Eu e meus pais, em Campo Maior, Piauí. éramos felizes e não sabíamos...

Eu e meus pais, em Campo Maior, Piauí. éramos felizes e não sabíamos…

Nasci em 1940 e desde quando comecei a me entender como gente, ouvi meu pai envolvido com política. Não entendia nada das discussões em que ele entrava, muitas até excessivamente acaloradas, vejo agora, com a visão da recordação. Algumas vezes ele e seus opositores quase se pegam a socos e pernadas – meu pai era exímio capoeirista. Getulista fanático, seu Areoval não admitia defesa contrária ao seu credo político. Lembro-me muito bem que, contava eu cinco anos, ele me levou aos ombros para ouvir Getúlio Vargas em um comício que o baixinho fez em Teresina. Meu pai viajara de Campo Maior para a capital, naqueles idos uma viagem de meio-dia só de ida e comendo poeira à vontade, pois a estrada era de piçarra, apenas para participar do comício. Não havia ônibus e a viagem era feita em paus-de-arara. Claro está que não me lembro de nenhuma palavra do que Getúlio f  lou. Meus olhinhos de criança estavam esbugalhados diante de tanta gente – todos homens – enchendo a imensa praça onde o coreto tinha sido armado. Getúlio, para mim, era uma estatueta vestida de terno branco, pequenina, que se movia e agitava os braços trovejando palavas que eu não entendia. Mas eu me recordo de que meu coração vinha à goela ao imaginar aquele grupo de homens ululantes, como se fossem um só animal emocional, a cada pausa estudada que o baixinho fazia em sua peroração, estourando em fúria. Onde nos escondermos? Como nos salvar? Mais