O MISTÉRIO DE PARGOS – CAPÍTULO XI – A OUTRA FACE DA REALIDADE QUE NÃO VEMOS

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Capítulo XI – A Outra Face da Realidade que Não Vemos (Parte 1)

Nossa Realidade não é única e linear. Vivemos mergulhados no passado tanto quanto no presente, no nosso aqui-e-agora.

Nossa Realidade não é única e linear. Vivemos mergulhados no passado tanto quanto no presente, no nosso aqui-e-agora.

Ivaldo estava na cozinha observando atentamente Andréa enquanto ela preparava o seu lanche. Tudo se acalmava no chalé e ele começava a ouvir o pio de aves noturnas e os in­setos em sua eterna cantilena. A mu­lher parecia bem mais nova do que dizia ser. Os cabelos brancos que sur­giam em sua cabeleira negra demonstravam que já passara apuros e tensões acima da média. Era parcimoniosa no falar e parecia ansiosa por se livrar de­le. Do canil veio, súbito, estranhos uivos dos cães. Ivaldo não gostou daquilo. Era muito lúgubre e sempre lhe trazia à recordação os filmes de lobisomem que assistia quando era criança.

— O que há com eles? — perguntou para puxar conversa.

— Não sei. Não costumam fazer isto, não — respondeu Andréa indo até o janelão olhar lá para o canil. Era visível dali.

— Não gosto de ouvi-los. Talvez chorem os amigos mortos. Em minha terra, é sinal de azar… mau agouro — disse a mulher ainda olhando pela janela.

— Não creio nisto. Sou mais pela saudade dos que se foram. Quando eu era criança via muitos filmes de lobisomem e neles havia muitos uivos. Não gosto de ouvi-los porque me lem­bram as noites que perdi tremendo de medo sob as cobertas – disse Ivaldo. Andréa o olhou sé­ria.

— Não brinque com isto, detetive. Em Minas há lobisomens.

— Ah, você é mineira?

— Sou.

— De que cidade?

— Sou de Porteirinha.

— Nunca ouvi falar.

— É  uma cidade pequena.

— Quando veio para cá? Quero dizer, para o Rio de Janeiro?

— Tinha cinco anos. Mas durante algum tempo eu voltei a Porteirinha para visitar meus pais.

— Por que veio para o Rio?

— Porque fui trazida por uma tia que já vivia aqui há tempo.

— Morava aonde a sua tia?

— Na favela da Rocinha.

— Ela ainda vive lá?

— Não sei. Nós nos separamos há muito tempo. Casei e fui viver em outro lugar.

— E não mais viu a sua tia?

— Bem, a gente se visitava uma vez ou outra. Sabe como é, né. Vi­da de casada não é moleza, não. A gente tem de toma conta do marido. De­pois, vêm os filhos… O tempo vai en­curtando como roupa de criança.

Os uivos recrudesceram. Eram longos e doridos.

— Diabo, — exclamou Andréa contrariada —, desse jeito eles vão perturbar o sono de todo mundo. Onde estará o Clóvis que não vai lá, dar um jeito nisto?

Ela voltou a olhar pelo janelão. Ivaldo observou que a mulher te­ve um recuo de espanto e levou a mão à boca. Ficou atento olhando-a mexer-se inquieta por algum tempo.

— O que é? — perguntou, finalmente, curioso.

— Eu… eu não sei. Tive a impressão de que havia alguma coisa lá perto do canil… — Andréa falava sem se voltar para ele. Algo realmente lhe prendia a atenção. Ivaldo levantou-se e foi também olhar pelo janelão. À luz da lâmpada do poste pôde ver o canil e al­guns cães passeando agitados lá dentro. Em volta, contudo, não distinguiu nada.

— Onde você viu…

— Lá! Entre aqueles matos. Tem alguém lá, está vendo?

A mulher falava nervosamente. Ivaldo fixou a vista e realmente pôde distinguir um vulto de branco aonde ela apontava.

— É… parece que há uma pessoa ali. Mas por que os cães uivam e não ladram? O mais certo era que ladrassem. A menos que seja o Clóvis.

— Não, não é. Clóvis não tem cabelos brancos na cabeça e aquela pessoa… se é que é uma pessoa, tem a cabeça toda branca.

Ela estava certa. Quem quer que fosse lá fora moveu-se e Ivaldo pôde ver que sua cabeça era branca como neve.

— De onde veio ele? — perguntou admirado. Os cães não pareciam no­tar a presença do homem tão perto do canil. Uivavam e passavam diante de­le sem o notar. Apenas uivavam.

— Eu… eu não sei… Talvez seja um lobisomem… Ai, meu Deus, eu estou toda arrepiada — falou Andréa quase em lágrimas.

— Calma. Isso aí só existe lá pras bandas de Minas Gerais. Pelo que sei, os tais lobos não gostam de água, muito menos salgada. Vou lá fora esclarecer isto. Vem comigo?

— EEEUUU? Nem pensar! — Exclamou a mulher, recuando um passo e se persignando, olhos esbugalhados de medo.

— Bom… Está bem. Fique aqui e olhe pra nós, lá fora. Se acontecer algo anormal, grite pelo meu parceiro. Sabe o nome dele, não sabe?

— Sei. É  Damastor.

— Ótimo. Ah, e quando eu voltar, ponha mais bacon no meu prato. A fome vai aumentar, com certeza, depois disto.

Lobisomem pode ser uma lenda, mas quando se está na escuridão e ouve um uivo...

Lobisomem pode ser uma lenda, mas quando se está na escuridão e ouve um uivo…

Ivaldo saiu brigando com o seu coração que teimava em ir bater na goela. Não podia saber qual o motivo daquele medo. Talvez fosse devido ao irritante uivar dos cães. Ou talvez fosse o medo de que Andréa estivesse certa quanto ao tal lobisomem. Fosse como fosse, não conseguia manter seu tique-taque dentro do peito. “E não tenho nem uma bala de prata” pen­sou.

Deu a volta ao chalé e desceu o caminho de pedra que levava até o canil. Os uivos continuavam. Ele olhou o relógio: dez para a meia-noite.

— Isto é pura coincidência. Meia-noite é somente uma hora. Não há absolutamente nada de anormal em um homem de cabelos brancos surgir numa ilha à meia-noite — mur­murou, tenso.

Mas por mais que falasse de si para consigo, Ivaldo não conseguia deixar de sentir os pelos de pé e aquele frio horrível na boca do estômago. A noite estava amena e até que fazia um friozinho agradável. Uma ne­blina suave vinha do mar e espalhava-se sobre a mata como tênue chumaço de algodão. Até que seria romântico, se não fosse a estranha sensação de medo que o invadia.

Chegou ao canil. Mais além da luz do poste a escuridão era espessa e o policial disse de si para si mesmo que não passaria dali nem que lhe dessem a super sena acumulada de presente. Olhou em volta e nada viu. Os cães pararam de uivar e começaram a rosnar amea­çadores.

“Onde diabo se meteu o tal velho?” — perguntou-se Ivaldo intriga­do e ainda com a sensação de medo, agora acrescentada de outra: a de que estava sendo observado. Respirou fundo, abaixou-se e levantou-se várias e várias vezes para combater a imobilização que o medo já passando a pânico tentava imprimir às suas pernas. “Tenho de ficar móvel. Se o tal jacaré aparecer… ou o tal velho, sei lá, não posso ‘pagar mico’. A Andréa me ob­serva lá do janelão.”

 — Boa-noite, jovem. Tem algum problema com as pernas?

A voz era firme, mas nitidamente de um velho. Ivaldo voltou-se rápido como um raio e deu de cara com um senhor de sorriso simpático, cabelos muito brancos e corpo saudável. Ele estava com a mão estendida amiga­velmente e trajava uma calça rústica, de linho, sem bolsos e cujas pernas paravam a meio canela. O blusão era de linho alvo e de gola inteira e curto. O susto tirou a voz ao po­licial, mas não lhe roubou a rapidez. A arma saltou-lhe para a mão como num passe de mágica e estava engatilhada apontando direto para a testa do homem que sorria amigavelmente.

— Oh!… Quem é o senhor? — Ivaldo estranhou a própria voz. Ela saía rouca e quase surda.

— Calma, jovem. Sou um pescador. Vi a luz acesa e vim pedir um pouco de comida. Sabe, o mar, hoje, não está pra peixe. Pode guardar a arma. Sou de paz.

Ivaldo pestanejou e, desconcertado, guardou a arma apressadamente.

— Desculpe, senhor. É que tivemos um problema sério aqui, hoje.

— Tudo bem. Desculpe o susto. A gente pode entrar? — E o simpático velhinho apontou o caminho como se convidando Ivaldo a segui-lo para o chalé. O polícia, ainda sem jeito e trêmulo pelo susto, assentiu com a cabe­ça. Os dois encaminharam-se para o chalé. O medo sumiu rapidamente e Ivaldo sentiu-se como se estivesse andando pela avenida Presidente Var­gas na hora do rush. A companhia do velhinho acalmara-o e ele quase chegava a rir de seu medo. Não notou que os cães tinham-se aquietado e deitado no canil.

De seu posto na janela Andréa viu quando o velho aproximou-se por trás do detetive. Não estava entendendo porque o polícia abaixava-se e ficava de pé seguidamente no mesmo local. Mas quando os viu subirem a rampa amigavelmente, como dois velhos conhecidos, acalmou-se. Deviam ser conhecidos. Talvez o recém-chegado também fosse um policial, quem sabe?

Foi recebê-los à porta da cozinha.

— Oi, Andréa, como vai? — e o bom velhinho estendeu a mão afavelmente para a espantada serviçal.

— Oi… De onde nos conhecemos? — perguntou a mulher.

— Ora, nós não nos conhecemos pessoalmente. Mas você é famosa entre os pescadores da região — disse o velhinho com um sorriso cativante.

— Co…como é que é? — espantou-se Andréa.

— A gente pode entrar? — perguntou Ivaldo impaciente. O seu cansaço sumira por in­teiro, mas a fome, não.

— Sim, sim, por favor… — e a mulher deu passagem aos dois. Eles foram direto para a mesa e se sentaram.

— Andréa, pode colocar mais um prato aqui pro nosso vovô? — pediu Ivaldo jovialmente, intimamente estranhando a si mesmo. Passara do medo à euforia muito rápido. — Ele me disse que veio à ilha pedir um pouco de comida. É um pescador, sabia?

— Não. Eu… — a mulher olhava espantada para o recém-chegado. Havia uma paz enorme nele, capaz de contagiar quem estivesse por perto e ela, mesmo sentindo o efeito daquilo, não podia furtar-se ao espanto pela sua presença na ilha. Era a primeira vez que um pescador vinha dar ali. E ela não entendia como podia ser famosa, pois nunca tivera contato com eles, antes. Seus olhos encontraram os do velhinho e uma inquietante sensação de culpa a acometeu. Queria deixar de olhar naqueles intrigantes olhos azuis, mas não conseguia. O pranto subiu-lhe pelos olhos e pela garganta e quase sufocou no esforço para contê-lo. A custo deu as costas aos dois e se dirigiu ao forno do fogão onde preparava o repasto.

— E então, — disse Ivaldo animadamente — como é que conhece a nossa ilha?

— Oh, eu vago por aí, entre elas. Esta é destacada pela moradora.  É muito famosa, pela sua bondade para com os pobres da região. — O velho tinha um olhar muito estranho, calmante e alegre, mas havia um magnetismo quente naquele olhar que hipnotizava e dava a impressão de dominar a vontade de quem o olhasse nos olhos.

— É mesmo? Ora essa, eu não sabia — Exclamou Ivaldo sinceramente admirado.

 — A Dra. Milena mantém um asilo para velhos pescadores e uma creche para os filhos daqueles que ainda batalham no mar. Ela é muito boa conosco. Foi por isto que me atrevi a vir pedir comida. E o senhor, o que faz armado por aqui?

— Bem, sou policial. E aconteceu algo muito estranho aqui, hoje.

E Ivaldo narrou com cores vivas o incidente na ilha. Andréa colocou os pratos na mesa e serviu a água pedida. Depois, pediu licença para se retirar, mas foi detida pelo velhinho que lhe disse:

— Fique. Estará mais segura aqui, conosco. Acredite em mim.

O Mundo Vira de Cabeça Para Baixo

Em sua suíte, Damastor acabara de tomar um banho e estava com o roupão ainda úmido, deitado na deliciosa cama de colchão de água. O carrilhão na parede soou as 23h e 45min. De olhos abertos e fixos no teto, o detetive pensava em tudo o que acontecera ali. Os lençóis aconchegantes e a cama deliciosa o relaxavam. A suíte era maravilhosamente bem ornamenta­da, puro bom gosto em tudo, desde as estatuetas de marfim e jade, até a pintura em cores pastéis das paredes e do teto. As cortinas escureciam a suíte e a luz indireta dava a tudo um ar mágico de imponderabilidade. No entanto, nada impedia que o marulho do mar chegasse até o detetive, relaxando-o mais ainda. Aquele ronronar da água lá longe era como o ninar de uma mãe carinhosa. Um torpor gostoso foi tomando conta de Damastor, invadindo-lhe os ossos e distendendo cada músculo do corpo, mesmo os mais profundos. Mergulhado no torpor do sono que se aproximava de mansinho como o andar de um gato sobre areia, Damastor recordou o rosto de sua ex-mulher e uma sucessão de lembranças confusas lhe surgiram de algum lugar em sua mente. O rosto do Dr. Hélios misturou-se ao daquele homem que lhe oferecia café nas tripas do defunto… o corpo de Selênia e de seus filhos… o garoto com o pescoço torcido e rindo macabramente para ele… Kantor no palanque de luxo da Apoteose abraçando desavergonhadamente o Governador… o rosto bonito de Karina sorrindo sensualmente para ele… o braço de Khamal ainda pingando sangue… Ivaldo pedindo ovos com bacon a Andréa… Andréa sorrindo para Milena… Andréa…Téia… Téia…Téia… O sono se foi. Damastor abriu os olhos e olhou a janela aberta. Tinha a impressão de que as cortinas estavam fechadas quando ele estivera a ponto de mergulhar na inconsciência do sono. Uma brisa suave fazia a sobre­cortina finíssima balançar levemente, como um fantasma cor de rosa. A luz de uma lua cheia brilhante prateava a copa das árvores lá fora e Damastor teve sua atenção voltada para elas. O que poderia estar causando aquela sensação de inadequação nele? O detetive levou algum tempo para compreender. O chalé era alto e, deitado como estava, não seria, de modo nenhum, possível avistar árvores pela janela. Quando muito, avistaria o céu azulado pela lua cheia. Mas como podia haver lua cheia se estavam na lua nova? A sua suíte, como as demais, estava no terceiro pavimento do chalé e sua janela dava para a parte inferior da ilha. De onde, então, vinham aquelas copas tão altas e tão frondosas? E como é que a lua surgia tão cheia se devia estar do outro lado do planeta? O detetive sentou-se na cama e fixou a vista através da janela. Não podia ser. Aquilo, realmente, não podia ser verdade. Ele estava vendo um maciço negro, muito alto, com lapas agudas apontando para o céu. O maciço tinha a silhueta recortada con­tra o céu azul escuro e parecia-se com uma tocha enorme em pedra negra. Damastor esfregou os olhos e se beliscou. Não estava sonhando. Sonhos não doem e ele sentira a dor do beliscão. Levantou-se sempre fixando o maciço e as copas das árvores. Aquilo não podia estar ali. Não podia porque não estava ali, antes. E, no entanto, ele via claramente a enorme montanha re­cortando-se contra o céu azul prateado pela luz fantasmagórica da lua cheia. O detetive des­viou os olhos e passeou a vista, cuidadosamente, por todo o cômodo. “Posso fazer o que quero. Sou dono de minha vontade. Não estou sonhando, então.” Voltou a fixar a vista lá fora, mas a estranha paisagem continuava a existir. Cuidadosamente Damastor pôs-se de pé e foi até o banheiro. Calmamente meteu-se sob o chuveiro de água gelada. Acabou o demorado banho, friccionou-se fortemente com a toalha, fez várias flexões até sentir os músculos doerem e deu-se por satisfeito. Estava, com certeza, desperto. Meteu-se num roupão de banho atoalhado e voltou para o quarto. Tinha absoluta certeza de que não mais veria aquilo lá fora, fosse o que fosse. Mas estava errado. A montanha negra continuava lá. As copas das árvores, também. Agora, o chalé tremia a seus pés. “O que diabo é isso?” perguntou-se surpreso o detetive. Per­maneceu atento até perceber que era o resultado do rebentar das ondas na praia. O barulho surdo penetrava pela janela aberta e lhe invadia todos os sentidos. “Não sei o que se passa lá fora, mas não vou ficar em dúvida por muito tempo, não.” Decidido, ele foi até a janela e olhou para fora. Estava certo de que veria o solo lá em baixo, e nele, o caminho de pedra que levava ao canil e mais adiante, lá bem longe, as luzes do continente. Não foi o que aconteceu. Do outro lado da janela havia um chão de areia alvíssima, onde o luar se refletia como se num espelho esbranquiçado. Ao lado, duas árvores frondosas e espalhadas até onde podia divisar, muitas palmeiras. Ele olhou para as frondes e viu os cocos. Eram coqueiros. “Não pode ser. A ilha não tem um nem pra remédio!” pensou espantado o policial. Passando a uns dois metros da janela, um caminho pedregoso e coleante que avançava por entre grandes rochas em di­reção a algum lugar. Ele olhou para o fim do caminho e divisou uma grande claridade. “Parece que temos uma fogueira lá perto da praia.” pensou o detetive tentando ficar calmo e lógico. O ambiente era árido e feio. Afora os coqueiros e as duas árvores das quais divisara as copas quando deitado, tudo o mais eram rochas grandes e escuras. O ar era estranhamente muito seco e a tempera­tura amena. A luz da lua fazia tudo ficar com um estranho quê fantasmagórico. Damastor vol­tou para o leito e se sentou. Apalpou-se, olhou-se no grande espelho da parede e concluiu: “Não é sonho. Estou plenamente desperto. Estou na suíte e ela é a mesma de quando aqui en­trei. No entanto, lá fora tudo mudou. A mata atlântica não existe mais. Coqueiros que não estavam ali quando cheguei, agora estão. E há uma montanha mais alta que o Pão de Açúcar onde, antes, só havia céu azul. É uma loucura, mas é real. Como pode ser isto?” O detetive vol­tou à janela. Agora, viu algumas pessoas correndo em direção à fogueira da qual só via o clarão. “Não posso ficar assim, só olhando para isto. Vou também lá pr’aquela fogueira. Eu pre­ciso, e já, descobrir o que está acontecendo aqui.” E Damastor não hesitou nem um segundo mais. Saltou a janela e deu alguns passos pelo caminho pedregoso quando se lembrou de que devia ao menos levar sua arma. Quando, porém, voltou-se para a janela tomou um tremendo susto. Não havia mais o chalé. Ele tinha acabado de saltar a janela de um casebre de palha e pau-a-pique. Um casebre cuja palha do telhado era assanhada pelo vento que soprava forte. “Meu Deus, estou ficando doido! Onde foi parar o chalé?” Desorientado, Damastor deu alguns passos a esmo, sentindo a boca seca e o coração disparado. Estava sem roupa, somente com aquele roupão de banho e nada mais. Estava sem calçado e sem arma e acabava de ser jogado para algum lugar do qual não fazia a mínima idéia.

— IVAAALLLDOOOO! KARIIIINAAAAA! ONDE ESTÃO VOCÊS? O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?

Seus gritos, contudo, eram apagados pelo forte vento que assoviava funebremente nas pedras negras. Os vultos que vira correndo já não estavam mais à vista. Apenas o clarão da fogueira continuava a brilhar. E, agora, parecia mais longe do que quando o vira pela janela do chalé. Damastor deu algumas voltas totalmente desorientado. Parecia um peru tonto pelo vinho que lhe tivessem dado.

“Não é possível. Estou ficando alucinado, só pode ser isto. Ou, então, de algum modo me deram um alucinógeno na bebida. Mas por que?E quem poderá ter feito isto? A tal de Téia?”

Uma gritaria chegou-lhe aos ouvidos. Vinha lá do clarão. Parecia que uma multidão estava reunida lá.

“Será que é uma festa? Mas a esta hora da noite? Bom… E por falar em hora, que horas serão, agora? Estou sem relógio…”

 Os gritos aumentaram. A bulha era enorme. Damastor parou de se preocupar com a sua situação e ficou prestando atenção ao alarido. Não conseguiu entender nenhuma palavra, mas atribuiu isto ao vento que soprava forte. Caminhou devagar até o casebre e olhou através da porta aberta. Lá dentro, iluminados apenas por um archote rude fincado num suporte na parede, pôde ver uma mesa muito rústica, alguns bancos de três pernas e sem qualquer en­costo, um pote num tripé e nada mais. O chão era de terra batida. Totalmente desorientado o detetive recostou-se no portal e ficou olhando a enorme e muito clara lua cheia no céu.

NOSSA SOBREVIVÊNCIA DEPENDE DE INSETOS. QUEM DIRIA…

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E elas também estão-se indo...

E elas também estão-se indo…

Há alguns meses eu li uma notícia que me prendeu a atenção. Nunca, antes, tinha atentado para o fato e creio que a maioria esmagadora dos brasileiros também não. A notícia dizia: O que aconteceria com o mundo se as abelhas e as formigas desaparecessem da Terra? A pergunta começou a preocupar cientistas quando apicultores da América do Norte e da Europa notaram uma queda acentuada dos enxames. O receio tem justificativa. Esses insetos garantem a diversidade e o equilíbrio do ecossistema. São tão importantes que, se fossem extintos, a humanidade certamente seguiria o mesmo caminho em um prazo bastante curto, algo em torno de cinco anos”. Mais

TABA DOS JENIPAPOS, 27 DE AGOSTO DE 1822

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A manhã estava fria e uma nuvem de vapor tornava tudo difuso naquele manto branco.

A névoa do amanhecer na mata traz um frio que incomoda a quem não está acostumado.

A névoa do amanhecer na mata traz um frio que incomoda a quem não está acostumado.

O sol ainda não nascera, mas sua luz já banhava preguiçosamente toda a mata. Tata-saru aproximou-se de Raimundo e sacudiu a rede onde ele dormia. Estremunhado, o “coroné” abriu os olhos e mirou o índio.

— Homem branco — disse Tata-saru — deves levantar cedo. Começa, hoje, teu ritual de casamento. Deves ir para a mata e caçar cinco caititus. Tens até o meio-dia para isto. Se não o fizeres, perderás a honra e não serás digno de ser oferecido aos Encantados do Parnaíba. Então, morrerás sob desonra. Anda! Eu torço por tua vitória, mas não podes contar com a ajuda de nenhum de nós. Levarás tua jacu-cangá e a arma que desejares — arco, flecha, lança, tacape… O que pedires. Mais