sustou o que ia dizer e engoliu em seco.

— Tenho-vos ensinado que vossas diferenças são aparentes. São ilusões. No Espírito, todos somos iguais, exceto na cor de nossa luz espiritual e na sua intensidade. Fora isto, nada nos diferencia quanto ao de que somos constituídos. Memorizai isto de uma vez por todas. Se fosse possível retirar a pele, os músculos, as vísceras, o cérebro e os ossos de um romano e de um judeu com certeza não haveria diferença alguma entre eles. Então, se a Mãe Natureza nos fez iguais no corpo, onde é que somos diferentes? Eu vos disse e repito: a diferença só existe enquanto estiverdes no Caminho para a Plena Consciência Imperturbável. Enquanto a Forma vos der a ilusória impressão de que há diferenças entre vós, digo-vos em verdade que estais vendo e percebendo tão-somente a Matéria, pois que nos Mundos de Meu Pai a Forma não existe. Luz! É isto o que há. Mas uma luz totalmente diferente da que vos chega vindo daquele astro lá em cima, no que chamais de céu.

Petronius ergueu a mão pedindo licença para falar e Yehoshua acedeu com um aceno de cabeça.

— Não somente porque somos membros do Exército dos conquistadores do mundo, os Imperadores de Roma, mas sim porque acima disto somos homens como vós, desejo perguntar: esse Pai a que tu te referes, Yehoshua, é o nosso… Júpiter? Ele é o Senhor do Olimpo e acima dele não há outro Deus.

Bartolomeu e os dois Tiagos romperam em gargalhada, mas tiveram de se conter diante da censura no olhar que o Senhor lhes dirigiu.

— O nome pelo qual os homens chamam ao Criador Supremo não tem qualquer importância, pois Seu Nome mesmo nenhum ser humano pode sequer pronunciar. Então, se para os romanos nosso Pai se chama Júpiter, que seja. Não há um pai humano que puna seu filho porque ele não sabe seu nome. Então, por que o Senhor Absoluto de toda a Criação se enfureceria com um filho seu por chamá-lo segundo acredita que seja Seu nome?

— Teus conceitos, Yehoshua, são incompreensíveis para mim e, creio, para todos os que são livres para pensar por si mesmos — disse o general com voz forte e olhos nos olhos do rancoroso Yehudhah. Ruth sentia que o encontro daqueles dois homens de vontade de ferro não terminaria bem e temeu pelo destino de seu noivo. O romano bem poderia chamar os legionários que estavam em Séforis para prevenir algum movimento de rebeldia ou de açulamento do ódio contra Roma e seus governadores e mandar prender ish Qeryoth. Mas antes que alguém dissesse mais alguma coisa, Yehoshua a todos surpreendeu com o que disse a seguir.

— Petronius não veio aqui apenas para sentar-se conosco e privar de nossa companhia. Na verdade, ele veio por ordem de Sejano, que maneja a vontade de Tiberius Claudius e sua mão para assinar decretos e ordens. Veio para comprovar ou não, um movimento de rebeldia liderada por mim contra o Império. E se comprovasse algum perigo de nossa parte neste assunto ele deveria prender-me e levar-me à presença do Imperador que me julgaria e me condenaria. Por isto eu o aceitei comigo e o tenho mantido ao meu lado para que veja e comprove: eu não me interesso pela Política dos homens. Eles a merecem, não eu. Criaram-na para si mesmos e se deixam dirigir por ela e por isto muito hão de sofrer pelos milênios à frente.

O Mestre silenciou e um pesado silêncio caiu sobre o grupo. Petronius estava pasmo com o que tinha acabado de ouvir e observava que, agora, havia franca hostilidade dos apóstolos e seus familiares contra si. Yehoshua o tinha deixado em situação delicada e tinha de tomar uma decisão que não desejava. Mas antes que fizesse ou dissesse alguma coisa, Yehoshua voltou a falar e a surpreender a todos novamente.

— Eu vou preparar um remédio que o general romano levará para o Senador dar à suja filha. Petronius deve assegurar ao dignitário romano que sua filha não morrerá como ele teme. Neste momento a criança piorou muito e todos, menos Pilatos, temem por sua vida. Eu, contudo, determino a meu guardião que a mantenha vida até quando eu decida agir definitivamente.

Naquele momento Cefas veio quase correndo até Yehoshua e, como os olhos lacrimejando e a voz embargada, rogou.

— Pelo Pai Celestial que atende a teus pedidos, Yehoshua, salva minha sogra. Ela está agonizando neste momento…

Yehoshua o olhou com decepção no olhar.

— Por que tu mesmo não a curas, Cefas?

— Não tenho Poder para tanto, Senhor.

— Não se trata de Poder e, sim, de fé, Cefas. Vem comigo. Vamos até o leito onde jaz tua sogra.

Yehoshua se pôs de pé e todos fizeram a mesma coisa. Todos, inclusive o general romano, queriam ver com os próprios olhos mais aquele “milagre” do Senhor. Yehoshua ignorou todos eles e foi até o leito onde a moribunda estava exalando seu último suspiro. Ele estendeu sua mão esquerda sobre a fronte da idosa e murmurou uma oração que não foi ouvida pelos seus seguidores. Petronius, aproveitando-se de seu avantajado e musculoso corpo, colocara-se bem ao lado direito do Mestre e, mesmo assim, ouviu somente murmúrios que lhe informavam que Yehoshua orava a um Deus ao qual chamava de Pai. Todos viram a mão do Senhor se iluminar suavemente e a luz descer de sua palma e penetrar na cabeça da moribunda. Aquilo durou apenas dois ou três segundos e muitos tiveram a impressão de que se tratava de uma ilusão. Petronius, não. Ele estava ao lado do Senhor e viu bem o que acontecia. Seu coração acelerou, sua boca secou de ansiedade e ele se sentiu zonzo. Assistia ao vivo e a cores um milagre realizado pelo judeu mais enigmático de que jamais ouvira falar..

Todo o corpo da mulher foi sofrendo uma transformação suave, mas determinada. Sua boca deixou de exalar aquele odor de cadáver e seus dentes surgiram perfeitos. Sua face macilenta tornou-se corada. Sua respiração arfante serenou e ela passou a respirar como quem dorme profundamente. Seus cabelos, aos poucos, foram-se tornando escuros novamente e as rugas das mãos, da face e dos pés sumiram devagarinho. Petronius estava assombrado e pela primeira vez temeu aquele homem que tinha ousado pensar que conhecia.

— Cefas, ela está salva pela Vontade de Meu Pai. Agora, deixemos que descanse para que amanhã possa retomar com mais vigor e alegria seus deveres de dona de casa. Quanto a ti, Petronius, espera por mim. Vou colher as ervas de que falei para fazer o remédio para a filha do Senador.

E sem mais falar, deixando a todos atônitos, o Senhor saiu rapidamente. Só entre os apóstolos, Petronius sentiu-se estranhamente desamparado…