JESUS E O SERMÃO DA MONTANHA

Com a mesma autoridade e simplicidade com que pregava aos povos, ele se defendeu no Sinédrio e a todos emudeceu.

Antes que Gabriel e Petronius chegassem a Jerusalém, o Rei dos Reis subia as escadarias do Templo em que pontificavam os rabis Caifás e seu sogro Anás. O pátio dos gentios estava quase vazio. Yehoshua encaminhou-se direto para o palácio de Caifás, onde se fez anunciar como o filho de Yoseph, o construtor e esposo de Míriam de Séforis. O rabi permaneceu calado, cenho franzido e olhando fixo para seu criado.

— É ele mesmo? Ele está aí, à minha porta?

— Sim, rabi. É Yehoshua, o mesmo que conheço e vi pregando em Séforis e nas cidades ao redor. O milagreiro de Nazaré.

Caifás se pôs de pé e mandou que o criado trouxesse Yehoshua até sua presença. A seguir, ordenou ao seu criado que fosse até Anás e lhe desse um recado.

— Deixa que entre. Quero mesmo ter uma conversa séria com ele. Não somente eu, mas todo o Sinédrio. Enquanto eu o recebo, vai dizer a Anás que lhe peço que convoque o Sinédrio para daqui a duas… Não, três horas. Diz-lhe que Yehoshua está aqui.

Em seguida, permaneceu de pé esperando que Yehoshua viesse até ele. Não demorou e a figura imponente do filho de Míriam de Séforis surgiu caminhado diretamente para o rabi. Quando chegou perto, Yehoshua curvou a cabeça em sinal de cumprimento e olhou firme dentro dos olhos de Caifás.

— O que vieste fazer aqui, Yehoshua? O que desejas comigo?

— Vim atender às tuas demandas a mim, através dos itinerantes. Sou eu que pergunto o que tu desejas de mim.

— Não me recordo de ter dito a qualquer deles que te ordenasse vir até mim — disse Caifás com rancor na voz.

Yehoshua via no Corpo Astral e no Corpo Mental daquele homem grande confusão em relação à sua pessoa. E sentiu dó de Caifás. O rabi o temia. Temia suas ações que não podia compreender. Pensava, erradamente, que o Filho do Homem desejasse o Poder Venal, opondo-se tanto a Herodes quanto a Pôncio Pilatos. Julgava que a grande agitação entre o povo que suas palavras e seus milagres conquistavam fosse uma manobra perversa, com o objetivo único de unir a população para um movimento suicida contra os dois mais poderosos inimigos dos hebreus. O Idumeu detestava os hebreus e por menos não ficava a repulsa que Pôncio Pilatos votava à nação hebraica. Ao ver e entender de Caifás e seu sogro, Anás, Yehoshua queria derrubar o Idumeu, protegido do Imperador Romano. Seria a guerra. Uma guerra sem qualquer possibilidade de vitória. Os hebreus seriam varridos da face da Terra, se irritassem demais aos romanos. Os rabis responsáveis por defender o “povo eleito”, segundo seus livros, temiam pelo castigo que de Yaveh sobreviria à nação hebraica. Yehoshua sentiu dó de Caifás e Anás. Viera até eles com o firme propósito de lhes acalmar o medo. Mesmo tomado de piedade para com os dois rabis mais poderosos do Templo, Yehoshua não curvou a cabeça diante do olhar de fogo que lhe lançava o medo do homem diante de si e foi com altivez que respondeu a Caifás.  

Estudos gráficos computadorizados concluem que a face de Jesus era assim...

Sua autoridade era inquestionável.

— Tu não me ordenas nada, Caifás. Virei a ti quando me aprouver ou quando minha hora seja chegada, segundo minha Vontade e a de Meu Pai. Mas vamos ao que nos interessa, a ambos. Já mandaste convocar o Sinédrio, então, vamos adiantar-nos a eles e esperar que atendam à convocação de teu sogro lá no local da reunião. Tenho de desfazer alguns falsos boatos sobre mim que estão envenenando os sinedritas de modo geral.

Caifás inspirou fundo, mas não conseguiu falar o que pretendia. Então, rodando nos calcanhares, disse, seco:

— Vem. Vamos para o Sinédrio.

Yehoshua sentou-se em silêncio aguardando a reunião dos rabis. Sabia que aquela convocação fora de hora colocaria a todos em grande expectativa e viriam apressados, pois a razão da convocação não fôra dita. Com efeito, aproximadamente uma hora depois, o anfiteatro estava lotado com rabis curiosos para saber a razão de tão intempestiva convocação. Quando Caifás anunciou Yehoshua, uma grande bulha se ergueu de entre os presentes. Muitos desceram até o piso onde Yehoshua se apresentava para o abraçar com grande demonstração de alegria. E o Mestre também os abraçou com contentamento. Ele os amava.

— Irmãos! Irmãos! Por favor, ordem! — Pedia Caifás quase aos gritos. Finalmente os rabis ocuparam seus lugares. Agora, todos estavam curiosos para saber o que Yehoshua desejava com eles. De pé no centro do grande ambiente, o Senhor passeou os olhos pelos presentes. Estendeu a mão para um rabi de grandes barbas e olhar penetrante, sentado na fileira mais alta e mais distante. 

— Tu sofres dores de cabeça que te deixam noites sem dormir, não é rabi Moab? Vem até aqui. Tu eras grande amigo de minha família e minha mãe te tem profundo amor e respeito pelo que nos ajudaste quando estávamos em sérios apuros após a morte de meu pai. Em atenção à tua bondade, vem até mim, eu te peço.

Em silêncio, Moab desceu e veio até Yehoshua a quem abraçou demoradamente com os olhos marejados. Depois, deu dois beijos na face do Mestre, um em cada face, e acedeu em silêncio, com um aceno de cabeça.

Yehoshua elevou a mão sobre ele e em voz alta orou ao Pai pedindo a cura para o ancião. O silêncio era sensível em sua tensão. Todos os corações ali presentes batiam forte à medida que a voz sonora de Yehoshua pronunciava seu apelo ao Pai.

“Meu Pai, tu que me honras com me atender sempre que a ti recorro; tu a quem venero de todo meu coração e de toda minha alegria e de toda minha Alma e de todo meu Espírito; tu que és meu Caminho e minha Felicidade, e que és o Pai de todos os homens e mulheres neste mundo e em todos estás presente, eu Te rogo, ó Senhor da Piedade e da Bondade: retira de Moab o sofrimento que o abate. Ele é justo perante ti, querido Pai. Seus juízos são sempre justos e não vejo nele a cobiça, a vilania e a traição que há entre alguns dos que aqui se assentam. Para estes peço tua Caridade, quando para eles for chegada a terrível hora do Julgamento. E porque sei que serei atendido, eu te honro e honrarei sempre, onde que que esteja, na alegria ou na provação. Sou Teu filho e por isto sou ditoso de tuas bênçãos”. Enquanto o Mestre orava, o ancião Moab sentia alguma coisa se remexendo dentro de sua cabeça. Algo lhe foi arrancado dali e a seus pés um feio tumor, do tamanho de uma unha, surgiu ainda cheio de sangue. Mas a dor de cabeça que o atormentava quando ali chegara havia sumido e um imenso bem-estar o invadira desde que Yehoshua orava banhado por uma estranha luz que só ele podia perceber. Olhos arregalados de alegria e temor, o ancião fez menção de se ajoelhar diante de Yehoshua, mas este o segurou com mãos firmes, dizendo:

— Não te ajoelhes diante de mim, pois que aqui somos iguais, tu, eu e todos os presentes. O que em ti se realizou foi por mérito somente teu. Nosso Pai Celeste aguardou este momento para mostrar a todos vós que Ele vos enxerga e vos conhece os corações. Os que são mesquinhos e vis não pensem que suas vestimentas os escondem d’Aquele que Tudo Sabe e Tudo Vê. Antes disto, arrependam-se dos males que guardam dentro de seus corações, para que não sejam apanhados de surpresa, pois a morte do corpo físico é inevitável e não é bom que se passe para o lado da Vida carregando tesouros podres nos corações.

— Está escrito no Pentateuco, Capítulo 12: “O Senhor disse a Abraão: sai da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai e vem para a terra que eu te mostrarei. E lá, Eu te farei pai de um grande povo e te abençoarei, e engrandecerei o teu nome e tu serás bendito. Eu abençoarei aos que te abençoarem e amaldiçoarei aos que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as gerações da Terra”.

Pondo-se de pé, Anás bateu palma três vezes para chamar a atenção dos presentes, hipnotizados diante da figura altiva do Mestre.

— Não creio que tenhas vindo até nós para nos citar passagens de nossos livros. Tu o sabes bem que nós os conhecemos em cada letra, em cada frase, em cada sentença. Por que nos tomas tempo com esta citação?

Yehoshua caminhou até se posturar diante de Anás, que o olhava altivo e censuroso.

— Por que tu manténs teu coração fechado para a Sabedoria e te apegas ao simbolismo que vela a verdade por detrás do que está contido nos livros sagrados? Não, nem tu, nem ninguém daqui apreendeu o significado oculto da passagem que eu citei e, por isto, vou revelar-vos o que ela esconde. Não há tempo para que eu vos ensine tudo o que está velado nos vossos livros. Mas esta passagem é importante e logo sabereis porquê. 

— Primeira pergunta que deveis fazer: Quem é o Senhor? Eis a resposta que ainda não descobristes: O Senhor é o Eterno na raça humana porque ele é a Consciência-Sabedoria que dormita em cada um de vós. E quem é Abraão? Abraão é cada pessoa que ainda não atingiu a maturidade suficiente para ter em seu íntimo despertado o Senhor que dentro dele dorme. O homem tem três consciências: a Primeira, a Consciência-Imaturidade. Ela é importante porque sem esta Consciência o Homem não se aventuraria a expandir seus horizontes; em desafiar o perigo e através deste, conhecer que a Vida terrena também é feita de amargores, sofrimentos, ódios, medos e arrependimentos. A segunda Consciência é a Consciência-Prudência. Esta só é despertada depois que o Homem atinge a maturidade e, tendo vencido suas batalhas para adquirir Conhecimento, aprendeu que necessita de respeitar o Meio em que vive, porque desafiá-lo e desrespeitá-lo é trazer sobre si sofrimento, dores, rangeres de dente e morte. Finalmente o Homem desperta sua Terceira Consciência, a Consciência-Sabedoria. Para que tal aconteça, o Homem necessita de ter aprendido que ninguém vive sozinho neste mundo; que todos necessitam uns dos outros. Que a ação boa ou má de um, sempre reverterá em conseqüências boas ou ruins  para o que agiu. Que o Belo na Terra é transitório e tudo tende para o pó, de onde tudo começou. Que no cemitério do Tempo nada perdura, nem mesmo a lembrança do que um dia foi deslumbrante aos olhos dos tolos e iludidos. A Consciência-Sabedoria só é despertada quando o homem está avançado em idade e o fogo hipnotizador das falsas riquezas e das falsas belezas materiais já não mais o iludem.  A Consciência-Sabedoria é pois o Pai despertado em cada um de vós. Ai daquele que chega à idade provecta sem ter alcançado a graça do despertamento de Seu Pai Celestial: sua Consciência-Sabedoria. Sem o Pai, homem nenhum será o Senhor do Mundo, mas sim, seu escravo. 

— A segunda pergunta que todo homem se deve fazer é: Quem é Abraão? Eu vos revelo quem ele é. Abraão é todo homem que deve atirar-se ao mundo armado de paciência, compaixão, piedade e caridade, pois só assim será sábio e avançará no Caminho para seu encontro com o Pai que nele dormita e o espera. 

— A terceira pergunta que todo homem se deve fazer é: O que significa: “sai da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai e vem para a terra que eu te mostrarei?” Eu aqui revelo este significado velado aos que ainda não têm olhos de ver nem mente de compreender. O homem habita três terras de seu nascimento à sua morte física. A primeira Terra é aquela da ignorância onde reina a irresponsabilidade e a imprudência. Nela, o homem não passa de um tolo que se julga poderoso, forte, conquistador e dominador de seus semelhantes. Nela, o homem se impõe através de Poderes que não são senão quimeras, como a quimera do ouro e da prata e das armas e da subserviência de seus semelhantes que aprendem a temê-lo e, por isto mesmo, perdem a percepção da insignificância que é aquele que os amedronta. A segunda Terra é aquela da experiência adquirida através de derrotas e perdas e prantos e dores e sofrimentos e arrependimentos e desespero e desorientação e solidão. Todos estes males constituem a parentela da qual o homem deve sair para se dirigir para a Terra que o Senhor lhe mostrará. Todos estes males constituem a Terra em que se encontra todo homem no começo de sua vida carnal e é o conjunto das conseqüências destes males o Pai de cuja casa o homem deve sair para ir para a Terra que o Senhor lhe entregará. E nesta Terra todo homem-sábio tornar-se-á pai de um grande povo e este povo é a Fraternidade, a Piedade, a Bondade, a Caridade, a Compreensão e o Perdão, entre outras virtudes positivas que me dispenso de vô-las citar. Reinando sobre tão grande povo, o Homem-Sábio se sentirá abençoado pelo Seu Pai Interior, sua Consciência-Sabedoria. E seu Nome será abençoado e engrandecido entre os homens e ele será bendito aos olhos de seu Pai Interior e aos olhos dos que ainda estão na solitária jornada para o despertar deste Pai, pois o caminho da Glória Divina é solitário e feito de muitos escolhos e muitas quedas e muitos espinhos e muitas lágrimas. Elas são necessárias para que o íntimo do Homem seja lavado da sujeira de sua família de origem, cujos membros são: a Ignorância, a Arrogância, a Concupiscência, a Corrupção, o apego a valores venais e ilusórios; as paixões sem valor e a Mentira. De todos estes vícios, estes parentes do homem incauto e imaturo, o pior e mais perigoso é o último: a Mentira. Ela é o Filisteu Golias que o menino hebreu David deve abater armado apenas de uma funda e uma pedra. E eu vos deixo o desafio de tentar compreender o significado destes símbolos velados em vossos livros sagrados. 

Finalmente, o que se deve compreender com a última sentença da mensagem velada no Pentateuco, cuja passagem eu vos citei? “Eu abençoarei aos que te abençoarem e amaldiçoarei aos que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as gerações da Terra”.

Yehoshua calou-se e o silêncio pesou como chumbo sobre a platéia hipnotizada pelo que ele dizia. Nas mentes de seus ouvintes um vendaval de emoções se fazia presente. Umas, despertando a alegria de Saber; outras, rebelando-se porque ainda não estavam preparadas para deixar a Terra e a Parentela com os quais se pensavam seguros. Estes, não compreendiam como fazer para lidar com seus novos Parentes e seu novo Pai. Como mudar radicalmente o sistema de vida que vinham levando que lhes dava uma grande sensação de Poder Venal, do qual não conseguiam nem se imaginar vivendo sem ele?

Yehoshua voltou a falar e todos os ouvidos se alertaram para não perder uma só de suas palavras. Os que vos abençoam são as boas ações e os bons sentimentos. Os que vos amaldiçoam são as más ações e os maus sentimentos. A Consciência-Sabedoria é o Inominado que, no íntimo de seu filho, o Homem, abençoará os primeiros e amaldiçoará os últimos”. Estes, para que sejam novamente submetidos à mó das almas. Aqueles, para que sejam engrandecidos perante o Senhor.

Yehoshua o doutrinador

O Pastor de Almas era altivo, mas nem por isto rancoroso ou arrogante. 

—Agora, meus irmãos, eis o motivo de minha presença aqui. Tenho sido vigiado por esbirros deste Templo, mercenários pagos por vós, e todos têm sido instrumentados para me prender se eu estiver infringindo os livros sagrados e suas Leis. Mas eu tenho dito que não vim para modificar a Lei, mas sim dar-lhe testemunho e ratificá-la. E todos vós sabeis que ela é uma só: Fazei ao vosso próximo o que desejaríeis que ele vos fizesse a vós.” E foi um de vós que ela vos revelou, não eu. Todas as minhas pregações estão rigorosamente dentro desta Lei. Então, se eu me atenho à Lei e a apregoou por onde passo e dou exemplos irrefutáveis de que só dentro dela se encontra o caminho para a Salvação do homem, por que vós vos preocupardes comigo e com o que faço? Abel arregimentou um punhado de seguidores seus que estão ensandecidos contra mim. Mas que mal eu lhes fiz? Orei ao meu Pai e lhe pedi que curasse o mal que torturava esse rabi e meu pedido foi aceito. No entanto, por que Abel e seus seguidores me perseguem? Está, ele, a serviço vosso? Por qual razão? Aqui vim para que vós me questioneis sobre vossas dúvidas. Eu as responderei a todas com a clareza de que necessitais para compreenderdes que não sou adversário do Templo, mas sim o mais fiel aliado dele.

Todas as cabeças se voltaram para onde se sentava o rabi Abel, bem à esquerda, na primeira fileira de cadeiras do local de julgamento do Sinédrio. O rabi percebeu que era, agora, o alvo da curiosidade de todos. Havia claramente sido acusado pelo atrevido milagreiro de Nazaré e não podia deixar que aquilo passasse impune. Então, pôs-se de pé e falou com voz alta para ser ouvido por todos.

— Esse homem, Yehoshua como é chamado, se diz o Filho de Deus. Só isto é uma blasfêmia que merece ser punida com a lapidação, segundo nossas leis.

— Esse homem afirmou com todas as palavras que devemos pagar os malditos e exorbitantes tributos que o César romano nos cobra. Tributos que deixam em absoluta e total penúria muitos de nosso povo. Eles perdem tudo, casa, terra, animais e bens. Mas, ainda que sabedor disto, Yehoshua nos diz que devemos pagar o amaldiçoado tributo que César nos cobra.

— Esse homem defendeu uma prostituta diante de toda a população da vila em que ela foi flagrada praticando a fornicação a troco de moedas. Ela vendia seu corpo e fazia que os homens se tornassem traidores de suas esposas e pecassem contra Yaveh. Como alguém pode dar respaldo a mulheres tais?

O dedo acusador de Abel apontava para Yehoshua tremendo de indignidade. Por ele, o Mestre seria entregue a Pôncio Pilatos para ser punido pelas leis romanas, já que os hebreus estavam proibidos de condenar e executar criminosos.

Todas as cabeças se voltaram para Yehoshua e o silêncio era de grande expectativa. O que diria o filho do construtor em sua defesa?

— Abel — E a voz do Mestre soou como o som de um gongo preenchendo todo o ambiente —, eu não me digo filho de deus. Eu sou o Filho de Deus entre os homens tanto quanto vós também o sois. E tenho apregoado isto por onde quer que passo. Podeis chamar a qualquer homem, mulher, criança, hebreu e não hebreu que me tenha ouvido pregar e não encontrareis entre eles quem desdiga o que aqui acabo de afirmar. Tu me ouviste várias vezes e acabaste de me ouvir aqui também. Eu, como alguns dentre vós, alcancei minha identidade com minha Consciência-Sabedoria. E se ela está em todos os homens, inclusive em ti também, por que me acusas de crime, se nada eu disse ou fiz que mereça tal acusação? Em que te ofendi para que tu me tenhas tanto ódio, Abel?

Todas as cabeças acenaram afirmativamente, até as de Caifás e Anás. Abel, que passeava seu olhar sobre os presentes, não se sentiu confortável com aquela concordância silenciosa com o homem diante de si.

É LÍCITO PAGAR TRIBUTO A CÉSAR

Yehoshua mostra a moeda a Abel e lhe pergunta de quem é a efígie gravada nela.

— Tu entortas minhas palavras para me fazer criminoso aos olhos dos juízes aqui presente — continuou o Mestre. — No entanto, o fato como aconteceu, por que não o dizes claramente a todos que nos escutam? Esqueceste? Pois eu o relato e se eu mentir, então, desmente-me se fores capaz. Tu me perguntaste se era lícito que se pagasse impostos a Roma, não foi?

Todas as cabeças tornaram a se voltar para Abel, que, constrangido, acenou um sim com a cabeça, confirmando o que Yehoshua acabara de dizer.

— Então, o que eu fiz? Podes relatar para os outros, aqui presentes?

Abel abaixou a cabeça e esfregou as mãos em franco desconforto, mas não disse nada.

— Eu te pedi que me mostrasses uma moeda e te perguntei de quem era a efígie  nela gravada. O que tu e os que te acompanhavam me responderam?

Yehoshua calou-se e o silêncio pesou sobre Abel, juntamente com todos os olhos inquisidores que esperavam dele uma resposta. Pigarreando e sem olhar para ninguém, Abel falou e sua voz estava rouca e baixa, mas audível.

— Eu te respondi que era a efígie de César.

— E o que eu te disse, depois que me informaste sobre de quem era a efígie na moeda?

— Tu nos disseste: “Então, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. 

— E não pertence a César a prata que há em todas as moedas que aqui circulam? Então, onde cometi erro? Ao Senhor nosso Deus interessa algumas moedas se Ele é o Dono Absoluto de tudo o que há em sua criação, a Terra? Quanto ao confisco dos bens e dos mantimentos de nossa gente, Abel, são os cobradores de impostos que o fazem por suas próprias iniciativa e ganância, pois a César interessa a prata, não a pobre comida e os pobres haveres de nossa gente. E grande parte de tais cobradores são gente nossa, hebreus, cujas Consciências-Sabedoria ainda jaz em sono profundo em seus íntimos. Para que César os quereria, aos pobres bens e haveres dos hebreus, se tem a seu dispor o que há de melhor no mundo em tais requisitos?

O silêncio que se fazia enquanto Yehoshua falava era denunciado pelo som solitário das palavras certas que ressoavam pelo ambiente. Nem mesmo um só dedo se mexia entre a assistência e muitas, quase todas as cabeças, assentiam em aprovação ao que Yehoshua dizia. Abel se sentiu nu diante do Sinédrio.

ATIRE A PRIMEIRA PEDRA AQUELE QUE NUNCA PECOU

Yehoshua desafia os acusadores e os desafia.

— Sim, eu defendi uma mulher, não uma prostituta, pois nenhuma mulher nasce prostituta. Quem as leva a tão vil condição humana, eu te pergunto: quem é?

— O próprio homem! — Gritou Anás inflamado pela retórica de Yehoshua. Caifás o fuzilou com um olhar chamejante. Seu genro não devia se pronunciar a favor de nenhuma das partes, quando estas estivessem se defrontando. Todas as cabeças assentiram vigorosamente apoiando as palavras do sinedrita chefe.

— Correto. Agora, se Abel realmente é justo não faltará com a verdade: Abel, quantas vezes tu de deitaste com uma daquelas a quem desejas lapidar, quando estão, tu e ela, à luz do Sol? Pois o pecado, principalmente os da carne, muitos homens cometem durante a noite, ao abrigo de olhos que os poderiam condenar. Até de sua Consciência-Sabedoria eles pensam que enganam porque naquele momento ela não se manifesta. Mas em verdade, em verdade eu vos digo: O Pai que habita em todos nós não tem pressa em medir, pesar e perdoar ou julgar seu filho, pois sabe de sua fraqueza diante do poder da Carne. Os que pecam tendo em seu íntimo más intenções e sentimentos vis, estes sim, sofrerão a condenação do Pai àqueles entes sentimentais que maltratam seu filho. Ele não condena seu filho, mas àquela família de que nos fala o trecho que citei do Deuteronômio.

O silêncio se tornou pesado e muitas cabeças se curvaram como se seus donos procurassem se esconder do olhar que passeava sobre os rostos dos presentes. Sim, agora eles tinham a prova de que Yehoshua não era fácil de ser confrontado, pois quando abria sua boca desmontava qualquer oponente. Abel nada respondeu. Devagar, sentou-se e também ele curvou a cabeça sobre o peito. 

—  Eu me recordo de ter pedido que alguém, dentre os homens presentes naquele momento em que a pobre mulher era insultada e ferida, atirasse a primeira pedra se se julgasse sem pecado. Abel, qual foi a reação de todos os que lá estavam, inclusive a tua?

Abel não respondeu, mas Caifás, irritado com a desmoralização de um sinedrita perante os demais, trovejou:

— Ao menos a uma das perguntas que ele faz, responde, rabi Abel! Por que tu nos envergonhas?

Abel pigarreou e teve de tentar por três vezes antes que sua voz se fizesse alta o suficiente para ser ouvida pelos demais.

— Todos nos retiramos, pois, além do desafio, Yehoshua tinha escrito no chão os defeitos de cada um de nós que ali estávamos.

O silêncio se tornou insuportável após aquela confissão de Abel. Caifás, então, pôs-se de pé e caminhou para o lado de Yehoshua.

— Tenho vergonha de ver que quase todos aqui, senão todos, não podem fugir às duras sentenças de nosso irmão Yehoshua. Eu mesmo tenho sido instigado contra ele e algumas vezes o desrespeitei em sua ausência. Mas com o testemunho silencioso de Abel, o filho do construtor nos provou que não comete crime algum em suas pregações ao nosso povo e aos gentios. No entanto, quero chamar a atenção dele, aqui e agora, para o perigo que é para todos nós a agitação que provoca entre nosso povo com seus milagres estranhos e incompreensíveis, que diz serem realizados pela vontade de nosso Pai, Yaveh.

— Se tal fosse verdade — cortou Yehoshua — também sou perigoso para os romanos, pois até um Senador veio a Jerusalém em busca de mim para obter a cura de sua filhinha que sofre de um mal considerado incurável pelos médicos que ele conhece. E não somente ele me procura entre os gentios. Há centuriões e legionários que eu atendi em suas dores e sofrimentos, visto que para nosso Pai Celestial, todos somos irmãos, uma vez que todos somos descendentes de sua Criação, Adão. Inclusive Eva, que por isto mesmo, tem Espírito tanto quanto qualquer homem deles dois descendentes. Nosso Pai Celestial é perfeito e não criaria uma criatura, a única no seu Éden, imperfeita, justamente aquela que Ele carinhosamente deu a seu filho Adão, nascido de Adam Kadmoni, ordenando-lhes que crescessem e se multiplicassem.

— Yehoshua fala com conhecimento — disse Caifás. — E dou por encerrada esta nossa reunião, mas proíbo que ela conste nos registros do Sinédrio. Assim tenho dito.

Todos se ergueram em silêncio e todos, inclusive Caifás, se retiraram sem um olhar sequer para o Mestre dos Mestres. Anás, porém, desceu até ele e lhe perguntou onde iria pernoitar. Yehoshua sorriu e lhe respondeu que tinha amigos nas casas dos quais poderia passar aquela noite, pois no dia seguinte teria de comparecer ao castelo de Pilatos que o mandara chamar sem explicitar por qual motivo. Esta informação preocupou Anás, mas antes que ele pudesse dizer alguma coisa Yehoshua se retirou.

Anás foi rápido atrás de Caifás. Ambos tinham de também estar no Palácio de Pilatos para impedir a prisão de Yehoshua. Se tal acontecesse eles temiam uma rebelião sem igual em toda a Palestina.