O General estava maravilhado com tudo que lhe acontecia.

O sofar despertou a todos, inclusive aos romanos. Petronius levantou-se, lavou-se, tomou seu desjejum e já estava aparamentado com suas roupas de general quando um centurião veio-lhe comunicar que havia um mensageiro de Pilatos à porta da tenda desejando falar-lhe. Petronius assentiu com um aceno de cabeça e foi até a saída da tenda. Diante dele, também trajando a farda de general romano, estava o guerreiro prateado que lhe surgira na tarde anterior. Petronius não se abalou. Sorriu para Gabriel e olhou para a montaria que ele tinha a seu lado.

— Tomei a liberdade de lhe trazer este cavalo, senhor general. É um presente de um amigo seu que não quer que eu lhe revele o nome.

Os dois ficaram a se olhar nos olhos e Petronius entendeu que Gabriel se referia a Yehoshua. Sorriu e sem mais dizer saltou sobre a sela do belíssimo alazão, cumprimentou o Centurião com um aceno de cabeça e, rodando o animal pôs-se a galopar em direção a Jerusalém. Ao seu lado Gabriel também galopava num belíssimo cavalo branco.

Quando já estavam na estrada romana, Petronius voltou-se para Gabriel e lhe perguntou:

— Onde conseguiste essas vestimentas?

— Ora, em Roma! — Respondeu Gabriel, rindo.

— Tu a roubaste de algum companheiro meu?

— Roubar? Não, eu não faço isto. Apenas tomei emprestada até que minha missão ao teu lado esteja cumprida.

— Vamos levar dois dias e meio, mesmo sem dar descanso às nossas montarias. Certamente o dono desta farda sentirá sua falta e vai agitar toda Roma atrás dela.

Gabriel sorriu e nada respondeu. Petronius, então, voltou a perguntar.

— Gabriel… Este é teu nome, não é?

— Sim, é.

— Então, por favor, me responde: Yehoshua é um Deus disfarçado de homem?

Ele realmente era um homem. Mas também era um Deus. E como homem veio ajudar seus irmãos de caminhada, ensinando-lhes o único meio de que a humanidade dispõe para sair do Mundo das Sombras.

— Não. Yehoshua é um Homem que chegou ao nível mais alto na evolução humana. Mas em relação aos homens comuns, ele realmente pode ser considerado um Deus. É o único dentre os da raça dos homens que pode olhar na face do Criador. Isto, nem eu posso fazer.

Petronius cavalgou silencioso por um longo tempo, ruminando o que tinha acabado de ouvir. Então, voltou a perguntar.

— Se ele é um homem e evoluiu tanto assim… Outros homens podem trilhar o mesmo caminho?

— Queres saber se tu também poderás um dia ser igual a ele?

— Sim, isto mesmo.

— Todos os homens e  todas as mulheres podem chegar aonde ele está. Vós sois o Próprio Criador manifestado em Sua Criação. Cada um de vós é Ele, logo, todos vós sois iguais perante o Pai.

— Mesmo César? Mesmo Pôncio Pilatos? Pergunto isto porque sei que esses homens são abjetos, são vis em suas ações e seus desejos. Não respeitam nada e, Governadores como Pôncio Pilatos, com freqüência desafiam as ordens até mesmo de César. Vê  o que ele pretende fazer, segundo me informou Yehoshua. A ordem de César é bem clara: não se provoque choque entre os conquistados. Respeite-se suas religiões e seus costumes. Cobre-se tão-só os impostos devidos e se mantenha vigilância contra possíveis focos de rebeldia entre eles. Mas Pilatos vive desafiando esta ordem. É um homem sem escrúpulos, Gabriel.

— Nenhum homem verdadeiro é abjeto, Petronius. Todos vós sois iguais perante o Pai. Os vícios e erros que apresentais são naturais nos que ainda estão em aprendizagem. Yehoshua não te explicou a trindade humana?

— Eu já conhecia o que ele me falou. O que chamou de Duplo Etérico eu conhecia com o nome de Linga Sharira. Mas só passei a prestar atenção naqueles ensinamentos estranhos depois que vi coisas assombrosas que ele fez.

— Então tu compreendes que tens um corpo material, uma Alma mortal, o Linga Sharira, e um Espírito imortal. A Alma Mortal é que comete erros e pecados. Por enquanto, vós todos viveis por ela e nela, então, não há como não cometerdes erros e enganos terríveis. 

— Essa “Alma Mortal” a que tu te referes, por acaso é o Ka que os Egípcios possuem em sua Religião e o tal Linga Sharira dos Indus?

Platão, aluno de Sócrates, fundou a Academia de Atenas,400 anos antes da era Cristã.

— Exatamente. O Ka ou Linga Sharira ou Duplo Etérico são a mesma coisa. Apenas recebem designações diferentes de conformidade com a religião que cada povo cria e pratica. Não as superficiais, de aparências externas, como são a dos Hebreus para o povo hebreu e como é a Romana. Entre os Hebreus, os Rabis verdadeiramente instruídos nas coisas sagradas conhecem bem a constituição do Homem Verdadeiro e o representam na Árvore das Sephirat ou Árvore da Vida. Este conceito é muito antigo e foi criado por pensadores dos povos a que os demais chamam de neoplatônicos. Mas todos os povos que o conhecem, inclusive o povo Hebreu, pecam porque não ensinam isto ao povo em geral, guardando para si não por um verdadeiro sentimento de proteção do que é sagrado, mas sim porque pretendem usar o Sagrado em benefício próprio. Este é o maior pecado que um povo pode cometer.

— Yehoshua diz que todos podemos fazer o que ele faz e até muito mais. Isto é mesmo verdade? Eu posso resgatar da morte um combatente meu a quem amo e que foi ferido mortalmente em combate?

— Sim, podes trazer do Limbo tantos quantos forem os que desejares. Mas para isto tu terás de abdicar da espada e dos vícios e crenças mundanas. Esta realidade em que tu vives agora e que tu e todos os homens e mulheres pensam que seja verdadeira, não o é. Para o Espírito, tudo isto aqui não passa de um grande sonho. Um sonho que sempre é terrífico e maravilhoso. Tudo depende de como o sonhador se comporta dentro dele. 

Petronius cavalgou calado por um longo tempo, pensando em tudo o que assistira e tudo o que ouvia daquele ser fantástico e misterioso que cavalgava tranqüilo e habilmente a seu lado. Tomara conhecimento de uma realidade fantástica, além do que seus sentidos podiam apreender e compreender. Entendia, agora, os centuriões que tinham retornado da Germânia e das tribos ferozes dos Celtas. Eles falavam de um tal Issa que, tinha certeza, era o mesmo Yehoshua que havia deixado para trás, na Judéia. Havia um Deus verdadeiro vivendo entre os homens e isto era fantástico. Em nenhuma outra época havia registro de tamanha maravilha. No entanto, os homens de Poder não percebiam este fenômeno inigualável. E aquele Deus não fazia nenhum esforço para ser por eles percebido. Até se recusava a atender a um irmão seu, como afirmava que todos o eram, porque não o julgava merecedor de sua atenção. E se assim era, então, ele, Petronius era superior ao Senador Romano aos olhos do Pai Celestial de Yehoshua, na Terra?

— Sim, tu o és! — Ouviu Gabriel falar e tomou um susto. Aquele ser de outro mundo também podia ler seus pensamentos. 

— Mas eu matei centenas de homens em combate. E fiz muitas manobras traiçoeiras para conseguir chegar à Patente que tenho. Menti, traí, usurpei direitos de outros… Fiz o que Yehoshua condena peremptoriamente. Como, então, sou melhor que qualquer dos Césares Romano? Como posso ser superior a qualquer outro homem romano ou não?

Tal como antes, o soldado de agora não é totalmente responsável pelos assassinatos que comete sob a pressão do Sistema Político-Militar a que está submetido. Outros que não ele têm a responsabilidade de apertar o gatilho da arma que mata.

— Um homem não é avaliado pelo Pai apenas pelo seu comportamento obrigatório segundo o sistema em que se encontra inserido, General Romano. Um Homem é avaliado pelo Pai segundo seu modo particular de sentir e julgar sobre si mesmo. Tu não te sentes orgulhoso do que fazes nem tens prazer em fazê-lo. Mas te enredaste de tal modo no Sistema infeliz que os teus antepassados romanos montaram que não passas de um inseto a se debater numa imensa teia de aranha humana. Não podes desertar de teu modo de vida, agora, ou serás cruelmente perseguido e castigado pelos valores humanos que sustentam os Políticos de teu tempo. Tu não o fazes porque tua Consciência Íntima não te permite, pois a maioria de teus crimes não têm raízes em ti mesmo. Outro que não tu maneja teu braço e brande tua espada à força de Leis e Normas que ele criou para dominar sobre seus iguais. Tua Consciência Divina é despertada através da dor, dos sofrimentos e do desespero que a espada que seguras inflige a centenas de teus semelhantes. Mas teu coração não está na espada que tu brandes e, sim, na piedade que intimamente sentes pelos que tuas ações colocam em agonia e desespero. Em teu íntimo tu reprovas com todo o teu ser a crueldade que vem a ti através das ordens que recebes e que o Sistema em que te encontras aprisionado te obriga a cumprir. E foi por isto que Yehoshua te buscou para conhecê-lo e privar de sua intimidade junto aos que Ele escolheu para serem seus apóstolos entre os homens. Espiritualmente tu és limpo dos crimes que foste obrigado a cometer, pois não envolveste teu coração naquelas maldades que cometeste. Há outros, como tu, que, ao contrário de ti, sentem imenso prazer em causar dor e sofrimento em seus irmãos, quer porque são maus em seus íntimos, quer porque são bajuladores abjetos de homens inferiores a eles em tudo, quer porque almejam crescer no conceito de homens já condenados por si mesmo ao Fim. 

Petronius ouvia as palavras de Gabriel com o coração aos pulos de alegria e felicidade. Afinal, ele não era um condenado pelo Deus que se manifestava entre os homens de sua época e aquilo era maravilhoso. Decidiu que deixaria os Exércitos Romanos e voltaria à Judéia como simples cidadão de Roma para se integrar entre o grupo numeroso de seguidores do hebreu.

Ele não sabia que quando voltasse Yehoshua já teria partido para junto de Seu Pai…

— Chegamos! — E a exclamação de Gabriel trouxe-o de volta à realidade. Já era noitinha e ele não se deu conta de quão veloz tinham cavalgado.

— Vamos hospedar-nos junto às centúrias que estão acantonadas dentro e ao redor do Palácio de Herodes. Amanhã de manhã, talvez na oitava hora, irei ter com o Governador Pôncio Pilatos para lhe informar sobre o que encontrei. Tu estarás comigo?

— Não, meu amigo. Tu não mais te encontrarás comigo senão daqui a muitos e muitos séculos. Aqui tu e eu nos despedimos. Mas eu te prometo que esteja onde eu estiver, tu estarás sob minha proteção. Até nosso encontro definitivo. Eu te saúdo, general.

E tanto Gabriel quanto seu ginete desapareceram numa explosão súbita de luz. Pasmo, Petronius se sentiu tanto desnorteado quanto horrivelmente só. Por um momento vivera fora do mundo dos homens e aqueles momentos tinham sido maravilhosos. Agora, estava de novo sozinho em um mundo que para ele não mais tinha qualquer valor, qualquer atração. Olhou para os grandes muros do castelo e sentiu em seu íntimo grande repulsa e grande raiva contra aquilo tudo. Devagar, sem notar que o ginete que o trouxera havia sumido, encaminhou-se para a barraca dos centuriões, onde foi recebido com toda a deferência que seu posto exigia. Mas em seu íntimo sentiu que já não mais valorizava nada daquilo….